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Capitalismo disfuncional na pandemia: o que vem primeiro, a sociedade ou o indivíduo?

O coronavírus parece estar destinado a nos “infectar” não só literalmente, mas também metaforicamente, e neste caso, de modo positivo

Beatriz Bissio

Diálogos do Sul Diálogos do Sul

Rio de Janeiro (RJ) (Brasil)

Quantos desafios nos coloca o momento que estamos vivendo! Quantas certezas que se desmancham como pó! Quantas mentiras que a mídia e os mais poderosos pretenderam passar por verdades ficaram a nu! Muito disso seria motivo de comemoração, não fosse o custo uma inimaginável tragédia humanitária.

Vou tentar não repetir o que já muitos disseram ou escreveram. Mas é óbvio que uma pandemia das proporções da que está a nos atingir neste início de 2020 nos obriga a repensar muitas questões que, mesmo não sendo novas, a partir de agora passam a ter outra relevância. Trata-se de desafios teóricos e de desafios práticos. Dos desafios teóricos (mas com possíveis consequências práticas, se levado a sério) um dos que primeiro me ocorre é uma pergunta tão antiga quanto a própria civilização, mas que hoje nos interpela com toda dramaticidade: o que vem primeiro, a sociedade ou o indivíduo? 

Parece uma questão alheia à hercúlea tarefa de derrotar o nosso inimigo invisível. Mas não é. Da resposta virão posturas muito diferentes na estratégia e no comportamento para enfrentar o contágio e minimizar o estrago em vidas humanas.

A resposta da China, por exemplo, deixou clara a filosofia que orienta não só o governo, mas, principalmente, o próprio conjunto de cidadãos: os interesses coletivos se antepõem a qualquer interesse individual. Um exemplo que tem sido citado dessa forma de assumir os direitos e deveres decorrentes da vida em sociedade foi a resposta em Wuhan, epicentro da pandemia, a um chamado de voluntários. A tarefa? Ajudar, nos bairros mais afetados pela doença, a todos os moradores em quarentena que necessitassem comprar alimentos e medir a temperatura dos vizinhos, um controle necessário para minimizar o avanço da infecção. Dez mil voluntários apresentaram-se e, em menos de dez horas, comitês comunitários foram criados para atender os necessitados.

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Da resposta virão posturas muito diferentes na estratégia e no comportamento para enfrentar o contágio e minimizar o estrago en vidas humana

Outro desafio, relacionado ao anterior (o que vem primeiro, a sociedade ou o indivíduo) também antigo mas de renovada atualidade é a questão: o que é mais importante numa sociedade, a liberdade ou a igualdade? O debate em torno deste tema inflamou os círculos políticos durante décadas no século passado, no marco da luta ideológica entre capitalismo e socialismo/comunismo. A argumentação em favor da liberdade, tal como era entendida nesse contexto - lembremos que o conceito de liberdade foi mudando ao longo da história - basicamente era a defesa do sistema capitalista, da livre iniciativa, e do mercado. O argumento central desta corrente girava em torno da crítica ao Estado no modelo soviético, no qual os ‘’direitos individuais’’ estavam submetidos à lógica coletiva.  Em contrapartida, os que entendiam que a igualdade é o elemento mais importante para a vida em sociedade apontavam a falácia da liberdade no sistema capitalista. Para eles, por deixar a condução da economia nas “mãos invisíveis do mercado”, o capitalismo só oferece para maior parte da sociedade uma liberdade ilusória por limitada, uma liberdade que, numa metáfora bem-humorada, se reduz à possibilidade de escolha entre Coca-Cola e Pepsi-Cola…

E hoje, esses debates são relevantes? 

Bem, se os leitores estão acompanhando a cobertura da pandemia do coronavírus nos meios de comunicação, no Brasil e no mundo, poderão coincidir comigo que esses temas permeiam todas as conversas mas aparecem só indiretamente nas mesas redondas ou ocupam somente alguns segundos das matérias ao vivo, quando a palavra é dada a algum popular mais consciente, na reportagem de rua. Porém, são questões que não podem estar explicitadas. 

Por quê? Porque colocam “o dedo na ferida”: se for aberto o debate, obrigariam a admitir que as nossas sociedades, em particular no mundo ocidental, quando submetidas à versão neoliberal do capitalismo, são disfuncionais. Se isso for admitido, o passo seguinte deveria ser a discussão das mudanças necessárias no modelo que nos oprime como sociedade e nos condena como espécie, pelo dano irreparável que está provocando no nosso lar comum, o planeta Terra.

Teríamos que enfrentar o debate sobre os absurdos de um sistema que não permite que quebrem os bancos, mas sim admite que sejam jogadas fora as vidas de milhões de seres humanos, condenados à miséria, à fome, aos quais sequer lhes é dada a mínima oportunidade de fazer parte, verdadeiramente, da sociedade. Teríamos que colocar de cabeça para baixo as prioridades de investimento, proibir as práticas predatórias do meio ambiente, repensar o trabalho humano para que volte a ser não uma forma de exploração e de discriminação, mas a chave para a nossa realização como seres racionais e julgar e condenar os responsáveis por esses desatinos (ou devemos, sem eufemismos, chamá-los crimes?).

Então, como estes temas não podem fazer parte da pauta de debates, nos meios de comunicação globais se discutem questões relativas à pandemia tocando só superficialmente os problemas de fundo. 

Hoje os grandes banqueiros, os CEO das holdings, os membros do 1% que explora o 99% da Humanidade e a mídia mainstream, a mídia oligopólica, que é um dos principais alicerces dos governos neoliberais, estão com uma batata quente nas mãos. Um minúsculo vírus conseguiu a proeza de revelar que todas as certezas presentes nos seus discursos não passavam de um castelo de cartas de baralho. Mas não podemos esperar deles um ato de arrependimento ou de “mea-culpa”.  

Porém, com o sem mídia a incentivar esse debate, cada um de nós pode, neste momento, repensar o nosso papel neste mundo. Se antes essa não era uma questão presente nas nossas aflições, hoje pode passar a ser, pois, com o rigor das medidas que demanda, a pandemia exige pensarmos nos interesses coletivos antes que nos interesses individuais.

As demonstrações espontâneas de solidariedade em diversas partes do mundo, insistentemente reproduzidas nas redes sociais, assim como a doação generosa de milhões de médicos, enfermeiros, técnicos de saúde, pessoal de limpeza - que continuam ao lado dos pacientes contaminados nos hospitais, mesmo ao elevado preço de suas próprias vidas -, tudo isso demonstra que o poder transformador está em cada um de nós e na nossa ação coletiva. 

Hoje constatamos, caso ainda não o tivéssemos compreendido, que sem uma sociedade organizada nós, indivíduos, não podemos sobreviver. E que sem uma sociedade na qual a igualdade seja um valor a ser procurado, também não! Na hora da crise, como ficou demonstrado dramaticamente nestes dias, todos dependemos de todos, e ninguém está a salvo se não conta com a ajuda do próximo. 

O coronavírus parece estar destinado a nos “infectar” não só literalmente, mas também metaforicamente, e neste caso, de modo positivo. Nos obrigou a nos enxergar como membros de uma mesma espécie, toda ela ameaçada, e como habitantes de um mesmo lar, o nosso belo planeta azul, que não tem fronteiras, e também está ameaçado, mas neste caso, pela nossa espécie...  

A pandemia também nos mostrou que, na falta de orientação e liderança de cima (pois poucas autoridades aqui e no mundo afora, demonstraram estar à altura do desafio), multiplicaram-se as iniciativas vindas da sociedade, produto da auto-organização. Os vizinhos arregaçaram as mangas e foram à procura de paliativos ou mesmo de soluções improvisadas. E cada um, dentro de seus limites e habilidades, passou a pensar a melhor forma de se doar. (O que não significa desconhecer a existência de casos perversos de exploração do sofrimento alheio.) 

Se pensarmos neste aprendizado como um embrião de algo novo, as possibilidades de uma mudança de comportamento futuro são encorajadoras. Demonstram que as nossas sociedades têm o potencial da resposta aos desatinos dos governantes e dos que, detrás deles, exercem o verdadeiro poder. Falta compreender que essa energia, essa solidariedade, essas experiências de auto-organização, essa força, não podem se desmanchar com a vitória sobre o vírus. Ao contrário, o “dia seguinte” não será fácil. Muito teremos perdido, em termos humanos e materiais, depois da crise. Por isso mesmo, teremos que continuar unidos, organizados, pro-positivos, buscando novos caminhos para assegurar um futuro diferente para nossas sociedades.


Beatriz Bissio é professora universitária e do Conselho Editorial da Diálogos do Sul


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