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Na Venezuela, camponeses chavistas resistem à oligarquia e defendem propriedade comunal

“A União Comuneira pretende se constituir como um grande movimento político nacional que articule as lutas do povo pela construção definitiva do socialismo”

O Encontro Regional Centro-Oeste da União Comuneira ocorreu do dia 24 ao 26 de janeiro  na Fazenda Las Lomas, em Villanueva, Município Morán, Estado Lara.

O evento teve cerca de 300 participantes de mais de 60 comunas dos estados Lara, Portuguesa, Yaracuy, Cojedes e Apure.

Este encontro será seguido de outros quatro encontros regionais (nas regiões dos Llanos, os Andes, Capital e Oriental) antes de um congresso fundacional da União Comuneira, reunindo delegações de todas as regiões e planejado para o mês de março.

A União Comuneira é uma iniciativa promovida nos últimos meses por várias comunas com o objetivo de articular diferentes experiências do Poder Popular em todo o país.  

“A União Comuneira pretende se constituir como um grande movimento político nacional, um espaço que articule as lutas do povo chavista pela construção definitiva do socialismo”, pode ser lido no documento norteador do encontro centro-ocidental.

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Café ´é um dos principais produtos produzidos na região

Na sessão de abertura, Ángel Padro, porta-voz da Comuna El Maizal, expressou que a União Comuneira assume firmemente o chavismo. Ressaltou que o objetivo não é se opor ao governo, mas que o Poder Popular deve avançar e conformar “um grande polo”.

"A gente vai onde o povo está lutando, às catacumbas”, disse, defendendo que as comunas devem continuar tomando terras e unidades de produção abandonados.

Entrevistado por Tatuy TV, Padro insistiu em que os comuneiros e comuneiras têm “uma grande responsabilidade histórica” no contexto atual. 

“[A União Comunheira] junta o chavismo popular, ao chavismo de base, [...] parte daquela reserva do chavismo que se recusa a deixar o país, que se recusa a se ajoelhar perante a oligarquia e perante o reformismo”, explicou.

Vídeo 1 | Ángel Prado: "A União Comuneira reúne o Chavismo de base"


Reinaldo Iturriza, escritor ex-ministro de comunas, foi outro participante da sessão de abertura. 

“Como a gente consegue avançar num contexto de regressão?”, começou perguntando, argumentando que num contexto de crise e sob a pressão das sanções norte-americanas, o governo venezuelano recuou em questões econômicas.

Se referindo ao movimento popular, Iturriza reiterou que é urgente acumular forças para avançar e articular para poder “incidir politicamente”

Em declarações à Tatuy TV, Iturriza destacou também a importância do caráter “autogestionário” do evento.

“É preciso retomar a iniciativa e um espaço como esse que está em processo de formação, como a União Comuneira. Acredito que é muito importante resgatar seu caráter autônomo”, explicou, qualificando de “muito importante” o esforço de articulação política do evento.

Vídeo 2 | Reinaldo Iturriza: "Os movimentos populares precisam avançar"


Para o segundo dia do encontro, os participantes dividiram-se em diferentes mesas de trabalho. De manhã abordaram a estrutura interna da União Comuneira, seu funcionamento orgânico, os valores e princípios, sua simbologia, entre outros aspectos.

Posteriormente, em horas da tarde, o debate se distribuiu em mesas segundo as quatro temáticas definidas como prioritárias para a União Comuneira: economia, produção, comunicação, formação e segurança.

As últimas sessões do evento foram destinadas à apresentação das conclusões das distintas mesas de trabalho. Houve também espaço para um evento cultural na noite do sábado, com canções dos “Maizalitos” (crianças da Comuna El Maizal) e uma apresentação do Tamunangue (uma dança típica da região) por parte de um grupo cultural local.

Willy Romero, uma porta-voz da Comuna El Miazal, declarou à Tatuy TV que os organizadores estavam “muito contentes” com o encontro. 

 “Temos a convicção que vamos conseguir muito mais conquistas das que temos conseguido os comuneiros e comuneiras da Venezuela”, concluiu.

Vídeo 3 | Willy Romero: "A União Comuneira tem o objetivo construir o socialismo"


A escolha da Fazenda Las Lomas como sede do encontro teve como propósito, segundo explicaram os impulsionadores organizadores do encontro e os organizadores locais, apoiar a luta dessas terras.

Carlos Terán, membro da Comuna Sectores Unidos de Villanueva, explicou à Tatuy TV que a fazenda de 186 hectares, (antiga) propriedade da Corporação Venezuelana do Café, estava num estado de completo abandono e no processo de ser entregue a um empresário de café da região. 

Desde que foram tomadas as terras em janeiro (2019), os integrantes de quatro comunas locais têm limpado o terreno e avançado na produção de diversos itens: café, milho, feijão, andu, etc. Hoje eles estão agrupados no Coletivo Argélia Laya, que coordena as atividades da fazenda recuperada. 

Porém, as ações dos comuneiros têm dado uma resposta dura por parte das autoridades. Vários estiveram presos por 42 dias até que uma campanha de apoio conseguiu libertá-los. Em setembro, o departamento das FAES (Forças Armadas Especiais) tentou, sem sucesso, despejá-los da propriedade. Também denunciaram que têm sido ameaçados pelo suposto futuro dono das terras.

Vídeo 4 | Carlos Terán: "A reunião comuneira é um duro golpe para os grandes latifundiários"


Movimentos camponeses e comunais têm denunciado as repetidas agressões feitas por parte dos latifundiários nos últimos meses, muitas vezes com o amparo de corpos de segurança, violentando a Lei de Terras. Por outro lado, no documento norteador, os comuneiros defendem “a superação do modelo de propriedade privada pelo modelo de propriedade social” e a promoção de “unidades de produção sob o controle das comunas”.

*Tradução: Ciro Casique Silva


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