Donald Trump se autoproclama como "Campeão da Liberdade". Será mesmo?

O Campeão da Liberdade está em ação por toda a América Latina e os crentes já podem dizer: “Deus nos colha confessados”

Gustavo Espinoza M.

La Paz (Bolívia)

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Há apenas alguns dias, o mundo foi informado de um fato que bem poderia surpreendê-lo: o presidente dos Estados Unidos da América do Norte se ungiu como o Campeão da Liberdade e, em nome dela, deu maior impulso a uma nova agressão contra os povos situados ao sul do Rio Bravo.

Na verdade este auto proclamado campeão das nações e presidente moral de todos os países, começou suas ações antes, logo de instalado na Casa Branca à qual chegou depois de um obscuro processo eleitoral no qual obteve menos votos que sua ocasional concorrente, a senhora Hillary Clinton, mas que pode vencer graças aos ardis do sistema eleitoral dos Estados Unidos, que muita gente não entende. 

Talvez um dos primeiros gestos deste democrático personagem foi privar do direito a saúde os seus próprios cidadãos. Eliminou o “Obama Care”, uma espécie de Seguro Médico posto em marcha por seu antecessor, Barack Obama que procurou, com essa ação, aliviar as dificuldades dos setores mais deprimidos da economia ianque. 

Para o capital privado, as empresas de saúde, seguros e outras, esta disposição resultava prejudicial. Privava-as da possibilidade de usar os requisitos de saúde da população como uma infinita fonte de riqueza e valer-se dela para alcançar um lucro desmedido. Por isso procuraram se desfazer dela logo que foi possível. E a possibilidade foi dada por esse Donald que havia chegado à Casa Branca ante o assombro de muitos. 

Der Spiegel
O desafio, não obstante, não é se preparar para morrer, mas sim para vencer

Um segundo gesto de Trump esteve vinculado ao tema dos migrantes, mas este alcança diversas arestas. A primeira abordou o caso dos migrantes latinos que viviam nos Estados Unidos e que não haviam conseguido regularizar sua permanência na pátria de Walt Whitman.

Muitos tiveram que fugir, e outros foram expulsos, apesar de ter família – inclusive filhos – nascidos ali. O mundo pode conhecer assim as fotos de menores algemados e vestidos com macacões cor de laranja – o uniforme dos presidiários dos Estados Unidos – que vivam em diferentes presídios desse país, antes de ser “relocalizados” em estabelecimentos escolhidos para “crianças abandonadas”.  

A segunda aresta teve que ver com o México e a publicitada construção de um muro fronteiriço. Esta iniciativa deteriorou os laços entre a Casa Branca e o governo mexicano ainda nos anos de Peña Nieto –um dos mandatários latino-americanos mais pró ianques das últimas décadas. A pressão, a ameaça e a chantagem exercida sobre seu governo fez, finalmente, com que Peña Nieto mudasse o rumo de sua bússola que antes só mirava para o norte. 

O tema do muro da fronteira se prolongou até hoje, quando parte dele já foi erigido, para assombro de muitos. A ação foi condenada inclusive pelo Primado da Igreja, o Papa Francisco, que recentemente, em visita ao Panamá, criticou os que “levantam muros, quando o que há que fazer é construir pontes”; para unir e não para separar os povos. 

Este tema apareceu vinculado a um terceiro: a onda de marchadores centro-americanos que partindo de diversos países se dirigiram às terras de Abraham Lincoln em busca de “um porvir melhor”. A infantaria da marinha foi mobilizada por disposição expressa da Casa Branca.

Donald Trump não queria -nunca quis- que um só latino-americano pisasse solo estadunidense. A repressão contra os marchadores foi desapiedada. Inclusive crianças morreram nessas circunstâncias, sem que as autoridades ianques mostrassem a mais leve mudança em sua política de desprezo pelos migrantes que falam espanhol. 

Em outras latitudes também foi possível perceber os traços da conduta do chefe de estado dos Estados Unidos. Palestina e Síria foram as principais vítimas de sua política. 

No primeiro caso, o que primou foi a sua aproximação ao regime sionista de Israel, que o levou desde estimular a guerra contra os povos submetidos, até mudar a capital do estado judeu, dispondo que seja, de agora em diante, Jerusalém e não Telavive. E no segundo, foi o fantasma da guerra com todos os seus horrores que Trump fez cair sobre diversas cidades hoje quase totalmente destruídas nesse país de origem milenar.

Outros povos – como Iraque, Afeganistão ou Líbia - onde ainda a pegada do invasor afunda na terra, conheceram também de perto a odiosa conduta deste presidente que hoje não é capaz de manejar seu próprio governo, e que caiu estrepitosamente na estima dos próprios cidadãos norte-americanos. 

O caso da Venezuela é o outro sinal desta política. Trump “celebrou” recentemente os “grandes protestos” contra o governo constitucional de Nicolás Maduro ao qual assedia por todos os ângulos. Manejou – através de comparsas - o Grupo de Lima que fracassou ostentosamente em todas as suas iniciativas orientadas a derrubar o regime de Caracas, y ao qual agora estimula com as sugestões de John Bolton. Seu conselheiro – efetivamente – oferece cinco mil soldados prontos a operar na região sob o mando da OEA, da OTAN, ou de quem seja, mas operar para acabar com o Governo Bolivariano da Venezuela a qualquer preço.

Não se pode esquecer que há poucos dias, o chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, almirante Craig Faller, disse orgulhoso: “Em 1989 nós tiramos o Manuel Noriega da Panamá. E em 1994 depusemos o presidente do Haiti”. Antecedentes, então, existem, sem necessidade de se remontar a Granada, em 1983, ou República Dominicana, em 1964. Como bem diz Evo, Trump quer uma Venezuela quebrada.

O Campeão da Liberdade, então, está em ação. Os crentes bem poderiam dizer: “Deus nos colha confessados”. O desafio, não obstante, não é se preparar para morrer, mas sim para vencer. 


*Colaborador de Diálogos do Sul desde Lima, Peru.

Tradução: Beatriz Cannabrava

Edição: João Baptista Pimentel Trump

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