Não há nada para ser comemorado no bicentenário da (in)dependência peruana

Sofremos mais de 500 anos de uma dominação branca, mestiça ou estrangeira, que saqueou o país, e continua fazendo. Nada, então, temos a celebrar

Gustavo Espinoza M.

Sobre o tema do Bicentenário da Independência Nacional, saíram à luz dois concepções contrapostas em alguma medida. A primeira – que poderíamos denominar de opção oficial – chama a celebrar os acontecimentos com toda a pompa, assegurando que a partir de 1821 consolidou-se a Independência Nacional e se fundou uma República na qual um Estado Soberano e Democrático surgiu no contexto continental trazendo ideias renovadoras que hoje mantém plena vigência. Nesse quadro, nós peruanos somos livres; e nossa Pátria, apesar de todos os contratempos, constitui um exemplo de ponderação, desenvolvimento e progresso. 

A outra versão busca interpretar o sentimento dos povos originários e nativos. Para ela – dizem os que sustentam a ideia – a Independência não existe.  A chegada dos espanhóis a nossas terras, não foi uma descoberta, mas sim um processo de conquista, no marco do genocídio mais aberrante que custou a vida de milhões de povoadores. Não vivemos então, a partir de 1821, livres depois de 300 anos de opróbrio colonial; mas, desde 1529 até hoje, sofremos mais de 500 anos de uma dominação branca, mestiça ou estrangeira, que saqueou o país, e continua fazendo isso. Nada, então, temos a celebrar.

Universidad Católica San Pablo
José de San Martín declara a independência do Peru na Plaza de Armas, perto do Palácio Municipal.

Vale a pena entrar neste debate, procurando pôr cada coisa em seu lugar. Penso sinceramente, e sem apresentar concessões de qualquer índole, que há base para as duas opções.

O surgimento dos libertadores nos primeiros vinte anos do século XIX não foi um fato casual. Tampouco se poderia dizer que carece de importância, ou que não teve qualquer valor. San Martín, Bolívar, e os homens que os acompanharam não desempenharam um papel de marionetes no contexto do poder colonial na América. Foram os protagonistas de um fato político de inegável valor, que não poderá ser negado, desconhecido, nem esquecido.

 As expedições que chegaram ao Peru desde o sul e desde o norte, foram operações militares de extraordinária importância que merecem ser recordadas e celebradas sempre por nossos povos. As vitórias de Cancha Rayada, Maipú e Chacabuco, da mesma forma que  Boyacá, Cundinamarca, Carabobo e Pichincha primeiro e Junín e Ayacucho,  mais tarde; não podem ser consideradas uma fraude, nem um engano. Nem podem ser esquecidas. Formam parte da história e simbolizam a coragem, o heroísmo e a capacidade de combate daqueles que apostaram por forjar um continente realmente livre.

 No entanto, essas lutas não foram alheias a episódios anteriores, nem deixaram de representar os mesmos ideais que impulsionaram outras ações talvez menos conhecidas, mas igualmente heroicas. 

 A insurreição de Manco II no Vale do Cuzco foi o início de um período de luta que se estendeu por 40 anos e que culminou com a derrota dos Incas Rebeldes e com a morte de Túpac Amaru I  em 1570. Imediatamente depois se registraria a sublevação de “Los Marañones”, na região amazônica, em 1580. Mais tarde, entre 1742 e 1756, a rebelião de Juan Santos Atahualpa, que teve como cenário principal a serra central do Peru, desde os vales do Cuzco até os contrafortes andinos entre os rios Vilcanota e Apurimac. E houve outra, em Huarochirí, nas proximidades da capital do Vice-reino. 

Depois, em 1780 – nove anos antes da Revolução Francesa – aconteceria a insurreição de José Gabriel Tupac Amaru II, que pôs em xeque à Coroa Espanhola, e que fora secundada vigorosamente por Túpac Katari na Bolívia, e amplos setores da população, particularmente quéchua e aymara. Essa luta, que pode ter culminado com êxito, foi decisiva para a afirmação da consciência americana. Demonstrou que era possível levantar uma bandeira libertadora, e manter em alto uma luta capaz de aglutinar muitos segmentos da sociedade de então, unindo povos em torno a uma tarefa definida: acabar com o colonialismo na América.

Nunca deverá ser esquecido o heroísmo inigualável dos homens e mulheres que participaram dessa contenda. Nem o sacrifício de suas vidas, que incluiu as crianças. Tampouco da crueldade das autoridades da época, que se portaram com os povoadores e combatentes da maneira mais selvagem e desapiedada.

Também no século XIX continuou na nossa terra a ação emancipadora. 1805 marcou o sacrifício, no Cuzco, de dois valorosos patriotas, Aguilar e Ubalde, que se levantaram contra o poder espanhol; e em 1809 e 1810 ocorreram as ações de Pardo, Anchorís e Saravia nas proximidades de Lima. O Peru, em condições muito difíceis, seguiu o exemplo das Juntas de Quito e Chuquisaca, expressões ambas de um pensamento próprio.

Nesse mesmo período, a insurreição – em 1811 -  de Francisco de Zela, em Tacna, e a sublevação de Juan José Crespo e Castillo, em 1812 em Huánuco, marcaram episódios singulares no confronto de então, e abriram caminhos a uma ação de maior envergadura:  a rebelião de Mateo Pumacahua e os Irmãos Angulo, em 1814, que remexera grande parte do sul andino e que puseram em xeque o domínio espanhol, posto em xeque depois nas Cortes de Cádiz, em 1812, que debilitaram o Absolutismo na Península Ibérica.

 Só depois de cruentos enfrentamentos, os insurgentes foram derrotados e dizimados. Cruel exemplo disso foi o fuzilamento de uma das figuras mais importante da luta independentista no Peru, o poeta Mariano Melgar, imolado aos 25 aos de idade em Humachiri, em março de 1815. Ainda se recorda que, quando os oficiais realistas intimaram a este valoroso poeta arequipenho para que “pedisse clemência ao Monarca espanhol para salvar sua vida”; ele respondeu energicamente: “serão vocês, os que terão depois que pedir clemência para salvar suas vidas”.

 Foi sem dúvida o gênio militar dos Libertadores, unido ao valor dos soldados conscientes de seu dever histórico, e a justa causa que desfraldavam os pendões patrióticos, o que fez com que, finalmente, em Pampas da Quinua, culminara com sucesso a gesta libertaria.

Poucos dias antes da epopeia de Ayacucho, e desde seu Quartel General instalado em Magdalena Vieja, Bolívar subscreveu um chamado dirigido aos governos da Colômbia, México, Rio de la Plata, Chile e Guatemala, instando-os a reunir-se no que se chamaria na história de Congresso Anfictiônico do Panamá, a fim de forjar ali uma aliança “que seja o escudo de nosso novo destino”. Assim, a gesta teve um conteúdo totalmente internacionalista.

 É bom sublinhar que o ciclo que se iniciou nessa etapa da história está vigente, e se projeta para cada um dos países da América. Hoje se firma nas jornadas vitoriosas que se dão contra o novo opressor: o Imperialismo Norte-americano. Em cada rincão da América assomam desafios cotidianos aos quais é possível enfrentar a partir da mais ampla unidade dos povos. Não podemos esquecer, então, o que dissera Bolívar em 1812. “Nossa divisão, e não as armas espanholas, nos tornou à escravidão.

 Como no velho poema das crianças uruguaias da escola de Jesualdo, nesta tarefa “cada qual com sua fé”;  mas todos unidos no mesmo propósito: afirmar a independência e a soberania de nossos Estados para construir sociedades compatíveis com a dignidade e a justiça.

Penso então, que essa gesta, estas batalhas empapadas de heroísmo, esses inenarráveis momentos da história, esses atos de inegável valor, são os que dão conteúdo ao Bicentenário. Não celebramos então porque já somos livres, nem porque nossos países hoje são autônomos e soberanos, democráticos e representativos. Celebramos, porque evocamos as epopeias do passado e o heroísmo supremo daqueles que caíram; e que são as que nutrem nosso presente, e avivam a luz de nosso porvir.

Devemos, nesse espírito, celebrar o mais dignamente possível o Bicentenário de 1821 e 1824 e servir-nos dele sempre como alento para novas batalhas.

*Colaborador de Diálogos do Sul, desde Lima, Peru

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