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Cerimônia de assinatura do Acordo Mercosul-UE em Assunção, no Paraguai, no último sábado (17). (Foto: Mercosul / Flickr)

Cannabrava | O Acordo Mercosul–União Europeia – um gigante comercial em xeque

Os desafios e as oportunidades de um tratado histórico sob a mira de interesses divergentes

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia, assinado no sábado, 17 de janeiro, com a presença de quase todos os líderes do Mercosul — à exceção do presidente Lula —, abrange um mercado de 720 milhões de pessoas e um Produto Interno Bruto de cerca de 22 trilhões de euros, algo em torno de R$ 137 trilhões. Trata-se da maior área de livre comércio já constituída, pelo menos em termos de população e capacidade de consumo.

Ele traz oportunidades econômicas significativas, mas também enfrenta forte oposição de produtores agrícolas, sobretudo na França e na Itália. Essa resistência poderá dificultar a aprovação do tratado pelo Parlamento Europeu e, não se pode descartar, abrir espaço para judicializações futuras, num processo que tende a ser longo e politicamente conturbado.

Do ponto de vista comercial, o acordo não terá efeitos imediatos. Está previsto um prazo de 12 a 15 anos para a eliminação das tarifas, o que significa que os impactos sobre os preços e os fluxos de comércio serão graduais. Além disso, foram estabelecidas cotas para setores considerados sensíveis, como as carnes de aves, bovina e suína, numa tentativa de amortecer os efeitos da abertura e reduzir resistências internas, sobretudo no campo europeu.

O acordo prevê ainda que poderá ser suspenso caso uma das partes viole o Acordo de Paris sobre o clima. Para o Brasil, isso significa a obrigação de levar efetivamente a sério a política de desmatamento zero. Não se trata apenas de uma cláusula ambiental acessória, mas de um dispositivo central do tratado, capaz de funcionar como instrumento de pressão e sanção.

Além disso, é importante ressaltar que o Brasil precisará gerenciar com extremo cuidado a adaptação de seu setor industrial, fragilizado por décadas de neoliberalismo, abertura desordenada e desindustrialização precoce. A concorrência com produtos manufaturados europeus, altamente competitivos, exigirá políticas industriais ativas, investimentos públicos, proteção ao emprego e mecanismos de transição que evitem o aprofundamento da dependência externa.

O acordo, portanto, explicita uma assimetria estrutural: de um lado, economias centrais, industrializadas e tecnologicamente avançadas; de outro, países ainda marcados por economias primário-exportadoras. Sem uma estratégia nacional clara de desenvolvimento, o risco é que o tratado reforce padrões históricos de subordinação em vez de promover integração equilibrada.

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Assim, o acordo Mercosul–União Europeia não é apenas um marco comercial. Ele se converte num teste decisivo sobre como o Brasil pretende navegar pelas águas turbulentas dos interesses globais, conciliando inserção internacional, soberania econômica, equilíbrio ambiental e demandas sociais internas nos próximos anos.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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