Por que Bolsonaro prestou continência ao assessor de Segurança Nacional dos EUA?

Presidente eleito não tem nada de patriota e defende ideologias similares as que fundaram a sinistra aliança e subordinação dos militares aos estadunidenses

Tião Torres

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Esquerda Online
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No dia 29 de novembro, Jair Bolsonaro recebeu, no Rio de Janeiro, o assessor de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton. Segundo o próprio Bolsonaro, assuntos como a crise com a Venezuela, a possível mudança da embaixada brasileira em Israel e as relações comerciais com a China dominaram a conversa.

Ao final, Bolsonaro foi convidado por Bolton para visitar os EUA, para se reunir com Trump. Bolsonaro já declarou em várias ocasiões que o atual Presidente dos EUA é um exemplo para ele e uma das suas referências na política.

Entretanto, uma imagem chamou muita atenção na visita. No momento exato do encontro entre os dois, Bolsonaro prestou continência ao representante do governo dos EUA. O vídeo circulou pelos sites dos principais jornais do país, que destacaram a cena que é, no mínimo, inusitada. Bolton não devolveu o cumprimento.

Vídeo /divulgação
Uma imagem chamou muita atenção. No momento exato do encontro, Bolsonaro prestou continência ao representante do governo estadunidense

O assunto não chega impressionar ou mesmo ser inédito. Afinal, na campanha eleitoral passada, outro vídeo polêmico circulou nas redes sociais, onde Bolsonaro presta continência diante da bandeira dos EUA, durante um comício realizado num restaurante na Flórida, em outubro de 2017.

O que faz um político de origem militar, que se prepara para assumir a Presidência da República do Brasil e que tanto se orgulha em se dizer um patriota acostumar-se a prestar continência aos símbolos e representações dos EUA?

O acontecido se revela apenas uma obra do acaso? Ou existem razões mais significativas para explicar tanta benevolência de Bolsonaro para com os EUA?

As relações da elite das Forças Armadas brasileiras com os EUA

Até a participação do Brasil no esforço militar da II Guerra Mundial, nossas Forças Armadas eram fortemente influenciadas em sua formação pela França e, mais secundariamente, pela própria Alemanha.

Inclusive, houve durante o período da ditadura do Estado Novo, uma forte simpatia de elementos importantes da cúpula das Forças Armadas brasileiras com o Eixo – nome da aliança militar entre Alemanha, Itália, Japão, entre outros – como, por exemplo, o próprio General Eurico Gaspar Dutra, Ministro da Guerra neste período e que, posteriormente, viria a ser presidente da República.

Mas, a tardia definição do Brasil de entrar na II Guerra Mundial ao lado das Forças Aliadas e o envio de tropas brasileiras para o confronto direto no continente europeu, através da criação da Força Expedicionária Brasileira (FEB), marcou a inauguração das relações privilegiadas entre as Forças Armadas brasileiras e a dos EUA.

Veterano da FEB, o general Castelo Branco foi um desses militares que se aproximaram muito dos EUA, inclusive participando de cursos de formação promovidos pelas Forças Armadas estadunidenses. Não à toa Castelo Branco viria a ser o primeiro presidente indicado, depois do golpe militar de 1964.

Influenciados pela ideologia liberal conservadora, predominante entre os militares dos EUA, os generais brasileiros voltaram da II Guerra já convencidos da necessidade de acabar com o Estado Novo e dar início a um “regime democrático”, sob a tutela das Forças Armadas e em estreita colaboração com os EUA.

Getúlio Vargas é destituído ainda em 1945, mesmo depois de já ter concedido anistia política, instituído a liberdade partidária – inclusive para o PCB – e marcado novas eleições para o fim do ano. Mesmo assim, os mesmos generais que apoiaram a criação do Estado Novo, agora convertidos em “liberais”, derrubaram Getúlio.

Em dezembro daquele ano, o General Dutra, já como membro do PSD, era eleito Presidente da República. A partir de então se pode perceber, sem dificuldade nenhuma, a forte influência dos EUA sobre as Forças Armadas e os próprios governos brasileiros.

Já em 1947, é assinado, no Rio de Janeiro, o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR), que dava liberdade ao governo dos EUA a intervir em países da América Latina, em caso de assuntos de defesa nacional. Também em 1947, é cassada a legalidade do PCB.

Neste período já estava em franco funcionamento a Comissão Militar Mista Brasil/EUA. Em 1954, essa comissão chegou a ser registrada nas Nações Unidas (ONU) como uma comissão permanente, com o objetivo de cuidar de vendas de armamentos e da assistência militar mútua.

Em 1949, o Pentágono auxiliou as Forças Armadas brasileiras a fundarem a Escola Superior de Guerra (ESG), que passou a ser o local mais importante de produção de ciências militares e de produção ideológica para os militares brasileiros. A presença de militares dos EUA entre os professores da ESG durou até pelo menos 1960.

Também em 1949 é criada a Escola das Américas (que depois ficou conhecida como “escolas de ditadores”), na região do Canal do Panamá. Neste local, os militares dos EUA treinaram durante vários anos não só militares brasileiros, como de vários outros países da América Latina. Boa parte dos militares brasileiros, que estiveram à frente do golpe de 1964, fez formação neste espaço.

Em 1952, já no novo Governo de Getúlio Vargas, agora eleito pelo voto popular, é firmado o acordo militar entre Brasil e EUA, com o objetivo de regulamentar a troca de estratégia e equipamentos militares.

Por trás da criação deste acordo estava o Chefe do Estado Maior das Forças Armadas brasileiras à época, general Góes Monteiro, outro expoente da ala militar brasileira mais afinada aos interesses estadunidense (ala entreguista, chamada assim por seus opositores à época). Esse acordo é visto por alguns autores como uma concessão política de Getúlio Vargas para a ala entreguista das Forças Armadas, que ficou muito insatisfeita com a nacionalização do petróleo brasileiro.

Embora tivesse havido forte resistência no interior das Forças Armadas brasileiras, construída por uma ala nacionalista, que se colocou totalmente contrária à linha de subordinação aos interesses estadunidenses, à política entreguista acabou prevalecendo entre a elite militar brasileira. Já no início da década de 1960, o comando das Forças Armadas brasileiras já está totalmente aliado e subordinado aos EUA.

Ideologias como “defesa nacional”, “inimigo interno” e “perigo comunista”, produzidas em Washington e disseminadas entre os militares brasileiros, principalmente através das suas escolas de formação, como a Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN), foram à base para as tentativas golpistas frustradas durante a década de 1950 e início da década de 1960.

Até que, em 1964, é desferido o golpe militar, já em estreita e absoluta aliança com os EUA. As mais de duas décadas de ditadura militar marcam de forma inequívoca o atrelamento definitivo do nosso país aos interesses políticos, militares e econômicos estadunidenses.

Em defesa da soberania nacional

Bolsonaro não tem nada de patriota. Ele defende até hoje ideologias muito similares a estas que fundaram a sinistra aliança e subordinação dos militares brasileiros aos estadunidenses. Portanto, não tem nada de casual que o atual presidente eleito brasileiro preste continência para autoridades estadunidenses e até para a bandeira deste país imperialista.

Com esse gesto, ele faz nada mais nada menos, do que fizeram sempre a maioria dos generais brasileiros, como Dutra, Góes Monteiro, Castelo Branco, Golbery e tantos outros. Ou seja, “se ajoelhar” diante dos seus chefes ianques.

Mais uma vez, a defesa da nossa soberania nacional, assim como de nossos irmãos latino-americanos, cairá sobre os ombros do povo trabalhador, da juventude e dos oprimidos. Essa tarefa será, com certeza, uma das mais importantes durante o governo de Bolsonaro.

 

Referência Bibliográfica:

BARBOSA, Jefferson; GONÇALVES, Leandro; VIANNA, Marly; e CUNHA, Paulo (Organizadores), MILITARES E POLÍTICA NO BRASIL, Expressão Popular, São Paulo, 2018.

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