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Sempre foram no mínimo tensas as relações dos EUA com líderes latino-americanos e caribenhos que não concordam com sua política imperialista fundada na Doutrina Monroe. (Foto: Exército dos EUA / X)

Terrorismo imperialista: relembre os golpes dos EUA na América Latina nos últimos 70 anos

Da Guatemala, em 1954, à Venezuela, em 2026, manobras dos EUA incluíram bombardeios, sequestros e assassinato de líderes opostos aos planos de Washington

Frei Betto
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O sequestro terrorista do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, na madrugada de 2 para 3 de janeiro desse ano, por parte do governo de Donald Trump, é uma gravíssima afronta à soberania e independência dos países da América Latina e do Caribe. Diaz-Canel, presidente de Cuba, Gustavo Petro, da Colômbia, e Gabriel Boric, do Chile, foram os primeiros a reagir indignados. É a primeira vez que os EUA atacam diretamente um país da América do Sul.

Lula reagiu um pouco mais tarde, enfatizando: “Os bombardeios em território venezuelano e a captura do seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável. Esses atos representam uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional.”

Lula afirmou ainda que a ação militar da madrugada deste início de janeiro é uma flagrante violação do direito internacional e abre espaço para um mundo de “violência, caos e instabilidade”. “Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões”, acrescentou.

Lula salientou que “a ação lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe, e ameaça a preservação da região como zona de paz. A comunidade internacional, por meio da Organização das Nações Unidas, precisa responder de forma vigorosa a esse episódio. O Brasil condena essas ações e segue à disposição para promover a via do diálogo e da cooperação.”

Sempre foram no mínimo tensas as relações dos EUA com líderes latino-americanos e caribenhos que não concordam com sua política imperialista fundada na Doutrina Monroe.

Ao longo do século 20, durante o contexto da Guerra Fria e da política de contenção ao comunismo, os EUA envolveram-se direta ou indiretamente em ações que levaram à deposição, morte ou desaparecimento de líderes latino-americanos. A maior parte dessas intervenções ocorreu por meio de apoio a golpes de Estado, operações clandestinas ou alianças com grupos locais.

O verdadeiro recado da ação militar dos EUA na Venezuela

Entre os casos mais notórios se inclui o de Jacobo Árbenz, presidente democrata da Guatemala. Deposto em 1954 por um golpe apoiado pela Casa Branca, morreu no exílio em circunstâncias consideradas acidentais — afogamento —, em 1971. Há teorias não comprovadas sobre assassinato. Na ocasião do golpe, Che Guevara se encontrava no país e conseguiu se refugiar no México.

No mesmo ano de 1954, os EUA promoveram o golpe que implantou uma ditadura militar no Paraguai. Dez anos depois, replicou a erradicação da democracia no Brasil (1964), depois na Argentina (1966 e 1976), na Bolívia (1966 e 1971), no Uruguai e no Chile (1973).   

O presidente do Chile, Salvador Allende, eleito democraticamente, morreu durante o golpe militar de 1973, apoiado pelos EUA. A versão oficial é de suicídio, mas as circunstâncias ainda são nebulosas e polêmicas.

Omar Torrijos, presidente progressista do Panamá, faleceu em acidente aéreo em 1981. Suspeitas de envolvimento dos EUA persistem, embora nunca tenham sido comprovadas.

O progressista Maurice Bishop, escolhido primeiro-ministro de Granada em 1979, foi derrubado, preso e fuzilado no cárcere em 1983, durante o golpe de Estado que precedeu a invasão dos EUA ao país. Conheci-o em Manágua, em julho de 1980, nas festividades do primeiro aniversário da Revolução Sandinista.

Manuel Noriega, militar que liderou o Panamá de 1983 a 1989, era agente da CIA. No entanto, por se envolver com cartéis de drogas, foi derrubado por invasão estadunidense, levado para os EUA e sentenciado a 40 anos de prisão, dos quais cumpriu 17. Extraditado para a França, esta o enviou ao Panamá, onde foi novamente encarcerado por crimes cometidos durante sua ditadura. Morreu de câncer no cérebro em 2017, aos 83 anos.

Por eleição democrática, Jean-Bertrand Aristide, sacerdote ligado à Teologia da Libertação, presidiu o Haiti em três períodos, o último de 2001 a 2004, quando devido a um conflito entre ex-militares e seus apoiadores os EUA intervieram e o retiraram do país com apoio de tropas brasileiras.

Juan Orlando Hernández, que presidiu Honduras de 2014 a 2022, foi detido em seu país em fevereiro daquele ano a mando dos EUA. Em junho de 2024, foi condenado pela Justiça estadunidense a 45 anos de prisão, acusado de envolvimento com tráfico de drogas, do qual teria recebido milhões de dólares de cartéis para permitir a passagem de cocaína por Honduras.

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Em dezembro do ano passado, Trump concedeu-lhe perdão presidencial, alegando que Hernández foi vítima de “perseguição política” e “armação” do governo Biden, embora tenha sido condenado nos EUA por promotores que o acusaram de ter transformado Honduras em um “narcoestado”.

O perdão foi visto como uma manobra política de Trump para apoiar o partido conservador de Hernández nas eleições hondurenhas de 2025 e reforçar a base eleitoral do ex-presidente. A atitude gerou críticas por contradizer a luta contra o narcotráfico e a política externa dos EUA, especialmente contra a Venezuela, segundo analistas e republicanos.

Além desses, há relatos de tentativas de assassinato de líderes políticos na região, desestabilização de governos ou apoio, por parte dos EUA, a regimes que violavam os direitos humanos.

Vale ressaltar que o líder cubano Fidel Castro, considerado durante décadas inimigo número 1 dos EUA e que completaria 100 anos agora em 2026, faleceu tranquilamente na cama, cercado pela família, em novembro de 2016. E Raul Castro, seu irmão, continua ativo aos 94 anos.

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É crucial consultar fontes históricas sólidas e considerar o contexto político de cada época ao analisar esses eventos. Muitos documentos foram liberados ao longo dos últimos anos, revelando o envolvimento dos EUA em operações clandestinas, mas também mostrando que os resultados nem sempre foram os planejados.

Para um estudo aprofundado, recomendo obras de historiadores como Greg Grandin, Stephen Rabe e Piero Gleijeses, além de documentos agora liberados do arquivo de segurança nacional dos EUA.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Frei Betto Escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras); “Batismo de sangue” (Rocco); e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros 74 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org. Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.

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