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A mensagem de Trump é de contenção, de advertência e de reafirmação da supremacia estadunidense sobre o continente. (Arte de Udo Keppler [1872–1956], publicada em 29 de junho de 1904 / Wikimedia Commons)

Cannabrava | A nova doutrina Trump para a América Latina: militarização, pressão geopolítica e retorno da tutela imperial

Discursos, deslocamentos militares e retórica antinarcotráfico revelam a tentativa de Washington de retomar o controle da região e conter o avanço do Sul Global

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

A estratégia de Donald Trump para a América Latina reaparece com força e clareza: militarização do Caribe, pressão geopolítica sobre os Brics e ataque direto à expansão chinesa na região. Em discursos recentes, o ex-presidente deixa explícito que pretende recolocar o continente sob tutela estadunidense, retomando a velha lógica da doutrina Monroe para conter o avanço do Sul Global.

O discurso que revela a doutrina

Donald Trump expõe sem disfarces a estratégia que pretende impor à América Latina. Sua retórica combina a velha cruzada contra o chamado “narcoterrorismo”, o endurecimento contra a imigração e a reafirmação de que o continente deve permanecer sob tutela estadunidense. Quando declara que os países precisam escolher entre “um mundo liderado pelos Estados Unidos” e outro “influenciado por países do outro lado do mundo”, Trump aponta diretamente para o Brics e para a reorganização do poder global.

A disputa com os BRICS e o temor da perda de hegemonia

A mensagem embutida no discurso de Trump é transparente: os Estados Unidos veem a ascensão do Sul Global — articulado por BRICS+, China e Rússia — como uma ameaça estrutural. Diante da perda de influência relativa, Washington tenta reimpor sua centralidade por meio de pressão diplomática, medidas coercitivas e demonstrações de força. A estratégia é conter qualquer movimento que aprofunde a autonomia regional e limitar o avanço de projetos que rompam com a ordem unipolar.

Militarização da região: o Caribe como palco de demonstração de força

O recente deslocamento de navios e aviões dos Estados Unidos para o Atlântico e o Pacífico, com ênfase no Caribe, revela a face concreta da doutrina que Trump pretende restaurar. Não se trata de movimentação rotineira: é um reposicionamento estratégico que recupera a lógica da Guerra Fria, quando Washington tratava o Caribe como quintal exclusivo. Cada navio, cada aeronave enviada à região funciona como recado geopolítico — uma tentativa de dissuadir países que buscam alternativas de soberania e de intimidar o avanço de alianças como o Brics+. A militarização volta a ser o instrumento preferencial para reafirmar a presença dos EUA em sua zona de influência histórica.

A retórica do “narcoterrorismo”

Trump procura justificar essa militarização com o argumento de sempre: o combate às organizações criminosas e ao suposto “narcoterrorismo”. A lógica é a mesma usada por Reagan nos anos 1980 e por Bush nos anos 2000: transformar problemas sociais complexos em justificativa para intervenções de segurança.

Imigração como instrumento de chantagem política

Ao tratar a imigração latino-americana como ameaça à estabilidade dos EUA, Trump não está falando de segurança, mas de política interna. A retórica serve para mobilizar sua base, reforçar o nacionalismo xenófobo e ao mesmo tempo pressionar governos latino-americanos a se alinharem.

A volta aberta da política de tutela

A frase de Trump — a escolha entre viver em um mundo liderado pelos EUA ou em outro — sintetiza a restauração explícita da velha doutrina Monroe. Mas agora ela vem com um endereço claro. O recado é dirigido ao Brics e, de modo particular, às políticas de expansão econômica, tecnológica e diplomática da China na América Latina. Washington observa com inquietação o avanço chinês em infraestrutura, energia, telecomunicações e investimentos estratégicos, setores em que os EUA perderam terreno até mesmo em países historicamente alinhados. Ao retomar a retórica da tutela, Trump tenta estabelecer limites: sinaliza que não tolerará que a região diversifique suas parcerias nem aprofunde vínculos com o eixo eurasiático liderado por China e Rússia. É uma mensagem de contenção, de advertência e de reafirmação da supremacia estadunidense sobre o continente.

O que isso significa para o Brasil e o continente

Para os países que integram ou dialogam com o Brics+ — Brasil, Argentina, Venezuela e outros — a estratégia de Trump acende um alerta: a pressão será crescente. A militarização do Caribe, a retórica agressiva e a tentativa de dividir o continente fazem parte de uma ofensiva maior para impedir que o Sul Global avance em autonomia. Diante desse cenário, enfrentar essa reedição da tutela imperial exige resgatar a luta de libertação nacional em cada país, fortalecendo projetos próprios de desenvolvimento e integração regional. A soberania deixa de ser apenas um princípio diplomático: torna-se questão de sobrevivência, condição indispensável para que nossos povos definam seu destino sem submissão a potências externas.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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