Desemprego para os pobres e renúncia fiscal para os ricos: como eleger o presidente?

Mais parece o suprassumo da burrice, mas saiu no jornal que na opinião do senhor Mercado, o capitão é melhor do que o PT

Paulo Cannabrava Filho

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Em 2018, o governo concedeu R$ 2,3 bilhões de renúncia fiscal às montadoras transnacionais automobilísticas. Em 2019, será mais do que o dobro disso: R$ 7,2 bilhões. No total, de 2008 a 2019, o país deixou de receber R$ 34,6 bilhões.

Além disso, como todas as montadoras são estrangeiras, há que computar o que elas enviaram para suas matrizes a título de pagamento de patentes, remessa de lucro, remuneração de acionistas e pagamento de juros por empréstimos em moeda estrangeira.

Isso, mais os juros da dívida externa, estatal e privada, compõem o que Leonel Brizola chamava de “as perdas internacionais”.

A isso se juntam os neoliberais, que geralmente são os Meninos de Chicago — os Chicago’s boys, formados pelo pensamento único da escola de Chicago — que dizem ser preciso se livrar das estatais porque elas dariam “prejuízo”.

Claro! Tem que dar prejuízo... pois não cumprem com sua atividade fim.

Ignoram que algumas só podem cumprir com sua finalidade com verbas do orçamento da União, como os institutos de pesquisa, universidades, empresas como a Embrapa, por exemplo. Para eles, isso é gasto e precisa ser cortado. Como? Privatizando, ora pois.

Então o governo (que governo?) anuncia que gastou R$ 67,9 bilhões, 127% a mais do que foi gasto entre 2009 e 2017 para manter as estatais. Empresas que certamente dariam lucro se funcionassem a contento. Se não, quem compraria? Esse dinheiro poderia ser gasto em investimento? Certamente. Ocorre que desaparece na voragem dos gastos correntes e pagamento da dívida.

O tamanho da crise institucional

Em 2017, a União arrecadou R$ 218,3 bilhões com o Imposto de Renda à Pessoa Física (IRPF), ou seja, nós, os vis mortais, a maioria dos que ganham até cinco salários mínimos.

O superávit primário de R$ 130 bilhões em 2002, esvaiu-se e chegamos a um déficit primário de R$ 159 bilhões em 2018. Nessa conta não entra o pagamento dos juros e a dívida já está em 75% do PIB e, segundo o FMI, poderá ultrapassar 90% em 2020.

Reprodução
Debate entre os presidenciáveis na Tv Record | Foto: Sergio Dutti

As despesas correntes (manutenção da máquina governamental) crescem 6% (no ritmo da inflação. Como não há expansão da economia e sim retraimento, a receita cai. Como pagar essa conta?

Exportando soja? Exportando minério?

As mineradoras (todas estrangeiras, inclusive a Vale) estão saqueando o país, exportando a fluxo contínuo minérios como se fosse minério de ferro, minério bruto. O governo informa exitoso que elas geraram R$ 3 bilhões de royalties para estados e municípios. Quanto estamos gastando para importar trilhos e outros produtos da China?

Exporta petróleo (agora abundante) importa gasolina, diesel e querosene de aviação dos Estados Unidos. Até etanol estão importando de lá. Em contrapartida, o botijão de gás, utilizado em mais de 80% dos domicílios, é vendido entre R$ 65 e R$ 85 e já não cabe no orçamento do pobre que, como alternativa, queima lenha e carvão, aumentando o desmatamento e a poluição.

Com a economia em retração, o desemprego aumenta, e, pior ainda, aumenta o número dos desalentados, aqueles que desistiram de procurar emprego. 13 milhões de desempregados mais cinco milhões de desalentados. Isso agora.

Como são mais de duas décadas de retração na economia, já há um número enorme de municípios que sobrevivem às custas da renda de pais e avós aposentados. E nas grandes cidades, é cada vez maior o número de casais da classe média indo morar com os país porque a conta não fecha no fim do mês.

Do desalento ao suicídio é só um passo. Entre 2007 e 2016, a taxa de suicídio entre os brasileiros subiu 17%. Por que será? São 31 casos por dia...

De quem é a culpa?

A chamada elite governante, os candidatos e seus gurus e, principalmente a mídia controlada insistem na maior bobagem de botar a culpa no PT pelo que chamam de crise e que, na verdade, é a quebra da União.

Não aceitam que a culpa é do modelo. É isso que dá ter a mente colonizada.

Vejam. A culpa era do PT, tiraram o PT, governaram juntos o PSDB e o PMDB/MDB, aplicaram o que para eles era o certo. Qual está sendo o resultado?

O que mudou?

Nada no essencial. Apenas aprofundaram o modelo, o que é o mesmo que atolar-se na merda.

Quem é que vai consertar isso? Como?

Esperem pra ver o resultado das eleições parlamentares. Todo mundo só está atento ao duelo pela Presidência, sem se preocupar com a eleição para a Câmara e o Senado, para os legislativos e executivos estaduais.

No Congresso Nacional, será que vai diminuir o número do Baixo Clero? Difícil. Mas certamente vai aumentar o número do Alto Clero, a bancada de uma direita mais esclarecida. Podem apostar.

Esse conservadorismo que reelege cerca de 60% dos legisladores tem que ser considerado na análise do processo eleitoral. Há que considerar também que para chegar ao 2o turno da eleição presidencial, basta conquistar 20% dos votos válidos. 20% pra ganhar uma eleição e deixar tudo como está.

Qual a solução?

Vejam o que propõe o economista Pérsio Arida, tucano de primeira hora (ao lado de Fernando Henrique nos dois mandatos), agora o guru econômico de Geraldo Alckmin, que não consegue decolar. (Ainda bem)

Para ele (e o reino tucano) “Constituinte abre uma caixa de Pandora de complicações”. Nada diferente do que propõe a turma do capitão que quer escolher um grupo de notáveis para refazer a Constituição.

É o medo explícito das decisões democráticas. Só os ungidos é que podem governar.

Descartam aumentar a carga tributária que já ascendeu de 21% para 34% do PIB e, mesmo assim, o déficit só aumentou. Claro que tem que aumentar, pois não tem produção.

Pensam que só exportando soja e minério vai haver expansão da economia? Assim só pode haver mais concentração da riqueza. Então, qual a saída?

Arida desfila a ladainha do Consenso de Washington, as cartilhas formuladas pelos Meninos de Chicago:

·         Reforma da Previdência

·         Reforma Tributária

·         Estado mínimo

·         Venda de ativos

Desta vez, Arida deixou de lado o Banco do Brasil, mas, admite que a Caixa Econômica, o segundo maior banco do país, está na lista de privatizações. O que mais? A Petrobras já foi, não é mais estatal e não conseguirão ir além do que já foram.

Outra proposta é congelar as carreiras públicas. Não havendo progressão, congelam os gastos também. Paralelamente, não contratam mais ninguém para substituir os que se aposentam ou entram no programa de demissão voluntária. Maneira bem simples de enxugar a máquina, chegar ao estado mínimo. Será que algum funcionário público votará neles?

E isso já vem sendo feito. A piora no funcionamento da máquina pública por falta de investimento é sentido principalmente nas áreas mais sensíveis de saúde e de educação, mas se estende por todos os setores. As maiores vítimas são precisamente as empresas estatais, sucateadas, inoperantes para poder vender mais barato.

Eleição

Agora as elites estão desesperadas pela cagadas que fizeram. É o que se depreende da leitura dos jornais.

Avaliaram mal o tamanho do PT e da liderança de Lula e sua capacidade de recuperação. Não sei se o termo exato é recuperação. Fizeram de tudo para destruir o mito e conseguiram reforçar o mito e o homem. Era só um líder, agora é herói, infenso à demonização da mídia. Ninguém acredita mais nela.

Acreditando terem tirado o Lulo-petismo do páreo, precisando desesperadamente de um novo demônio, apostaram numa fraqueza do capitão Bolsonaro, que deveria ser derrotado pelo realmente fraco ex-governador Alckmin.

E agora, José?

Entre a cruz e a caldeirinha: ser crucificado ou ser fervido? Eis aí a questão que tanto os atormenta.

Isso se agrava com o fato de a direita insistir em disfarçar-se de Centro.

Direita não é Centro. Não consegue ser porque tem no DNA a prepotência escravagista, a mente ofuscada pelo medo de perder privilégios, a vocação irresistível de ser colônia. Nunca quiseram libertar-se da servidão intelectual. Esse é o drama. Como servos são incapazes de propostas liberadoras.

Veja a consequência desse disfarce.

É incrível, mais parece o suprassumo da burrice, mas, deu no jornal O Estado de S. Paulo, que na opinião do tal do senhor Mercado, o capitão é melhor do que o PT. Caramba! Quem é esse senhor Mercado? Isso o jornal não explica, pois devem estar embutidos lá dentro deles mesmos. Mercado, minha gente, são os especuladores nas Bolsas, são os financistas...

Agora, tardiamente (palavras deles) percebem que tanto eles, como a crise, são produtos da própria insensatez. Isso quem disse foi Fernando Henrique. Tasso Jereissati, tucano biliardário, dono entre outras, da cadeia de shopping Iguatemi, diz que o grande erro de seu partido foi entrar no governo Temer. Por que não saem?

Se a direita se disfarça de centro, quem é o centro?

Pela lógica, o centro é o PT, o PDT, partidos que se disfarçam de esquerda, mas que, evidentemente, sim são o centro e, infinitamente melhores que a direita.

É preciso separar o joio do trigo. Quem dizia isso? Deve ser um sábio.

Não dá mais para considerar de esquerda quem propõe o mesmo do mesmo. Este povo já foi enganado mais de uma vez. Qualificam o centro de esquerda (e ele acredita ser) desqualificam, demonizam, para manter a hegemonia da direita que hoje é simplesmente a ditadura do pensamento único e do capital financeiro.

Esquerda hoje é ruptura!

Esquerda hoje tem que ter um pensamento libertário em oposição ao pensamento único. Esquerda hoje tem que ter um projeto nacional de desenvolvimento integrado e autônomo em contraposição à ditadura do capital financeiro.

Esquerda hoje tem que ter um projeto de descolonização, em todos os sentidos, principalmente cultural, de modo a colocar a universidade para pensar o país, explorar as riquezas nacionais para financiar a indústria de transformação para exportar, competitivamente, com alto valor agregado.

Querem saber mais sobre como chegamos a essa situação, comprem o livro que escrevi com intenção de alertar sobre o processo eleitoral: A governabilidade impossível ou ruptura institucional – Reflexões sobre a Partidocracia brasileira. 

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