Prensa Latina

Missão de médicos cubanos na Venezuela é usada pelos EUA para atacar Maduro

O jornal The New York Times fixou sua narrativa em desacreditar a colaboração médica, uma das mais nobres iniciativas do processo revolucionário cubano

Com o duvidoso testemunho de alguns médicos desertores, o periódico estadunidense The New York Times vinculou em uma recente pesquisa os afazeres dos colaboradores da Missão Barrio Adentro com fins eleitorais durante a campanha do presidente Nicolás Maduro, ganhador com 68% dos votos em 2018.

A reportagem veio depois que a publicação reconheceu grupos violentos associados à oposição venezuelana como autores da queima da suposta ajuda humanitária na fronteira com a Colômbia, manobra considerada por analistas como um ataque direto à política de Donald Trump, quando em debates em Washington rechaçavam a construção do muro com o México.

Pouco depois, o Times fixou sua narrativa em desacreditar a colaboração médica, uma das mais nobres iniciativas do processo revolucionário cubano que até a presente data chegou a 120 países, com aproximadamente 400 mil trabalhadores de saúde.



Em entrevista com autoridades, especialistas e pacientes, Prensa Latina conheceu em primeira mão uma versão diferente da apresentada pelo rotativo, que omitiu a experiência de milhares de médicos nos rincões da geografia venezuelana e de milhões de beneficiados pelo trabalho do Barrio Adentro em quase 16 anos do projeto. 

Prensa Latina
"Barrio Adentro não distingue filiação política ou estrato social, pelo contrário, se concentra no tratamento humano dos pacientes"

Vozes que o Times desconhece

Desde sua fundação em 2003, o programa de saúde criado por Cuba e Venezuela estendeu por todos os estados do país sul-americano um projeto de atenção primária gratuito que progressivamente anexou outras especialidades até alcançar, hoje, serviços em centros de alta tecnologia, oftalmológicos, odontológicos e outros.

De acordo com cifras oficiais, mais de 23 mil trabalhadores do setor exercem suas funções atualmente no território venezuelano, somando mais de 140 mil desde o início do projeto. 

Seus dirigentes asseguram que além de prestar serviços em instituições médicas, o pessoal cubano visita casas, escolas, entrega medicamentos e desenvolve atividades comunitárias. 

Em entrevista exclusiva, o coordenador dos colaboradores no estado de Miranda, Manuel Blanco, considerou esta cruzada como parte do roteiro de pressões contra a Venezuela. 

Depois dos apelos sem resposta à deserção dos efetivos da Força Armada Nacional Bolivariana, agora centram sua agenda nos médicos cubanos, denunciou Blanco, que ademais do pessoal de saúde, lidera colaboradores de áreas como cultura, educação ou agricultura. 

Com 66 Áreas Comunitárias de Diagnóstico Integral, a representação cubana em Miranda ocupa desde as zonas mais luxuosas, em povoações como Chacao ou Baruta, até as mais humildes urbanizações como os Valles del Tuy ou Petare.

"Barrio Adentro não distingue filiação política ou estrato social, pelo contrário, se concentra no tratamento humano dos pacientes", assegurou Jetzabel Portilla, à frente da Missão Médica em Miranda.

Por sua parte, os pacientes Daniel Salomón Jaime, Beatriz Guedes, Fidel Perdomo e Reina Rodríguez negaram qualquer intenção política no atendimento brindado pelo pessoal do Centro de Diagnóstico Integral (CDI) La Urbina.

Desde o município de Petare, estes venezuelanos reconheceram não haver sido questionados sobre sua filiação política na instituição, localizada em uma das zonas mais pobres de Miranda. 

"Fazem seu trabalho seguindo sua vocação. Estive 10 dias internada por causa de uma bronquite, e ninguém me perguntou por minha ideologia", assinalou Guedes nesse sentido.

A doutora Katerin Romero, que está há dois anos na Venezuela, precisou que centenas de pacientes de um dos municípios mais povoados da região chegam ao centro diariamente para consultas ou serviços médicos. 

De acordo com a jovem, agora à frente de La Urbina, os médicos da ilha atendem mais de 56 mil habitantes, inclusive com visitas domiciliares em Petare, a partir de dois CDI e 13 consultórios. 

Nenhum verdadeiro médico cubano nega o serviço e muito menos arrisca a vida de um paciente para alcançar fins políticos, escreveu o ministro de Saúde cubano, José Ángel Portal, em uma mensagem publicada em sua conta no Twitter.

Sublinhou que os colaboradores continuarão escrevendo história dignas e heroicas de internacionalismo, essas que os fizeram merecedores do reconhecimento de prestigiosos organismos como a Organização Mundial da Saúde.

Lógica Midiática

Há meses, grandes meios ocidentais insistem em uma impiedosa campanha para "salvar" a Venezuela de uma suposta crise humanitária. 

Entre os pontos dessa matriz – promovida pelos setores mais extremos da direita – destaca-se a suposta presença de agentes cubanos à frente de grandes decisões, torturas ou crimes militares para "sustentar" o processo iniciado em 1999 por Hugo Chávez.

Como parte dessa agenda, a teoria do The New York Times soma os médicos à lógica do "controle" dos cubanos na Venezuela, ao mesmo tempo em que poderia preparar o terreno para a reativação do Cuban Medical Professional Parole, um programa especial que estimulava médicos cubanos a emigrar para os Estados Unidos.

A esse respeito, o Ministério da Saúde de Cuba precisou que, no final de 2018, seus especialistas na Venezuela efetuaram 127 milhões e 168 mil consultas em toda a nação sul-americana. 

O pessoal médico cubano tem cumprido missões internacionalistas em mais de 160 nações, com mais de 400 mil trabalhadores da saúde, os quais, em não poucos casos, cumpriram esta tarefa em mais de uma ocasião. 

As cifras se somam ao reconhecimento aos cubanos, premiados por governos, parlamentos, organizações não governamentais e internacionais. 

A campanha do Times não contempla a extensa e admirável missão dos médicos cubanos, mais poderosa que as grosseiras mentiras de um dos mais influentes meios estadunidenses, denunciou a esse respeito um editorial publicado no portal Cubadebate.

"Enquanto os porta-vozes imperiais se regozijam em seu criminoso afã de invocar a guerra e a morte, não haverá injúria midiática que possa eclipsar o colossal heroísmo de nossos compatriotas em seu trabalho cotidiano de contribuir para a paz e para a vida", escreveu o embaixador cubano na Venezuela, Rogelio Polanco.

De acordo com o representante cubano, trata-se do mais extraordinário projeto de cooperação solidária que dois governos soberanos executaram na época contemporânea em matéria de saúde.

*Correspondente de Prensa Latina na Venezuela.

Tradução: Beatriz Cannabrava

Comentários