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Mohammed Qashta, Abdel Raouf Shaath e Anas Ghanem, mortos por Israel em ataque nesta quarta-feira (21) em Gaza. (Fotos: Reprodução - Sindicato dos Jornalistas Palestinos)

Quando a testemunha é assassinada: jornalistas em Gaza entre o fogo da guerra e o dever da verdade

Quando um jornalista é morto e o assassino não é responsabilizado, o crime se transforma em precedente, e o ataque à imprensa passa a ser uma ferramenta legitimada em conflitos futuros

Wisam Zoghbour
Diálogos do Sul Global
Gaza

Tradução:

Tradução: Dauli Baja

O assassinato de jornalistas em Gaza já não pode ser tratado como um incidente isolado relegado às margens das notícias, nem como um detalhe secundário no contexto de uma guerra longa e aberta. O que está acontecendo é uma política clara e deliberada que tem como alvo a própria verdade, por meio do silenciamento daqueles que a transmitem em som e imagem, impedindo que ela chegue à opinião pública mundial sem distorção ou falsificação.

Em Gaza, o jornalista não é morto por estar no lugar errado, mas por estar no lugar certo. No coração do acontecimento, entre os escombros, perto das vítimas, testemunhando os bombardeios e a destruição, e transmitindo o sofrimento dos civis como ele realmente é. A bala que atinge um jornalista não visa um indivíduo apenas, mas busca silenciar uma narrativa inteira, apagar os fatos e privar o mundo de seu direito à informação.

O martírio dos colegas jornalistas Abdel Raouf Shaath, Anas Ghanim e Mohammed Qashta, nesta quarta-feira (21), não pode ser tratado como uma tragédia individual ou uma exceção passageira. Esses crimes fazem parte de um padrão recorrente de perseguição sistemática à mídia palestina, na qual o jornalista é punido por cumprir seu dever profissional, e não por qualquer papel combativo ou militar. Eles não carregavam armas, mas câmeras e microfones, e escolheram ser testemunhas, não silenciosas — pagando com suas vidas o preço da verdade.

O ataque a jornalistas constitui uma grave violação do direito internacional humanitário e uma clara infração às Convenções de Genebra, que garantem a proteção dos profissionais da imprensa durante conflitos armados. No entanto, a gravidade desses crimes não se limita à sua dimensão legal, mas se estende às dimensões ética e política; trata-se de uma expressão de profundo medo da verdade e de um reconhecimento implícito de que a palavra e a imagem se tornaram mais poderosas do que qualquer arma no campo de batalha.

O silêncio internacional, ou a simples emissão de declarações de preocupação, já não é uma posição neutra: tornou-se uma forma de cumplicidade. Quando um jornalista é morto e o assassino não é responsabilizado, o crime se transforma em precedente, e o ataque à imprensa passa a ser uma ferramenta legitimada em conflitos futuros, ameaçando a liberdade de imprensa em todo o mundo.

Defender os jornalistas em Gaza não é uma questão profissional restrita aos jornalistas, mas uma defesa do direito humano à informação e da liberdade de imprensa como pilar fundamental de qualquer sistema internacional que afirme respeitar os direitos humanos e o Estado de Direito. Pois quando a verdade é esmagada em Gaza, esse direito universal é corroído em toda parte.

Em Gaza, a verdade é bombardeada, mas não é enterrada.

Cada jornalista assassinado deixa para trás um testemunho vivo, uma voz mais alta, uma memória impossível de apagar e uma condenação que permanecerá, por mais longo que seja o tempo.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Wisam Zoghbour Jornalista, membro da Secretaria-Geral do Sindicato dos Jornalistas Palestinos e diretor da Rádio Voz da Pátria.

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