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Nassar escreve para narrar fatos, mas para produzir estados de espírito e intensidades. Seus textos não buscam representar o real de forma objetiva, mas mergulhar no âmago das tensões humanas. (Foto: Sérgio Silva / PT)

Frei Betto | 90 anos de Raduan Nassar: a radicalidade de uma obra breve, mas visceral

Ler Raduan Nassar é mergulhar em uma prosa que arde e resiste ao esquecimento, um testemunho da potência da literatura quando não se rende à quantidade, mas à qualidade

Frei Betto
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Nesta quinta-feira (27), Raduan Nassar completa 90 anos. Autor de apenas dois romances — Lavoura arcaica (1975) e Um copo de cólera (1978) — além da coletânea de contos (Menina a caminho, 1997), sua produção literária é marcada por concisão, densidade poética e experimentalismo formal.

Raduan tornou-se um dos escritores mais relevantes do século 20, reconhecido tanto pelo estilo inconfundível quanto pela intensidade de sua escrita. Sua literatura se afasta da narrativa linear e convencional. Adota uma escrita caracterizada pela fragmentação, pelo fluxo de consciência e pelo uso de uma linguagem próxima ao ritmo da poesia. Essa inovação estética se anuncia em Lavoura Arcaica (levado às telas de cinema pelo diretor Luiz Fernando Carvalho, em 2001), romance que revisita o universo rural e familiar para transformá-lo em palco de tensões arcaicas e universais.

O romance, estruturado em torno da memória e da oralidade, é de um lirismo que oscila entre o sagrado e o profano. Narra o conflito de André, jovem que foge de casa e, após um tempo, retorna para enfrentar as estruturas opressivas de sua família patriarcal. Eco implícito da parábola do Filho Pródigo, o texto funde tradição bíblica, cultura camponesa e pulsões eróticas, resultando numa prosa carregada de simbolismo e metáforas. Assim, Raduan desestabiliza os pilares da moralidade convencional ao introduzir o desejo incestuoso como força transgressora que ameaça o núcleo familiar.

A escrita é marcada por longos períodos, quase sem pausas, que conferem musicalidade e impetuosidade. A oralidade é central: falas do pai e do narrador se alternam em tom de sermão, confissão e poesia, aproximando o texto de um cântico. Essa dimensão rítmica e litúrgica insere a obra em uma linhagem de autores que exploram o poder da palavra para além da mera narrativa, como Guimarães Rosa e Clarice Lispector.

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Se em Lavoura Arcaica predomina o tom lírico e bíblico, em Um Copo de Cólera a escrita assume caráter explosivo e fragmentado. O livro é um monólogo delirante de um homem que, após uma noite de orgia, discute freneticamente com sua companheira, despejando toda sua raiva e frustração em um fluxo de consciência avassalador. Em apenas sete capítulos, cada um formado por um único parágrafo, Raduan imprime à obra um ritmo vertiginoso.

Aqui, a linguagem é corrosiva e pulsante. O narrador não busca descrever fatos, mas recriar o furor da experiência através de uma prosa visceral, marcada por repetição e cadência. O romance transforma o conflito amoroso em metáfora da própria condição social e política do Brasil da época, evocando a repressão, a violência e a corrosão das relações de poder.

Após os dois romances, Raduan publicou Menina a Caminho, coletânea de contos escritos antes de seus romances, mas até então inéditos. Em seguida, abandonou a literatura. Nos anos 1980, dedicou-se à vida no campo, administrando a fazenda Lagoa do Sino no interior de São Paulo, na qual estive diversas vezes. Em 2011, ele a doou à Universidade Federal de São Carlos e ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

A decisão de se afastar da literatura contribuiu para cercar sua figura de um certo mito: o do escritor que, tendo alcançado uma escrita de altíssimo nível, optou pelo silêncio. Esse gesto radical alimenta a aura enigmática em torno de Raduan, como se sua obra tivesse dito o essencial em poucas páginas. Seu silêncio literário, longe de diminuir sua importância, contribuiu para cristalizar a ideia de que ele disse o que precisava ser dito — e o fez com uma radicalidade que poucos escritores alcançam. Ler Raduan Nassar é mergulhar em uma prosa que arde e resiste ao esquecimento, reafirmando que a literatura pode ser breve, mas inesgotável em seus efeitos.

Em toda a produção de Raduan, alguns eixos se repetem. A sexualidade surge como força disruptiva, desafiando convenções sociais e religiosas. A violência, tanto simbólica quanto física, atravessa os personagens e os laços familiares. A relação entre desejo e repressão ocupa lugar central, em diálogo constante com a tradição cristã e patriarcal.

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Ele recria a linguagem. Não escreve para narrar fatos, mas para produzir estados de espírito e intensidades. Seus textos não buscam representar o real de forma objetiva, mas mergulhar no âmago das tensões humanas. Essa ênfase na linguagem o aproxima da poesia, tornando sua prosa uma experiência estética que exige do leitor entrega e sensibilidade.

Apesar da brevidade da obra, Raduan Nassar tornou-se um clássico da literatura brasileira. Recebeu importantes prêmios, como o Jabuti (1976) e o Camões (2016), consolidando seu reconhecimento internacional.

Sua obra é um testemunho da potência da literatura quando não se rende à quantidade, mas à qualidade. Seus romances curtos, mas densos, exploram os limites da linguagem e da experiência humanas, confrontando o leitor com questões universais: o desejo, a culpa, a violência, a liberdade.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Frei Betto Escritor, autor de “Cartas da prisão” (Companhia das Letras); “Batismo de sangue” (Rocco); e “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros 74 livros editados no Brasil, dos quais 42 também no exterior. Você poderá adquiri-los com desconto na Livraria Virtual – www.freibetto.org. Ali os encontrará a preços mais baratos e os receberá em casa pelo correio.

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