Pesquisar
Pesquisar
Populares em festa num carro de combate em Lisboa, durante a Revolução dos Cravos, em 25 abril de 1974. (Imagem: Wikimedia Commons)

Cannabrava | 25 de abril: a revolução no meu idioma

Memória de um repórter diante da euforia que tomou Portugal

Paulo Cannabrava Filho, Heleno Araújo
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Eu estava em Moscou quando ocorreu o 25 de abril de 1974 em Portugal. Fiquei excitadíssimo. Puxa vida, uma revolução no meu idioma.

Não pensei duas vezes. Fui correndo. Consegui chegar a Lisboa no dia 27. E o que encontrei foi uma experiência fantástica.

A população estava em estado de euforia. Manifestava-se de todas as maneiras possíveis — nas ruas, nas praças, nos comícios. Não era apenas na capital. Era no país inteiro. Havia um clima de transformação no ar, uma sensação concreta de que a história estava sendo feita ali, diante dos nossos olhos.

Participei de comícios, acompanhei assembleias, conversei com trabalhadores. Eu atuava como repórter no Diário Expreso, um jornal expropriado e administrado por uma cooperativa de trabalhadores, em Lima, Peru. Era, por si só, uma expressão daquele momento.

Mas o mais impressionante era conviver com o povo português naquela euforia revolucionária. Porque havia, de fato, uma euforia revolucionária. Um sentimento coletivo de ruptura.

Cannabrava 25 de abril a revolucao no meu idioma b 2
.

A revolução, como se sabe, foi feita por soldados e oficiais que até então combatiam os movimentos de libertação nas colônias africanas — Guiné, Cabo Verde, Angola, Moçambique. De repente, esses mesmos militares deixam de combater e voltam suas armas para dentro, para derrubar o regime.

E o povo responde com um gesto simbólico que atravessou o mundo: distribui cravos aos soldados. Os fuzis passam a carregar flores. Há aquela imagem emblemática — um garoto segurando um fuzil com um cravo enfiado no cano. A força transformada em símbolo de paz.

Mas aquela euforia foi, aos poucos, sendo contida. O processo foi amainado, aplacado. O governo que se instala não é um governo revolucionário, mas uma coalizão de caráter social-democrata, com Mário Soares.

Ainda assim, o que se viveu naqueles dias foi único. Uma revolução feita por militares, abraçada pelo povo, e marcada por uma imagem que sintetiza tudo: a substituição da violência pela esperança.

Todo 25 de abril, essa memória volta a ocupar as ruas. A população toma a principal avenida de Lisboa, em celebração. Desfila, relembra, reafirma. E ali, entre bandeiras e vozes, surge também a presença simbólica de um tanque de guerra, lembrando que aquela revolução teve origem nos quartéis — mas encontrou sua força definitiva no povo.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.
Heleno Araújo Professor, ex-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) e atual coordenador do Fórum Nacional da Educação (FNE).

LEIA tAMBÉM

Diane Sare, candidata à presidência nos EUA Congresso tem poder para deter Trump a
Diane Sare, candidata à presidência nos EUA: Congresso tem poder para deter Trump
EUA Cultura, memória e luta anti-fascista
Nem estadunidenses veem democracia dos EUA como modelo; 7 em cada 10 desaprovam
Retido há mais de três meses no aeroporto de Guarulhos, casal saarauí divulga vídeo
Retido há mais de três meses no aeroporto de Guarulhos, casal saarauí divulga vídeo
P20260323MR-0621
Atentado contra Trump: discurso, evento e produção de sentido na política contemporânea