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Negociações na Noruega podem significar uma reviravolta do conflito na Venezuela

Noruega se absteve de reconhecer Guaidó como presidente interino, posição que já havia sido interpretada como disposição em mediar conflito

Fábio Zualaga

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Notícias de negociações na Noruega entre o governo e oposição venezuelana surpreenderam um país que acreditava estar à beira de uma escalada no conflito.

O rumor soava há vários dias e o primeiro a mencioná-lo em público foi o jornalista Vladimir Villegas, apresentador de um programa de televisão: partidos de oposição, entre eles o Voluntad Popular (de centro-esquerda) estavam negociando com o Governo de Nicolas Maduro, em busca de uma saída grave conflito político que o país atravessa.

No dia seguinte, Trump disse que a Venezuela está “no limiar de um evento histórico”.



Finalmente, foi confirmado pela Reuters que representantes do governo da Venezuela e da oposição estão na Noruega, no que poderia ser o prelúdio de uma negociação ou de seus estágios iniciais.

O ministro das Comunicações, Jorge Rodríguez, chefia a delegação do governo, acompanhado pelo governador do estado de Miranda, Héctor Rodríguez. Segundo relatos, pela oposição estavam Stalin González, Gerardo Blyde e Fernando Martínez.

Na quarta-feira, Maduro disse na TV estatal que Rodriguez estava “completando uma missão muito importante” no exterior.

Embora a Reuters diga que ainda não houve contato entre as partes, a AFP disse que no rádio e na televisão norueguesas foi relatado que os delegados já se encontram reunidos há dias.

Depois de meses em que um setor da oposição, incentivado pelo presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, estava convencido de que os EUA derrubaria o governo venezuelano através de uma intervenção militar, a notícia surpreendeu.

De fato, após vários dias de uma escalada de tensão entre a Venezuela e os Estados Unidos – que incluiu a tomada da embaixada da Venezuela em Washington, a invasão de navios estadunidenses em águas venezuelanas, a interrupção de voos entre Venezuela e Estados Unidos e as ameaças habituais – muitos foram surpreendidos com a notícia.

Talvez não tanto nos EUA, onde a mídia como o Washington Post publicaram relatórios sobre o inconformismo de Trump com a situação da Venezuela, incluindo seu descontentamento com Bolton.

Ele teria dito em privado, de acordo com o Post, que Maduro é um cookie duro de roer, ou como se diz em português um osso duro de roer.

Como no caso do Irã, alguns afirmam que a estratégia de “pressão máxima”, buscando não apenas enfraquecer os governos como levar o povo a se rebelar contra eles, e assim forçá-los a negociar. No caso do Irã, um novo acordo nuclear e, no caso da Venezuela, a permanência do chavismo no poder.

O fato é que é comum nessas situações combinar pressões com aberturas e concessões para mostrar força. Não em vão Pompeo e Lavrov, o chanceler russo, se reuniram, embora não parecessem chegar a acordos sobre Síria, Irã e Venezuela.

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Nicolás Maduro e Juan Guaidó (Montagem)

Conspiranoia

A Noruega se absteve de reconhecer Guaidó como presidente interino, uma posição que já havia sido interpretada como uma demonstração da disposição do país em mediar o conflito entre os partidos rivais da Venezuela.

Desde janeiro, o ministro das Relações Exteriores, Ine Eriksen Soreide, disse que a Noruega está “pronta para contribuir, desde que as partes assim o desejassem”.

O país escandinavo, governado por socialistas democráticos durante grande parte do século XX, tem servido como um mediador em vários processos de paz, como na Guatemala, no Afeganistão, em Myanmar, nas Filipinas e entre o Sudão do Sul e do Norte. Embora os seguidores de Maria Corina Machado no Twitter apontassem para o fracasso das negociações de paz entre israelenses e palestinos em Oslo.

O fanatismo no calor da polarização tem sido uma das maiores dificuldades nesta iniciativa, especialmente depois de meses que partes interessadas interna e externamente deram o Governo como já em queda.

O analista Andre Serbin Point, conservadora e hostil à orientação do governo venezuelano, mostrou sua decepção com um gif, revelando os adversários mais radicais do chavismo pensavam que a Noruega estava mediando as negociações para que a produção de petróleo venezuelana continuou baixa.

A Noruega, que produz petróleo cru extra-leve e está se aposentando do negócio, não é concorrente da Venezuela.

Nos dias anteriores, outros usuários do Twitter começaram a falar que a Cruz Vermelha seria também uma “entidade de esquerda”.

Sob fogo

Neste clima, os argumentos de Juan Guaidó, cuja liderança já estava comprometido após a tentativa de golpe de 30 de Abril e o fracasso de 23 de Fevereiro, mudaram e muitos se perguntavam o que tinha acontecido à sua agenda do “fim da usurpação, Governo de transição, eleições livres”, sobretudo a respeito do pedido de” cooperação militar dos Estados Unidos.

“Não há nenhum tipo de negociação. É um esforço da Noruega para a mediação, que leva meses. Este foi o segundo convite feito por Oslo. Tudo o mais é especulação “, disse Guaidó à imprensa.

Porém, Guaidó teve que confirmar que os líderes Stalin González, Gerardo Blyde e Fernando Martínez Motola viajaram para a nação escandinava.

Ele fez questão de igualar a ação com as iniciativas do Grupo de Contato, formado por países da Europa e da América Latina, e as do Grupo de Lima, com a intervenção norueguesa.

“Não há diferença entre este encontro na Noruega e outros. É a intenção de um país, assim como o Grupo de Contato, o Grupo Lima, o Canadá e outros países, de mediarem a crise. É uma iniciativa mais de um país que quer colaborar”, minimizou.

Outras circunstâncias

“Diálogo” ou “negociação”, não é a primeira vez que se fala em fazer com que o governo se sente à mesa com seus oponentes. Uma rodada larga em Santo Domingo em 2017, não deu frutos.

Para os seguidores de ambos, essas iniciativas criam a suspeita de que estão negociando pelas suas costas e o cidadão comum não vê utilidade prática.

E embora seja verdade que ambos os lados os usaram como uma distração tática atrasada, existem algumas diferenças em relação ao passado:

1. Acordos específicos já foram feitos: a entrada da Cruz Vermelha na Venezuela, ferozmente criticada pela oposição mais radical, é um exemplo de uma negociação concreta que valeu a pena.

2. A situação é muito fluida: o que é um eufemismo para dizer que está ficando pior. O efeito das sanções à PDVSA começa a ser sentido e o país parece ir em um pântano sem muitas alternativas por causa da situação dos serviços público. E essa situação não sofre apenas sob o chavismo.

3. Ambos os lados estão perdendo: Guaidó deixou de ser uma espécie de rockstar da política venezuelana – com comparações a Chávez em 1998 – e passou a ser repudiado pelos opositores de mais radicais, além de perder a atenção dos venezuelanos comuns. De janeiro até o presente, todas as iniciativas da oposição para derrubar o governo falharam, algumas ridiculamente. Mas o governo está enfraquecido pelas sanções que têm agravado a crise que já é séria. Se a situação no final do ano passado era delicada, depois de sanções à PDVSA, embargos e apagões nacionais é difícil imaginar um novo mandato presidencial do atual governo nestas condições.

Quid pro quo

Entretanto, se a negociação não é uma tática ou manobra de atraso de qualquer lado, então espere que os noruegueses não deem nada na Colômbia ou no Oriente Médio.

O que está em jogo é o próprio poder político e a orientação internacional da Venezuela: o governo Maduro reiterou repetidamente que venceu legitimamente as eleições do ano passado e é isso que Lavrov repetiu a Pompeo recentemente. Mas a oposição e o governo dos EUA o chamam de usurpador.

É difícil para Maduro renunciar e dar lugar a um governo de transição e para Guaidó aceitar a legitimidade do líder chavista. No nível geopolítico é igualmente complicado: Trump tem que mostrar um resultado em seus eleitores anti-Castro da Flórida, e Putin fez um ponto de honra que um governo não pode mudar só porque os EUA diz isso.

Deveria haver não um, mas vários processos eleitorais. Talvez um referendo como o proposto por alguns chavistas dissidentes, com credibilidade de ambas as partes, para renovar as autoridades eleitorais e talvez outros poderes, o que implica em negociações muito complexas.

Se a negociação ocorrer, ambos os lados terão que ceder a coisas preciosas gerando enorme descontentamento entre suas fileiras.

Além disso, exigiria uma grande aceitação entre a população que não se alinha com nenhum dos lados ou está farta do conflito e que pode muito bem ser a maioria, na medida em que as sanções afetam a população como um todo. Sem outras alternativas à vista, é provável que isso não chegue a lugar nenhum, sem ser revelada uma luz fim do túnel.



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