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Talibã vende mais… Não à toa essa gente não noticia a revolução que vem da China

Xi não quer uma sociedade de jogadores: quer uma sociedade de engenheiros, cientistas, médicos e está mobilizando os mais fortes princípios do coletivismo

Alastair Crooke

Strategic Culture Foundation

Beirute (Libano)

Não surpreendentemente, essa gente escolhe não noticiar a ‘outra revolução’. Não, não falo do relâmpago Talibã que corta o céu do Afeganistão. Falo da Revolução da "Prosperidade Comum’ na China, que rasga o dogma do gerencialismo tech e a pressuposta vantagem que traria para o bem comum.”

A Letra Escarlate [ing. The Scarlet Letter)  é a história de Hester Prynne na América puritana do século 17. A história começa depois que Hester dá à luz uma criança fora do casamento e recusa-se a declarar o nome do pai. Resultado disso, é condenada ao escárnio por uma multidão enfurecida, e a passar “por agonia a cada passo [da prisão até a praça do mercado], perseguida pelos que se empurravam para vê-la, com o coração jogado na sarjeta, para que todos cuspissem e sapateassem nele.” 

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Depois disso, tem de usar um “A” – de “adúltera” – preso ao vestido, pelo resto da vida. Nos arredores de Boston, Hester vive em exílio. Ninguém fala com ela – sequer quem, em silêncio, cometeu pecados semelhantes, dentre os quais o pai da criança e sacrossanto pastor pregador da aldeia. A letra escarlate tem “efeito de feitiço, arrancando-a das relações comuns com a humanidade e encerrando-a numa esfera de solidão, só dela”.

Claro que, hoje, observamos com satisfação arrogante o quanto somos progressistas, modernos, conduzidos pela ciência. Hoje não acontecem letras escarlates, dizemos a nós mesmos –, mas o problema é que, sim, acontecem. De fato, chovem letras escarlates. É perfeitamente verdade que uma mulher que tenha filhos fora do casamento não será agredida por multidão ululante. Não – mas substituímos aqueles tabus do século 17 por tabus novos e rígidos que espantosamente parecem ser como o polo inverso complementar da amaldiçoada colheita anterior. 

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Cabul já não vive mais sob regime imposto pelo Ocidente

Para Anne Applebaum, o tratamento aplicado hoje aos transgressores – embora disfarçado no idioma contemporâneo – não é menos arbitrário e punitivo, que na Massachusetts Puritana dos anos 1640s.

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Como se poderia prever que acontecesse e aconteceu, o livro de Nathaniel Hawthorne A Letra Escarlate, publicado em 1850 foi censurado, alegadamente por ter temática sexual (por mais que, de fato, fosse trama enraizada na máxima pudicícia). Plus ça change: plus c’est la même chose. Mudam os tabus, mas os humanos abraçam ilusões e memes coercitivos tão ferventemente quanto sempre. Talvez ninguém nos ataque com tomates podres na praça do mercado, berrando insultos, mas a esfera pública online tornou-se locus similar de reação visceral instantânea, de pensamento grupal e de prismas ideológicos rígidos e rigidamente controlados. Nuance e reflexão foram condenadas ao exílio. A demanda generalizada por gratificação imediata é imperiosa e obsessiva e às vezes impõe uma ‘letra escarlate’ a pessoas que jamais foram acusadas de qualquer ato que nem remotamente se assemelharia a algum crime.

O que a queda do regime imposto em Cabul pelo Ocidente revelou tão claramente, é que a classe gerencial de hoje — os autores dos nossos tabus contemporâneos, e consumidos pela noção da tecnocracia apresentada como único meio de regra funcional efetiva — fracassou: os ‘gerentes’ absolutamente não conseguiram tirar o coelho — uma vitrine na qual exibir algum gerencialismo técnico — da cartola afegã. Em vez disso, só encontraram naquela cartola, para exibir, matéria profundamente apodrecida — tão apodrecida que colapsou em questão de dias.

Chovem à nossa volta ‘vitórias’ técnicas de Pirro. Acompanhadas de letras escarlates para todos capazes de as contestar — e não só no Afeganistão, que, diz Biden, ‘é’ caso de estrondoso sucesso. As negociações em Viena com o Irã, do chamado “tratado nuclear iraniano” (oficialmente Plano de Ação Conjunta Abrangente, ing. Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA) foram apresentadas como tão conceitualmente sedutoras, que Teerã não teria como recusar coisa alguma. (Mas parece que os iranianos “interpretaram gravemente mal o terreno político”). Vacinas ‘brilhantes’ estão rapidamente criando ‘imunidade de rebanho’ e o retorno à normalidade econômica’ (Só a variante Delta e outras insistem em nos surpreender. Agora, precisamos de três doses e talvez precisemos de ‘doses eternas’ – até que essas também deixem de funcionar).

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O Fed e o Tesouro, governados por dados, conseguiram recuperação econômica muito bem-sucedida — é o que dizem. Problema, só, que a China está ultrapassando os EUA, deflacionando a própria bolha de propriedade nesse momento sensível. E a inflação, essa, também é ‘transitória’ (embora todos os consumidores saibam que aí, não há dúvidas, alguém está mentindo); o Fed diz que está reduzindo despesas, mas todos os investidores, caso tentem, podem facilmente adivinhar o que acontecerá.

Applebaum (mais uma vez) explica[1] por que tantos resistem tanto contra furar a bolha dessas ‘vitórias’ de Pirro:

“Há uma década, escrevi um livro sobre a Sovietization of Central Europe in the 1940s, e descobri que, muito do conformismo político do período inicial do comunismo foi resultado, não de violência ou de coerção estatal direta, mas, sim, de pressão intensa dos pares. Mesmo sem claro risco à própria vida, o povo sentiu-se obrigado – não só em nome das próprias carreiras, mas também para os filhos, amigos, esposa – a repetir slogans nos quais o povo não acreditava; ou a praticar atos de obediência pública a um partido político – do qual zombavam em privado”.

O que todos esses ‘sucessos’ têm em comum? Na prática são derrotas do gerencialismo, derrotas movidas por dados — ‘Grandes Resets’ fracassados – e, ao mesmo tempo, apontar esses riscos gera ‘uma agonia a cada passo’, com as gangues mafiosas a escarnecer aos gritos.

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Por quê? Como refletiu comentarista que trabalhou na Casa Branca de Bush e também na de Obama: “O sistema é incapaz de questionar seus pressupostos básicos. Permanece como um eufemismo para os hábitos e instituições de uma classe de tecnocracia gerencial, que manifestou capacidade coletiva quase ilimitada para defletir os custos dos próprios fracassos. Gente que crê em soluções informacionais e gerenciais para problemas existenciais. Que aumenta pontos de dados e índices estatísticos, para não serem obrigados a escolher objetivos prudentes e a organizar estratégias sólidas para alcançá-los. Gente que crê cegamente no próprio destino garantido pela Providência e no destino de seus iguais — governar, apesar dos próprios fracassos.

Gente que não se interessam pelas críticas. Que só quer elogios e concordâncias. Elevam as próprias ações técnicas funcionais (como vacinação em massa) à condição de indicadores de moralidade: i.e. quem não queira ser vacinado passa a ser condenado como ludita moralmente repreensível.

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Então, não surpreendentemente, essa gente escolhe não noticiar a ‘outra revolução’. Não, não falo do relâmpago Talibã que corta o céu do Afeganistão. Falo da Revolução da ‘Prosperidade Comum’ na China, que rasga o dogma do gerencialismo tech e a pressuposta vantagem que teria para o bem comum.

A escala da revolução social de Xi Jinping intensifica-se dia a dia, escreve Tom Fawdy. E, como os Talibã varrem o Afeganistão, na China também nada parece escapar ao alcance da revolução. É como uma declaração de guerra contra o “capital desordenado”, vale dizer, contra o modelo ocidental do business oligárquico. 

Além da reorganização dramática da orientação pós-escolar (convertendo a orientação pós-escolar em atividade sem objetivo de lucro), do ataque direto contra a big tech, as plataformas de internet, as tecnologias financeiras [ing. fintech], o transporte de passageiros; e do impulso contra renda ‘excessiva’ e a cultura ‘de celebridades’, o estado chinês voltou os olhos na direção do que percebe como ‘jogatina excessiva’ entre os jovens.

Nova regulação mais dura visa a limitar a três horas por semana a atividade dos jovens nas plataformas de jogo, descrevendo o jogo como ‘ópio espiritual’, ao mesmo tempo em que destaca o impacto negativo sobre a saúde mental das crianças.

Ao falar de ‘ópio’, nesse caso, a China metaforicamente toca num nervo ainda exposto da memória histórica nacional: implica alegoricamente que a China de hoje está firmemente empenhada numa nova ‘guerra do ópio’ contra o ‘Ocidente’ — série de países (que inclui a União Europeia), hoje em ação para impor à China as próprias preferências culturais e estratégicas. O mesmo que os britânicos tentaram fazer no século 19, com as exportações de ópio a partir do subcontinente indiano.

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Mas dessa vez Pequim resolveu que esse tipo de subjugação (pelos vícios, do ópio ou do jogo) jamais voltará a ser admitida. Xi não quer uma sociedade de jogadores: quer uma sociedade de engenheiros, cientistas, médicos e inovadores; o tipo de povo que assegure que Pequim vença a corrida tecnológica e possa fazer, com as melhores cartas, a luta contra os EUA. Ao assim fazer, Xi está mobilizando os mais fortes princípios do coletivismo versus a natureza das sociedades ocidentais, onde as crianças, no geral, fazem o que bem entendam. É uma nova era da reforma socialista, altamente ambiciosa e inequivocamente radical. Experimento fascinante.

Como se poderia prever que acontecesse, o Ocidente está focado mais no arrocho feroz da propriedade em andamento na China. Pode haver importante concentração do setor — como se diz hoje em Wall Street —, ainda antes do fim do mundo. De fato, Xi Jinping está deliberadamente quebrando a espinha dorsal da maior bolha financeira do mundo (e é imensa). Essa crise surge em conjuntura delicada para o Ocidente, ao ritmo em que o estímulo da epidemia de Covid vai-se esvaindo, e some a ajuda de emergência. Há um medo de que tudo isso precipite cascatas torrenciais dentro das frágeis economias ocidentais. E pode acontecer. Mas aconteça ou não, a iniciativa de Xi provavelmente servirá ao objetivo em Washington, do ‘jogo de culpar os outros’, com letra escarlate e tudo.

O ponto aqui, contudo, é que Xi está deliberadamente fixando metas nacionais — e formulando estratégicas para chegar a elas. — E o faz explicitamente ao desvelar as não soluções informacionais e técnicas do gerencialismo dito técnico. Xi está atacando diretamente o alicerce chave do paradigma gerencialista.

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Se a fase aguda da deslegitimação da classe gerencial passou despercebida, quando estava ‘apenas começando’ na era do Brexit e Trump, hoje já é “impossível não a ver – depois do Afeganistão e da declaração de ‘guerra’ que Xi inicia contra o “capital desordenado” do business oligárquico.

Se antes ainda não aparecera claramente, o ethos revolucionário dessa resistência chinesa contra o “capital desordenado” foi explicitado essa semana num blog de WeChat, “Li Guangman Ice Point Commentary”. A diatribe do autor foi republicada em toda a mídia estatal chinesa, com clara aprovação das autoridades.

“Todos podem sentir que está em curso uma mudança profunda” — diz o blogueiro, proclamando o fim do caso de amor entre China e a cultura ocidental, e um “retorno à essência do socialismo”. O comentário foi construído em termos de luta até a morte contra o Ocidente.


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