Desaparecimento de 43 estudantes no México completa quatro anos; ninguém foi punido

O próximo presidente do país, López Obrador, anunciou que criará uma comissão oficial para investigar o caso

Redação

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No dia em que o desaparecimento de 43 estudantes de uma escola da comunidade rural de Ayotzinapa, no México, completa quatro anos, nesta quarta-feira (26), familiares dos desaparecidos, organizações estudantis e instituições de direitos humanos se mobilizam para exigir justiça e verdade para o caso, em um contexto de incremento da violência no país. Até hoje, ninguém foi punido.

Apesar da pressão da opinião pública nacional e internacional, ainda há incertezas sobre o paradeiro dos jovens desaparecidos e dos fatos que antecedem o crime.

Em diversas ocasiões, os familiares dos estudantes denunciaram que organizações internacionais encontraram irregularidades no processo de investigação realizado pela Procuradoria Geral da República do México (PGR), que havia declarado que supostamente os jovens teriam sido queimados em um lixão no município de Cocula, em Jalisco, e seus restos mortais, lançados em um rio.

Ayotzinapa é um caso emblemático da grave situação dos desaparecimentos no México. Segundo a Anistia Internacional, o registro oficial de pessoas desaparecidas passou de 22 mil para 37 mil nos últimos quatro anos.

“Hoje, o mundo observa o México, esperando que o governo finalmente garanta os direitos das vítimas e permita a criação de uma comissão de investigação para descobrir a verdade sobre o acontecimento e fazer justiça para os 43 estudantes de Ayotzinapa e suas famílias”, disse Erika Guevara Rosas, diretora da Anistia Internacional nas Américas.

O posicionamento da representante da organização de direitos humanos se refere à esperada reunião do recém-eleito presidente Andrés Manuel López Obrador, conhecido pela sigla AMLO, que assumirá o Executivo do país em dezembro, com as famílias dos estudantes. O encontro foi realizado nesta quarta-feira (26), na Cidade do México, para definir as ações necessárias para o esclarecimento do caso, que continua impune apesar das investigações do governo mexicano e de grupos de investigadores independentes.

O líder do partido político Movimento Regeneração Nacional (Morena) garantiu que o governo decretará, logo após a posse, a instauração de uma Comissão da Verdade independente, comandada pelo próximo subsecretário de Direitos Humanos, Alejandro Encinas, composta também por membros do Alto Comissariado de Direitos Humanos da ONU e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

Acompanharam o evento oficial representantes dos dois organismos oficiais e do atual governo de Peña Nieto, além de familiares e integrantes da Anistia Internacional.

Após a reunião, no final da tarde desta quarta-feira (26), acontece uma manifestação no centro da capital do país para recordar o desaparecimento dos 43 estudantes e seguir exigindo que os culpados sejam encontrados e punidos.

Uma das reivindicações dos pais dos estudantes desaparecidos é a investigação do atual presidente do país Enrique Peña Nieto, como afirmou Cristina Bautista, mãe de Benjamín Ascensio Bautista, um dos desaparecidos, em uma entrevista:

“Exigimos que o presidente eleito investigue o presidente Enrique Peña Nieto e todos os políticos que estiveram presentes no momento do desaparecimento. Eles devem ser punidos e presos. Não vamos permitir que o caso seja esquecido e que eles continuem livres, porque eles nos enganaram, e enganaram todo o povo mexicano”, disse.

A mãe do estudante comentou também as expectativas em relação ao novo governo de AMLO:

“Temos esperança de que com ele chegaremos à verdade, mas, para isso, temos que seguir nos organizando e pressionando. Não arredaremos o pé, como estamos fazendo desde o primeiro dia, porque sabemos que o governo de Peña Nieto é responsável pela desaparição. Eles construíram sua própria “verdade histórica”, mas sabemos que foi o Estado, de maneira coordenada, que fez nossos filhos desaparecem”, afirmou Cristina Bautista.

Desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa

Na noite do dia 26 de setembro de 2014, cerca de 100 estudantes da Escola Normal Rural Isidro Burgos, no município de Ayotzinapa, no Estado de Guerrero, no México, foram atacados quando viajavam a bordo de cinco ônibus para a Cidade do México, para participar de uma marcha anual em memória do massacre ocorrido em 1968 em Tlateloco, que também vitimou estudantes.

Logo no início da viagem de três dos cinco veículos — onde estavam cerca de 60 estudantes —, policiais estaduais, municipais e civis armados passaram a atirar, aparentemente sem explicação, contra os ônibus. Um quarto ônibus, que viajava separado, também foi atacado por agentes da polícia federal e municipal. Nele estavam 20 jovens — todos desapareceram.

Alguns dos estudantes que estavam nos três primeiros ônibus e sobreviveram organizaram uma coletiva de imprensa de última hora para denunciar o ocorrido. Esta também foi atacada, porém por um grupo de homens “trajando roupas escuras”.

O saldo foi de seis mortos, três dos quais estudantes, e 20 feridos. Na ocasião, 57 normalistas desapareceram e 43 ainda estão desaparecidos.

Apesar das provas de investigações independentes, o governo do presidente mexicano, Enrique Peña Nieto, segue negando o envolvimento do Exército, da Polícia Federal e do Cisen (Centro de Investigação e Segurança Nacional) no massacre.

*Com informações da teleSUR e Nodal.

Edição: Daniel Giovanaz | Tradução: Luiza Mançano

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