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ToggleLuis Arce, que foi presidente da Bolívia de 2020 a 2025, nesta quarta-feira (10) foi detido na cidade de La Paz por sua suposta participação em desvios do Fundo de Desenvolvimento Indígena Originário Camponês (Fondioc) entre 2014 e 2015, quando era ministro da Economia no governo de Evo Morales (2006-2019). Diante da Justiça, o ex-mandatário recorreu ao direito de permanecer em silêncio.
Segundo Marco Antonio Oviedo, ministro do Governo de Rodrigo Paz, o ex-presidente é investigado pelo suposto uso indevido de 360 mil dólares de projetos do Fondioc, e advertiu que, conforme avançarem as investigações, essa soma pode chegar a 700 mil dólares.
Para Olviedo, o ex-presidente “tem responsabilidades penais neste caso. Foi detido como o principal responsável pelo milionário dano econômico que ocorreu no país, pois atuava como presidente desse fundo e tinha responsabilidades diretas.”
O ministro disse ainda que Arce — durante sua gestão como ministro — “autorizou a transferência de grandes quantias de dinheiro para contas particulares e aprovou projetos fantasmas”. “Tudo isso contribuiu para a crise econômica que vivemos hoje”, acrescentou.
O atual governo boliviano declarou que Arce também é investigado pelos supostos delitos de enriquecimento ilícito, resoluções contrárias à Constituição e às leis, incumprimento de deveres, uso indevido de influências e conduta antieconômica.
O que aconteceu?
Ao meio-dia de 10 de dezembro, uma caminhonete com vidros escuros parou para deter o ex-presidente boliviano, que caminhava pelo bairro Sopocachi, em La Paz. Segundo a ex-ministra da Presidência, María Nela Prada, Arce lhe enviou sua localização por celular e avisou que havia sido “sequestrado”.
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Prada dirigiu-se à sede da Força Especial de Luta Contra o Crime (FELCC), no centro de La Paz, onde circulavam rumores de que o ex-mandatário estava detido. Após várias horas batendo nas portas metálicas, a ex-ministra começou a receber informações a conta-gotas, que compartilhou naquele momento com a Sputnik.
O Ministério Público colocou em circulação uma citação emitida em janeiro de 2020 para que Arce respondesse sobre supostos casos de corrupção no Fondioc, orgão estatal destinado a financiar projetos produtivos em comunidades camponesas e indígenas do país. Embora o ex-presidente tenha sido detido no âmbito desse processo, as autoridades advertiram que ele pode ser implicado em outros casos.
Na porta da FELCC também estava a ex-ministra do Trabalho, Verónica Navia, que disse à Sputnik: “Estamos à espera de alguma notícia. Só sabemos que ele foi levado às instalações da FELCC sem qualquer notificação prévia. No entanto, duas horas depois apareceu uma ordem que não havia sido apresentada antes. Obviamente, isso faz pensar que essa ordem foi elaborada apenas para justificar a detenção.”
Para a ex-ministra, “é evidente que estamos diante de estratégias muito especializadas, que presumimos não terem sido elaboradas em nosso país”.
Uma missão muito delimitada
Segundo Oviedo, “o governo do presidente Rodrigo Paz tem uma diretriz clara”. “Vamos lutar contra a corrupção e perseguir aqueles que geraram este descalabro econômico. Não vamos parar até encontrar todos os responsáveis”, especificou.
Na mesma linha se expressou o vice-presidente, Edmand Lara, capitão aposentado da Polícia boliviana. “Quero parabenizar os agentes da FELCC por terem apreendido, cumprindo uma resolução emanada por uma autoridade fiscal, o ex-presidente Luis Arce Catacora”, disse em um vídeo publicado nas redes sociais.
“Nós avisamos: Luis Arce será o primeiro a ser preso, e estamos cumprindo. Todos aqueles que roubaram esta pátria vão devolver até o último centavo e prestar contas”, afirmou.
Revanchismo
Para o analista Gabriel Campero, as declarações do Executivo e do vice-presidente deixam entrever uma notável intervenção do governo no Órgão Judicial.
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Em uma conversa com a Sputnik, ele considerou que o documento apresentado pela Promotoria datava de janeiro de 2020, durante o governo de Jeanine Áñez, quando Arce não estava no país devido à forte perseguição exercida contra funcionários de Morales após o golpe de Estado de novembro de 2019.
Para Campero, o ex-presidente detido “não foi devidamente notificado, nem recebeu qualquer tipo de aviso por parte da Justiça boliviana, conforme o procedimento legal estabelecido”.
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O especialista avalia que a captura de Arce, um mês após a posse do novo governo, se enquadra em um caso de possível “revanchismo e perseguição política por parte desta Justiça que se diz imparcial (…). Tudo o que está associado a um movimento que foi indígena, com uma tendência ao socialismo, está sendo questionado neste momento.”
Campero menciona que o novo governo do país sul-americano ainda não conseguiu solucionar o problema do desabastecimento de combustíveis, o que provocou protestos de sindicatos de motoristas e caminhoneiros em todo o país.
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“Estamos vendo que não estão conseguindo cumprir as promessas de campanha. Por isso, buscam maneiras de iniciar processos apoiados em seus articuladores, operadores políticos e meios de comunicação.”
O analista observa que Morales ainda não se manifestou sobre a detenção de seu ex-aliado e ex-ministro. De acordo com as investigações da Promotoria, esse ex-presidente também seria responsável pelo suposto desfalque no Fondioc, já que Arce era titular do projeto porque assim havia sido designado pela Casa Grande do Povo.
No entorno de Morales, suspeita-se que ele será o próximo masista a ser preso. Para Campero, “essa leitura deveria ter sido feita desde as eleições gerais [de agosto], quando o próprio Evo convocou o voto nulo. Este é o resultado da completa falta de leitura política de Evo Morales e de seus seguidores sobre a situação que se aproximava.”





