Le Monde Diplomatique

Retorno à luta armada das FARC seria estratégia de sobrevivência física e política

A violência do estado e de coletivos paramilitares cujo resultado é a morte de um líder social a cada três dias na Colômbia realça a continuidade dos conflitos

Tradicionalmente os colombianos despertam muito cedo com as notícias do rádio nas zonas rurais e até mesmo urbanas. Foi dessa maneira que desde as primeiras horas da quinta-feira de 29 de agosto a população alarmou-se com a informação de que uma dissidência do grupo Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) voltaria às armas devido a discordâncias em relação ao andamento do acordo de paz.

O acordo foi firmado entre o governo e representantes da então guerrilha, transformada em partido político e desde 2018 com representação no Congresso pela sigla de nome Força Alternativa Revolucionária do Comum.

Em vídeo, no qual apareciam aproximadamente vinte pessoas armadas, o líder dissidente Ivan Márquez relatou o contexto que levou ao rompimento das negociações. Ele também desenhou parte da nova etapa da luta armada que se abre no território colombiano. “Uma nova modalidade operativa conhecerá o Estado.

Só responderemos à ofensiva, não vamos seguir nos matando entre irmãos de classe para que uma oligarquia descarada continue manipulando nosso destino. E enriquecendo cada vez mais com a pobreza pública e os dividendos da guerra”, afirmou durante pronunciamento transmitido na internet.

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O acordo foi firmado entre o governo e representantes da então guerrilha

Nova guerrilha

Poucas horas depois, em cadeia oficial, o presidente Ivan Duque, do campo político conservador ligado ao ex-presidente Álvaro Uribe, classificou os dissidentes como narcotraficantes apoiados pela Venezuela. “Da boca para fora o governo diz apoiar a paz, mas na implementação e aplicação dos pontos acordados a postura é outra. A Fundação Paz e Reconciliação, uma importante ONG do ponto de vista midiático, divulgou informe alertando sobre o temor de que as dissidências formariam uma nova guerrilha”, comenta o jornalista Jairo Vargas, da capital Bogotá.

Há um ano no cargo, Duque ameaça o avanço das pautas estabelecidas pelo ex-presidente Juan Manuel Santos e Rodrigo Londoño, líder das Farc. As críticas se concentram no descumprimento de pontos estratégicos, a exemplo da anunciada reforma de terras, que previa a entrega de títulos de propriedade a campesinos, ex-combatentes, especialmente às mulheres. A violência do estado e de coletivos paramilitares cujo resultado é a morte de um líder social a cada três dias na Colômbia realça a continuidade dos conflitos.

“Responsabilizamos e demandamos ante a comunidade internacional o governo colombiano encabeçado por Ivan Duque e a bancada do Centro Democrático como os únicos causadores desse novo cenário de violência. Suas ações legislativas e enganos midiáticos tentam destruir o acorde de paz e atacar a implementação do pacto”, expressou em documento público o Conselho Regional indígena de Cauca (CRIC), uma das regiões afetadas pela guerra.

Continuidade do processo

A direção das Farc marcou posição pelo prosseguimento do processo de pacificação, deslegitimando a ação do grupo minoritário, considerado entre 3% e 10% do total dos ex-guerrilheiros que se incorporaram ao acordo. “Sempre tivemos uma linha, mas com divisões complexas mesmo durante a época da guerrilha. Esse grupo de agora é formado por pessoas que tem sérios desvios ideológicos frente ao partido”, explica um membro das Farc que pediu para não ter o nome citado. Atualmente, a sigla tem cinco representantes no Senado e cinco na Câmara.

Apesar do anúncio, a avaliação do sentimento nas ruas é de preocupação com uma nova escalada de violência. A união entre os dissidentes e o grupo guerrilheiro Exército de Libertação Nacional (ELN) pode detonar um cenário de profunda instabilidade e tensão pelos próximos meses. “As coisas estão mal. Muitos dizem que esse movimento de dissidência acaba reforçando a defesa da repressão encarnada por Uribe e seus partidários. O ambiente segue dividido entre metade favorável ao acordo e outros que o rechaçam”, comenta a vendedora ambulante Luzmari Sanchez.

Outro reflexo dos acontecimentos transparece na estigmatização a que estão expostos as Farc e setores da esquerda colombiana. Em 2016 essa visão preponderou na desaprovação do acordo de paz por pequena maioria do povo colombiano, que em 2018 optou uma vez mais pelo conservadorismo ao dar a vitória ao presidente Duque. "Há muita comoção no país e desconfiança. É difícil para os colombianos fazerem a diferenciação entre o que são as dissidências e o que representa o partido das Farc, que fala inclusive em mudança de nome para modificar essa imagem”, diz psicóloga Nataly Santos.

Ordem de detenção

A Justiça Especial para a Paz, criada para mediar situações relativas ao conflito, emitiu ordem de detenção aos dissidentes ainda no dia 29 de agosto. No dia seguinte e durante todo o final de semana, os jornais e meios de comunicação apresentavam a lista de crimes de que são acusados os guerrilheiros e destacavam a possibilidade de bombardeios por parte do exército para enfrentar o grupo armado.

As forças oficiais garantem que a situação está sob controle e que o coletivo não configura uma nova guerrilha. A diferença nos uniformes dos combatentes que aparecem no vídeo é uma das observações que indicariam precariedades militares por parte dos insurgentes.

“É algo muito complicado e que me assusta. Parece-me que há duas interpretações, a primeira e menos interessante é que os dissidente voltaram à selva, pois ela é um negócio que gera lucros. A mais plausível é que esse grupo já tem a experiência histórica de duas tentativas de ingresso das guerrilhas na vida política, a de União Patriótica e a de Marquetalia. Ambas se transformaram em extermínio em massa, situação que de acordo com eles, pode estar se repetindo nesse momento com o assassinato de líderes sociais e comunitários. Dessa maneira o retorno à luta armada seria uma estratégia para garantir a sobrevivência, não somente física, mas também do ponto de vista político” avalia o professor universitário Byron Escallón.

Em meio às poucas certezas do cenário imposto, uma segurança. A maioria do povo colombiano além de acordar cedo, não dormirá fácil nos dias e noites do mais novo – e repetido — período de estado de violência.

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