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Honduras, Guatemala, Nicarágua: A segunda implosão da América Central

O futuro da América Central dependerá da capacidade das forças populares de se mobilizarem para preservar o estado de direito

Décadas depois das guerras de revolução e contra insurgência na América Central, a região está outra vez a ponto de uma implosão. O istmo tem estado mergulhado em uma repetição das lutas de massas e da repressão estatal, no desmoronamento dos sistemas políticos, na corrupção, no narcotráfico e no despojo e migração forçada de milhões de trabalhadores. Atrás dessa segunda implosão – reflexo da crise galopante do capitalismo global – está o esgotamento do desenvolvimento capitalista após as convulsões dos anos 80 no ritmo da globalização. 

Os movimentos revolucionários de massa entre 1970 e 1980 conseguiram desalojar do poder as ditaduras e abrir os sistemas políticos à competição eleitoral. Mas não alcançaram a justiça social substancial nem democratizar a ordem socioeconômica. A globalização deslocou milhões, agravando pobreza, desigualdade e exclusão social, e danificou o ambiente, ocasionando uma onda de emigrações, e mais mobilizações de massa entre aqueles que ficaram.  As raízes do conflito regional persistiram: a concentração da riqueza e do poder político em mãos de elites, ao lado da pauperização e da impotência de uma maioria despossuída.



Com o golpe de Estado em Honduras (2009), o massacre de manifestantes na Nicarágua (2018) e o regresso dos esquadrões da morte na Guatemala, a ilusão de paz e democracia, tão apregoada pela elite transnacional, foi destroçada. Os regimes centro-americanos agora enfrentam crises de legitimidade, paralisação econômica e colapso do tecido social.

O modelo de acumulação implementado dos finais do século XX em diante abarcou a introdução de atividades que integraram a região às cadeias transnacionais de produção e serviços, parte da globalização capitalista que envolveu uma expansão da mineração, da agroindústria, do turismo, da extração energética e dos megaprojetos de infraestrutura ao longo da América Latina, alimentando uma economia global voraz e transbordando as arcas das transnacionais.

A evolução da economia política centro-americana reflete a da economia global. A mundial passou por um período de prosperidade entre 1950 e 1960, seguido por uma crise, a paralisação e a transição nas décadas de 1970 e 1980, para depois passar ao auge da globalização nos anos 1990 e inícios do século XXI. O istmo experimentou uma taxa de crescimento anual média de 5,7 por cento (1960-70), taxa que caiu a 3,9 entre 1970-80, e depois despencou a apenas 0,8 na década 1980-1990. Mas depois, em sincronia com a economia global, o crescimento se recuperou a uma média anual de 4 por cento durante a globalização entre 1990-2008, segundo a Cepal. Após a crise de 2008, a taxa de crescimento desceu a 3,7 em 2012, a 3,5 em 2017, e a um estimado de 2,6 em 2018.

A ordem social da globalização só podia ser sustentada enquanto se expandia a economia e os despojados podiam emigrar. A volta do crescimento a partir dos anos 1990 dependeu de: forte incremento do fluxo do investimento corporativo transnacional, aumento constante da dívida externa e das remessas dos migrantes. 

O investimento estrangeiro direto baixou a partir de 2016, enquanto que a dívida externa passou de 33 bilhões de dólares em 2005 a 79 bilhões em 2018. Mas, sobretudo os 20 bilhões que enviam os migrantes se converteram em um salva-vidas para a economia regional, enquanto que a emigração continha as explosões políticas. 

As remessas aportam entre 18 e 19 por cento do PIB em El Salvador e Honduras; 10 por cento para a Guatemala e a Nicarágua. As remessas representaram a metade do crescimento do PIB nesses países em 2017. A economia regional entraria em colapso sem esse dinheiro. 

A população centro-americana cresceu de 25 milhões (1990) a 40 milhões (2017), segundo a Cepal, mas o mercado de trabalho não absorve a maioria dos que entram, o que explica o crescimento de emigração que quase duplicou de 2000 a 2017: 4,3 milhões. 

O capitalismo global enfrenta uma crise estrutural da polarização social e da superacumulação. A contínua expansão da economia global em anos recentes foi alimentada pelo consumo baseado no endividamento, na especulação no cassino global que inflou uma bolha atrás da outra, e na militarização impulsionada pelos estados, enquanto o mundo entra em uma economia global de guerra. Hoje a economia global está à beira de outra recessão. O sistema enfrenta uma crise política da hegemonia e uma escalada de tensões globais. Esta crise é subjacente à segunda implosão da América Central. 

Desenvolve-se no istmo outra onda de protestos populares; os regimes locais perdem legitimidade e se tornam mais corruptos e ameaçam a constitucionalidade, como aconteceu em Honduras e na Nicarágua e poderia acontecer na Guatemala. 

As comunidades mais vulneráveis foram identificadas como bodes expiatórios para a crise, sobretudo os refugiados e os migrantes. Isto ajuda a entender a resposta fascista de Trump em relação aos refugiados centro-americanos. 

O futuro da América Central dependerá da capacidade das forças populares na América Central e na América do Norte de se mobilizarem para preservar o estado de direito e impulsionar a agenda da justiça social que possa paliar a crise. Do contrário, uma recessão econômica poderia derrubar o castelo de cartas centro-americano. 

*Professor de sociologia, Universidade da Califórnia em Santa Bárbara

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