O assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse, em 7 de julho de 2021, marcou o início de uma das fases mais violentas e instáveis da história recente do Haiti — mas não o início da crise em si.
Moïse chegou ao poder em 2017, apoiado pelo ex-presidente Michel Martelly, num processo eleitoral envolto em denúncias de fraude e baixa participação popular. Sua presidência foi marcada por sucessivas denúncias de corrupção, uma tentativa de reforma constitucional controversa e a decisão de governar por decreto após o fim do mandato do Parlamento. Desde então, o país mergulhou em uma espiral de colapso institucional, econômico e humanitário.
Quer entender melhor este cenário? Ouça nosso podcast:
Embora Moïse seja hoje retratado por seus aliados como vítima de conspiração, sua trajetória política esteve fortemente marcada pela concentração autoritária de poder, pelo uso de forças repressivas para controlar protestos e pela submissão a interesses externos.
Seu governo foi duramente criticado por setores da sociedade civil haitiana, pela imprensa independente e por organizações de direitos humanos. A tentativa de prolongar seu mandato além do prazo constitucional e o uso de milícias estatais — como a Agência Nacional de Inteligência — aprofundaram ainda mais a deslegitimação interna.
A explosão de protestos em 2018 e 2019 contra a corrupção no caso Petrocaribe e a brutal repressão governamental pavimentaram o caminho para a radicalização da crise.

Após o magnicídio, a situação no país, longe de melhorar, deteriorou-se rapidamente. O governo interino de Ariel Henry não conseguiu contornar a situação e a tensão política se agravou ainda mais.
A ausência de eleições regulares, a vacância institucional e o fraco governo de transição instaurado após a queda de Henry, deram munição para o crescimento e fortalecimento das gangues armadas. Com apoio logístico e financeiro de setores da elite econômica e política, esses grupos ampliaram sua influência.
Em alguns casos, passaram de rivais territoriais para uma federação unificada — como o Viv Ansanm — responsável por saques, assassinatos, sequestros, estupros coletivos e ataques coordenados a instituições estatais, penitenciárias e aeroportos. A violência obrigou mais de um milhão haitianos a abandonarem suas casas, gerando uma grave crise humanitária.
Quer entender melhor este cenário? Ouça nosso podcast:
Ao mesmo tempo, observa-se que a solução para a crise é tratada por atores estrangeiros sem a escuta dos cidadãos e movimentos sociais haitianos. Situação que se repete desde o pagamento forçado à França por sua independência, em 1804, passando pela ocupação militar estadunidense entre 1915 e 1934, até o estabelecimento da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (Minustah), em 2004 e a tentativa de uma nova missão militar a partir de 2024.
Ou seja, o Haiti vem sendo palco de experimentos neocoloniais que fragilizaram sua soberania e corroeram suas instituições. As missões internacionais mais recentes — com destaque para a atuação da Minustah, com forças lideradas pelo Brasil — foram amplamente criticadas por sua ineficácia, repressão e contribuição à desorganização local. Após a morte de Moïse, a promessa de ajuda humanitária e de novas forças de pacificação renovam esse ciclo de dependência e ingerência.
Quer entender melhor este cenário? Ouça nosso podcast:
Há um consenso entre analistas haitianos e estrangeiros críticos: a crise haitiana não pode ser compreendida apenas como produto de pobreza ou instabilidade “natural”, mas como resultado de uma arquitetura global de dominação. Essa estrutura envolve tanto o apoio de potências como EUA, França, Canadá e Brasil, com o Core Group, quanto o papel de elites locais que manipulam gangues para defender seus interesses econômicos e políticos. Os vínculos entre líderes políticos e grupos armados, inclusive durante o governo Moïse, são amplamente documentados e revelam a instrumentalização da violência para manter o status quo.
Ainda assim, o assassinato de Moïse provocou uma rearticulação política. O governo de Ariel Henry, nomeado poucos dias antes do crime, assumiu interinamente, enfrentou protestos massivos, foi pressionado por gangues e pela comunidade internacional, e acabou por renunciar em 2024. Um novo governo de transição foi formado com apoio externo, principalmente do Core Group, prometendo eleições para novembro de 2025, algo impossível de ser realizado, já que não há nenhuma iniciativa neste sentido acontecendo no país.
Há consenso entre setores de esquerda do país que, sem romper com os mecanismos de dominação econômica, com a impunidade das elites e com a lógica intervencionista que marca a relação do Haiti com a comunidade internacional, a estabilidade continuará sendo apenas uma promessa vazia.
A história recente do Haiti oferece lições fundamentais. Ela denuncia os limites das soluções militarizadas, da tutela externa e da falsa neutralidade humanitária. Também exige uma nova abordagem centrada na descolonização, na escuta das vozes haitianas e no respeito à sua soberania.
Como expressou o antropólogo Handerson Joseph, não haverá democracia verdadeira no Haiti sem enfrentar as raízes do neocolonialismo que historicamente sabotaram a autodeterminação do primeiro país negro independente do mundo.
Confira, a seguir, o que a Diálogos do Sul Global já publicou sobre o tema:
Polêmicas, denúncias de corrupção e manobra para se manter no poder: quem foi Juvenal Moïse
Chegada de Jovenel Moïse ao poder no Haiti e seu assassinato são parte de projeto global
As tramas por trás do assassinato do ex-presidente do Haiti Jovenel Moïse
Da execução de Jovenel Moïse à renúncia de Ariel Henry: confira a cronologia da crise no Haiti
Haiti: grupos rivais se juntam em ataques contra governo; elites financiaram violência no país
* Texto produzido com o auxílio de inteligência artificial.
Edição: Vanessa Martina-Silva





