Justiça da Argentina e do Brasil agem sob o signo da barbárie, com perseguição e ilegalidades

Apesar de ter processos e denúncias contra ele, o Juiz Claudio Bonadio continua sua perseguição contra a ex-presidenta Cristina Kirchner

Stella Calloni

Buenos Aires (Argentina)

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Nota da redação: É impressionante como o pensamento único, imposto pelo capital financeiro nos países de Nossa América, produz as mesmas situações e efeitos danosos para toda a sociedade. O juiz federal Claudio Bonadío, por exemplo, que persegue, ignorando as leis, a ex-presidenta Cristina Kirchner, tal como o nosso Juiz provinciano Sérgio Moro, perseguidor do ex-presidente Lula encarcerado sem provas, hoje superministro da Justiça (repressiva), utilizam em seus processos material ilegalmente compilado e fornecido pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos. É o que mostra nossa colaboradora em Buenos Aires, Stella Calloni. As coincidências ocorrem também na área econômica, e mostraremos isso nos artigos e reportagens de Diálogos do Sul.

O juiz federal Claudio Bonadio ordenou uma nova oitiva para a ex-presidenta e senadora Cristina Fernández de Kirchner. Quer o depoimento dela na chamada "causa das fotocópias dos cadernos” sobre presumidas “propinas” em obra pública e dispôs, além disso, o depoimento de outras cem pessoas envolvidas nessa questão.

É a terceira citação desse juiz, que apesar de ter processos e denúncias contra ele, continua sua perseguição contra a ex-mandatária, desde quando ela estava à frente do governo, sempre com provas falsas ou inconsistentes. Agora a acusa de ser a presumida “chefa” de uma também suposta “associação ilícita” que arrecadava dinheiro entre empresários adjudicatários de obras públicas.

Isto foi resolvido a partir da entrega de fotocópias de uns cadernos até agora desaparecidos ou supostamente queimados por quem disse que escreveu: um ex-motorista de funcionários do Ministério da Produção. A partir dessas fotocópias, Bonadío, comparado por sua trajetória ligada a setores de inteligência de Washington, com o juiz e agora Ministro da Justiça do Brasil, Sérgio Moro, convocou empresários citados nos supostos cadernos, aos que oferecia a liberdade imediata se acusassem a ex-mandatária, enquanto que para os que não o faziam, decretou a prisão preventiva, violando todas as normas legais.

As oitivas começarão no próximo 26 de fevereiro e haverá umas cinco por dia, para as quais estão citados vários ex-funcionários do governo anterior e empresários muito importantes como Aldo Roggio, Carlos Wagner, Ángelo Calcaterra, primo do presidente Macri, entre outros para concluir com a citação do ex-ministro de Planejamento Federal Julio De Vido, que está detido “preventivamente” há mais de um ano, também de forma ilegal e inconstitucional. Além do mais, o polêmico juiz dispôs que enviará mais de 70 ordens para que se apresentem empresas do setor da construção.

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Bonadío, comparado por sua trajetória ligada a setores de inteligência de Washington, com o juiz e agora Ministro da Justiça do Brasil, Moro

A ex-presidenta, representada pelo advogado Carlos Beraldi, solicitou que esta causa seja remetida à província de Santa Cruz, onde foi realizada a obra pública questionada, apesar de se ter revisado tudo e comprovado que estava em regra e que não havia questionamento algum. Beraldi solicitou a suspensão do julgamento previsto para 26 de fevereiro pois ainda faltam perícias que haviam sido dispostas. 

"A justiça de Santa Cruz é competente para julgar o suposto delito de fraude pelo qual se requereu nesta causas a elevação a julgamento”, sustentou Beraldi e assinalou que nessa província já existem outros expedientes nos quais são investigados fatos similares aos analisados pela justiça federal de Buenos Aires em que foi apontado o empresário Lázaro Báez, também detido preventivamente, na forma mais estranha das que se conhece aqui. Baez chegou a esta capital em 2016 em um avião particular pra apresentar-se no outro dia à citação de Bonadío. Ao chegar no aeroporto de Morón, forças de segurança por ordem da Ministra Patricia Bullrich, foi detido pela possibilidade de “uma fuga” quando nem sequer havia prestado depoimento. Desde esse momento começaram a suceder uma quantidade de irregularidades similares, anticonstitucionais, pelas quais há detidos que nunca deveriam estar presos. Nesse episódio, além dos policiais, para registrar os fatos, havia jornalistas da TV que pertence ao monopólio do grupo Clarín. 

Beraldi também solicita que “se declare a incompetência" do tribunal federal para seguir intervindo neste processo e que o remeta ao Juizado Criminal de Instrução número 3 da Cidade de Río Gallegos, provincia de Santa Cruz.

A citação coincide com um momento crítico para o governo de Mauricio Macri, quando as próprias fontes do Instituto de Estatísticas e Censos (NDEC) revelam a destruição da indústria nacional. Tal como na crise de 2001, como demonstram as cifras de sua queda em mais de 15 pontos no final de 2018. As cifras comprovam a queda também de outros setores chaves da economia, enquanto o desemprego continua crescendo em cifras siderais, com o fechamento de empresas e negócios em todo o país. 

Da mesma maneira, esta citação se produz quando o governo interveio sobre a justiça novamente para desativar a investigação sobre doadores falsos à campanha eleitoral que registrou Cambiemos, de acordo a uma denúncia com provas concretas de um jornalista do portal El Destape. Entre os doadores figuram centenas de nomes que foram utilizados a partir de seus documentos, alguns deles indigentes. As investigações constataram a veracidade dessas denúncias, mas a justiça aliada ao governo decidiu afastar do caso o juiz Sebastián Casanello. Isto foi feito pelo presidente da Câmara Federal, o macrista Martín Irurzun, que enviou o processo para sorteio e caiu em mãos de Ariel Lijo, outro magistrado pressionado fortemente pelo governo. 

No expediente se demostrava a responsabilidade de funcionários que utilizaram as Bases de Dados da Administração Nacional de Seguridade Social (ANSES) para fazer aparecer os beneficiários de planos sociais como doadores de dinheiro para as campanhas eleitorais de 2015 e 2017 “e analisava uma relação entre a origem dos fundos e empresas beneficiadas com contratos na Cidade de Buenos Aires. Ou seja, não se tratava unicamente de infrações eleitorais, mas ia além, ao unir empresas e governo em possíveis delitos”. “O mesmo funcionário já tinha tirado outra parte da investigação que foi enviada à justiça eleitoral de La Plata, donde ficariam diluídas as responsabilidades penais”, assinala Página 12.

Também destaca que “é impactante como, em um período quase similar ao do caso dos doadores, a investigação dos (as fotocópias dos) cadernos avançou sem travas dos tribunais superiores e grande impulso dos promotores, com dezenas de detidos, arrependidos e processos. O mesmo promotor, Carlos Stornelli, foi quem fez declarações tendentes a enfraquecer a investigação sobre aportes falsos. De fato, a resolução adotada ontem por Iruzun é resposta a uma apelação da promotoria que questionou uma resolução de Casanello, de dezembro último, na qual explicava porque ficava com a investigação de determinados fatos. Irurzun, sem maiores explicações e em um texto carregado de tecnicismos, anulou aquela disposição e acusou o juiz de ser errático e confuso”, acrescenta o periódico. 

*Colaboradora de Diálogos do Sul, desde Buenos Aires, Argentina

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