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Bernie Sanders e Zohran Mamdani (Foto: Reprodução / Facebook - Bernie Sanders)

Mamdani, Sanders, Socialismo: entenda as raízes da “esquerda” que cresce nos EUA

Movimentos de esquerda no campo eleitoral têm uma longa história nos EUA, com raízes no século 19 e nos imigrantes rebeldes que sempre participaram — e às vezes lideraram — as lutas por justiça social no país

David Brooks
La Jornada
Nova York

Tradução:

Beatriz Cannabrava

O prefeito eleito em Nova York, Zohran Mamdani, afirma que é um socialista democrático graças ao exemplo do senador Bernie Sanders. Sanders, provém de uma corrente socialista que surgiu nos EUA nas décadas de 1960 e 1970, a qual, por sua vez, tinha parte de suas raízes históricas no Partido Socialista fundado em 1901.

Vale destacar que a organização política Democratic Socialists of America (DSA), da qual Mamdani é membro (embora Sanders não seja), não é um partido, e desde suas origens, nos anos 1970 — quando Michael Harrington e outros fundaram o Democratic Socialist Organizing Committee —, seu objetivo era atuar dentro do Partido Democrata. Mamdani foi o candidato oficial do Partido Democrata (apesar da resistência da cúpula dessa organização política). De fato, a DSA e seus antecessores foram criticados por setores da esquerda mais radical como correntes reformistas semelhantes às dos social-democratas europeus (embora, na conjuntura política atual dos EUA, isso seja considerado radical).

O termo “socialista”, ao longo da história moderna do país, tem sido usado pelas elites como um insulto ou uma forma de desqualificar políticos de esquerda, chegando até a acusá-los de atitudes “antiamericanas”. Mas, nos últimos anos, ocorreu algo curioso: uma pesquisa da Gallup, em setembro, registrou que 66% dos eleitores democratas têm uma percepção positiva do “socialismo”, enquanto a aprovação do capitalismo caiu para apenas 54% entre todos os estadunidenses. Ainda mais alarmante para alguns é uma pesquisa do Cato Institute/YouGov, realizada neste ano, segundo a qual 62% dos estadunidenses com menos de 30 anos têm uma visão “favorável” do socialismo. Não há, porém, uma definição compartilhada de “socialismo”.

Conheça Zhoran Mamdani, jovem socialista muçulmano e candidato à prefeitura de Nova York

O apoio massivo que Sanders acumulou ao lançar sua pré-candidatura presidencial declarando-se abertamente “socialista democrático”, em 2016 e novamente em 2020, sacudiu as cúpulas de ambos os partidos. Utilizando as narrativas desenvolvidas pelo movimento altermundista do final dos anos 1990 e, depois, pelo Occupy Wall Street, Sanders fundiu a tradição dos antigos socialistas democráticos com novas gerações de movimentos mais recentes. Com isso, a DSA foi revitalizada e hoje é a maior organização socialista do país, com cerca de 80 mil membros e milhares de aliados, além de outros esforços independentes, como o Working Families Party, e uma nova liderança progressista em alguns sindicatos e outras organizações sociais, incluindo as de imigrantes. Tudo isso contribuiu diretamente para o triunfo de Mamdani como prefeito da capital do capitalismo, Nova York.

Esses movimentos progressistas e/ou socialistas no campo eleitoral têm uma longa história nos EUA, com raízes no século 19 e nos imigrantes rebeldes que sempre participaram — e às vezes lideraram — as lutas por justiça social na nação estadunidense.

Atualmente, a ampla gama do que se pode qualificar como movimento “progressista” — que inclui, mas não se limita aos socialistas democráticos — continua ampliando sua presença não apenas em cidades e vilas, mas também em legislaturas municipais, estaduais e no Congresso federal. O chamado Caucus Progressista do Congresso inclui quase 100 legisladores que se identificam como “progressistas” — cuja liderança é composta por dois mexicano-estadunidenses e uma somali —, e vários outros como “socialistas democráticos”, quase um quarto da Câmara dos Representantes.

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Para além disso, embora seja notável a eleição de um socialista democrático como prefeito da maior cidade do país, ele não é o primeiro nem o único. Atualmente há pelo menos outros oito em cidades que vão da Califórnia a Vermont. No início do século passado, dezenas de cidades e vilas do Meio-Oeste eram governadas por prefeitos socialistas, incluindo Milwaukee, de 1916 a 1940.

Mamdani fez referência a essa história em seu discurso de vitória na terça-feira, ao citar Eugene Debs, lendário líder nacional e candidato presidencial socialista do final do século 19 e início do 20.

Antes se dizia que o “socialismo” era a ameaça à democracia nos EUA. Agora, pode ser que o socialismo esteja resgatando essa democracia.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

David Brooks Correspondente do La Jornada nos EUA desde 1992, é autor de vários trabalhos acadêmicos e em 1988 fundou o Programa Diálogos México-EUA, que promoveu um intercâmbio bilateral entre setores sociais nacionais desses países sobre integração econômica. Foi também pesquisador sênior e membro fundador do Centro Latino-americano de Estudos Estratégicos (CLEE), na Cidade do México.

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