Dos EUA à Inglaterra: entendendo a segurança pela perspectiva das potências mundiais

Como desenvolver a estratégia do caos e manter em funcionamento a máquina do sistema, sem um inimigo a combater?

Paulo Cannabrava Filho

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A partir de 1980 ocorreram mudanças importantes na política exterior dos Estados Unidos. Mudam os paradigmas levando a reformulações estratégicas e táticas.

Já não havia o “perigo do comunismo” como força antagônica. Como ideia tampouco representava perigo. Produto de uma guerra cultural bem sucedida, levada a cabo desde 1946, impôs-se o pensamento único. Impressionante, até em centenárias universidades, como a londrinense Oxford, pensadores divergentes viraram folclore, coisa rara que pode até ser exibido numa falsa demonstração de livre pensar.

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Como desenvolver a estratégia do caos e manter em funcionamento a máquina do sistema, sem um inimigo a combater? O sistema simplesmente não funciona sem um demônio para ser combatido. Assim sendo, é preciso criar os próprios demônios.

A Doutrina de Segurança Nacional mudou de foco. Se aperfeiçoou à luz do pensamento único e se desdobrou numa estratégia de Combate ao Terrorismo.

Que terrorismo é esse?

O que eles qualificavam de terrorismo eram as guerrilhas de libertação nacional. As esquerdas radicais latino-americanas foram dizimadas, os palestinos confinados, o comunismo europeu cooptado, o Iraque e a Líbia viraram terras arrasadas. Tudo dominado. O que fazer?

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Produtos químicos, gás lacrimogêneo, gás mostarda, bombas de efeito moral, técnicas de cerco e de ataque, tropas de choque, interrogatórios,

Simples:

Se não há um demônio a combater, faça-se o demônio

Não se pode esquecer que Osama Bin Laden foi uma criação dos serviços de inteligência estadunidense e saudita. Até o desabamento das torres gêmeas em Nova York especialistas põem em dúvida se não foi obra maluca dos serviços de inteligência.

Criaram o Talibã para criar problemas para os russos que tinham ocupado o Afeganistão. Agora, os insurgentes são necessários para justificar a ocupação militar, o livre fluxo do comércio de ópio, manter um verdadeiro cerco armado nas fronteiras da Rússia.

O governo de Barack Obama tratou de manter a política de cerco estratégico à Rússia, mas as coisas mudaram radicalmente. O gênio Putin conseguiu livrar o país dos especuladores, recuperou os centros de decisão e, de braço-dado com a China, está construindo uma nova ordem mundial. Com isso, tornou irreversível o declínio da hegemonia estadunidense.

Como manter 300 bases militares distantes com uma economia em declínio?

Trump veio para tentar reverter esse declínio, pondo a máquina produtiva para funcionar, recuperando áreas industriais sucateadas, enfrentando a hegemonia do capital financeiro especulativo.

Nessa transição, que mais parece convulsão, estão sendo construídos os novos paradigmas e as estratégias para as guerras de novo tipo. Os principais cenários em que se desenvolvem essa nova estratégia são os próprios Estados Nacionais. Explico. Não é preciso deslocar forças, tudo ocorre no interior das fronteiras do estado alvo. Invasão só em situações extremas.

Até o desabamento das torres gêmeas em Nova York especialistas põem em dúvida se não foi obra maluca dos serviços de inteligência.

A padronização da repressão é mundial como a financeirização da economia

Essa nova forma de guerra trouxe elementos novos e está impondo uma nova padronização, que implica em fornecer novos produtos e, claro, enriquecer os fabricantes. Capitalismo é isso, formar cartéis de fornecedores e de financiadores.

Tomemos a velha Inglaterra como exemplo. Durante muito tempo, ela manteve a fama de ter os melhores soldados guerreiros para as guerras de conquista territorial e a melhor polícia desarmada para a segurança pública. Gabava-se de exercer uma política de segurança pública com os corpos policiais desarmados, se necessário, só com cassetete. Até que chegou a imposição da padronização exigida pelos senhores da nova geração das guerras.

A rainha da Inglaterra mandou não só armar, como também militarizar as forças de Segurança Pública, ou seja, o que deveria ser polícia civil desarmada, é agora PM com armamento dessa nova guerra. E estamos falando apenas da parte que envolve pessoas, sem contar com a parafernália vídeo-web-eletrônica de controle da cidadania.

Tal como as polícias do continente europeu, a polícia de Londres utiliza as mesmas fardas com pistolas na cintura e colete à prova de bala; escudo longo, cassetete também tamanho família, carabina de grosso calibre, adaptada para disparar granadas e bombas de gás; carros blindados de assalto, carros com jato d’água, helicópteros e drones, camburão e tudo o mais que for necessário.

Aquele jovem brasileiro que morreu baleado num Metrô de Londres[1], foi vítima do uso precoce de armas de fogo, por policiais que nunca as haviam utilizado antes. Daí o nervosismo que levou ao assassinato de um civil desarmado que morreu sem sequer saber o por quê.

Tudo está padronizado

Produtos químicos, gás lacrimogêneo, gás mostarda, bombas de efeito moral, técnicas de cerco e de ataque, tropas de choque, interrogatórios, treinamento e doutrinação. Tudo. Principalmente treinamento e doutrinação, a vontade de matar, o mesmo que a banalização da violência. E, talvez o mais importante, os fornecedores–fabricantes e vendedores dos produtos necessários para a guerra de nova geração.

E o papel das Forças Armadas?

No nosso caso, através dos acordo de cooperação firmados com Estados Unidos, as Forças Armadas estão recebendo sucata (ou comprando), sobras das últimas guerras do século passado (Vietnã, Iraque etc.), materiais tornados obsoletos.

Para que isso aconteça, é preciso acabar com a indústria nacional de materiais bélicos, principalmente aqueles de alto valor agregado e de alta tecnologia. Por que será que as pessoas não percebem que a desmontagem de projetos estratégicos, como pré-sal, usinas nucleares, submarino nuclear, petroquímica, estaleiros, tudo isso é parte de uma estratégia de dominação, conquista de mercado para os novos produtos made in EUA?

Agora é preciso equipar as forças policiais militarizadas.

Uma nova geração de fornecedores está aí para não deixar a economia dos países centrais do capitalismo minguar, nem deixar de expandir-se e de conquistar novos territórios.


*Jornalista editor de Diálogos do Sul

[1] Jean Charles de Menezes (1978-2005) foi assinado por um agrupamento armado da polícia de Londres, em 24 de junho de 2005,  aos 27 anos. Acharam que era um terrorista e... bang! E ainda mais tentaram a todo custo esconder a verdade.

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