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A lembrança, por si só, não basta. Para que realmente nunca mais aconteça, é preciso enfrentar as raízes profundas que permitem a reincidência de projetos autoritários. (Foto: Joédson Alves / Agencia Brasil)

Cannabrava | 8 de janeiro: lembrar para que nunca mais aconteça

Não foi apenas uma tentativa, foi a prática concreta de ações golpistas contra a vontade popular

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O 8 de janeiro completa três anos como uma data que não pode — e não deve — ser esquecida. O que ocorreu naquele dia costuma ser chamado de “tentativa de golpe”, mas essa expressão é insuficiente para dar conta da gravidade dos fatos. Não se tratou apenas de uma intenção frustrada, mas da realização concreta de ações golpistas, planejadas e executadas com o objetivo de romper a ordem constitucional e impedir o cumprimento do resultado eleitoral.

Essas ações tinham como horizonte a permanência de um governo militar, em aberta desobediência às eleições que deram a vitória ao campo adversário e à ampla coligação que apoiou Luiz Inácio Lula da Silva. Tratava-se de um projeto de poder com nítido caráter fascista e militarizado, no qual postos estratégicos do Estado — nas mais diversas hierarquias — foram ocupados por militares. 

Uma centena deles, alçados a funções para as quais não tinham preparo técnico nem compromisso republicano, demonstrou incompetência administrativa, desprezo pela legalidade e subordinação acrítica a uma lógica autoritária de comando e obediência. Essa incompetência não foi neutra nem acidental: ela se traduziu na destruição deliberada de políticas públicas, no esvaziamento de órgãos civis do Estado, no abandono de áreas estratégicas como saúde, educação, ciência, cultura e meio ambiente, e na sabotagem sistemática de mecanismos de proteção social construídos ao longo de décadas.

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A militarização do governo funcionou, assim, como instrumento de regressão institucional e de desmonte do próprio Estado nacional. Uma frente muito ampla foi construída exatamente para impedir a continuidade de um projeto autoritário, de feição claramente fascista, que ameaçava as instituições e a própria convivência democrática.

Recordar o 8 de janeiro é um dever histórico. A memória desses fatos não tem caráter ritual ou meramente simbólico. Ela é necessária para que se compreenda a dimensão do risco que o país correu — e para que se evite qualquer tentativa de reescrever ou minimizar o que aconteceu.

Mas a lembrança, por si só, não basta. Para que realmente nunca mais aconteça, é preciso enfrentar as raízes profundas que permitem a reincidência de projetos autoritários. Isso exige uma transformação estrutural: a realização de uma verdadeira Revolução de Libertação Nacional, capaz de construir um país soberano, independente e comprometido com os interesses do seu povo.

Sem soberania, não há democracia plena. Sem independência, as instituições permanecem vulneráveis a pressões internas e externas que corroem a vontade popular. O 8 de janeiro, três anos depois, segue como um alerta incontornável e como um chamado à ação consciente, política e histórica.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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