Leonardo Wexell Severo

Argentina: milhares marcham contra Milei por cortes nas aposentadorias, fim de medicamentos gratuitos e ajuste do FMI

Centrais sindicais, movimentos sociais e partidos se somaram aos aposentados e pensionistas em frente ao Congresso nesta quarta-feira (CTA-T)

Leonardo Wexell Severo
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Na mesma quarta-feira (22) em que o governador Tarcísio de Freitas anunciou que concederia a Javier Milei a mais alta honraria do estado de São Paulo, milhares de argentinos voltaram a marchar em frente ao Congresso Nacional, em Buenos Aires, para execrar o fantoche de Trump, rejeitar os sucessivos cortes na Previdência Social, o brutal arrocho nas aposentadorias e a selvagem repressão contra aposentados e pensionistas — que consumiu, oficialmente, pelo menos dois bilhões de pesos (R$ 6,8 milhões) em 2025.

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Tarcisio de Freitas e Javier Milei – Twitter X

Ao todo, foram 43 operações policiais nas quais aposentados e pensionistas enfrentaram gás lacrimogêneo, spray de pimenta, cacetadas e jatos de água de caminhões-bomba.

Senhores e senhoras com mais de 80 anos foram agredidos e mais de 500 pessoas ficaram feridas, em diferentes graus de gravidade. “Para a repressão não há motosserra”, sintetizou Victoria Darraidou, coordenadora da equipe de Segurança Democrática e Violência Institucional do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais (CELS).

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Cobrando justiça para os idosos e em repúdio à política de submissão da Casa Rosada ao Fundo Monetário Internacional (FMI), centrais sindicais, movimentos sociais e partidos se somaram às tradicionais marchas de quarta-feira, exigindo o retorno da distribuição de medicamentos gratuitos e condenando o sucateamento do Instituto Nacional de Serviços Sociais para Aposentados e Pensionistas (Pami), maior sistema público de assistência médica da Argentina.

Seguridade Social é um direito, não um privilégio

Ao mesmo tempo, erguendo faixas com imagens de Perón e Evita e reiterando que “a Seguridade Social é um direito, não um privilégio”, os manifestantes disseram um rotundo não à reforma trabalhista e ao Fundo de Assistência Laboral (FAL), criado por Milei para desviar recursos do sistema previdenciário. O FAL, esclareceram, gera contínuos cortes orçamentários e reduz a sustentabilidade das aposentadorias, atentando contra os direitos de quem dedicou toda uma vida à construção de um país mais justo.

“Não abandonar as ruas, mesmo que uma vez por semana, vai gerando a consciência necessária para que a reivindicação não seja somente dos aposentados e pensionistas, mas envolva toda a classe trabalhadora, como ocorreu na última quarta-feira”, defendeu Olivia Ruiz, secretária de Previdência Social da Central de Trabalhadores da Argentina Autônoma (CTA).

A dirigente recordou que, com Milei, “o bônus extraordinário da Administração Nacional da Previdência Social (Anses) não é reajustado desde 2024, a cobertura integral de medicamentos foi suspensa, os agendamentos médicos para todos os tipos de atendimento foram adiados e acabou a possibilidade de pagar os anos que faltam para se aposentar ao atingir a idade mínima, já que a lei de moratória, que expirou em março de 2025, não foi prorrogada”.

No governo anterior, o valor do bônus chegou a representar metade do salário mínimo. Hoje, no máximo, permite comprar dois botijões de gás, mas o governo anuncia seu fim em razão da decisão judicial que derrubou a liminar.

Para completar, condenou Olivia, foi aprovada uma lei de reforma trabalhista que utiliza recursos da Anses para pagar demissões e indenizações. Ao mesmo tempo em que necessitamos ampliar a pressão sobre o Congresso, frisou, “precisamos reverter esta situação negando o voto a este governo genocida e construir a possibilidade de ter um governo progressista, com um projeto de distribuição, solidário e público, que garanta os direitos constitucionais aviltados”.

65% dos aposentados e pensionistas recebem o mínimo

Conforme a Anses, dos 7,9 milhões de beneficiários, 5,1 milhões (65%) receberam, em julho, a aposentadoria mínima de $ 411.989,33 (R$ 1.411), à qual se somou um bônus extraordinário de $ 70.000 (R$ 239,80), totalizando $ 481.989,33 (R$ 1.651). Esses valores não dão a dimensão da catástrofe, já que o preço do quilo do café ultrapassa $ 60 mil (R$ 205).

“Isso fez com que aumentasse o número de suicídios. Muita gente também faleceu por abandono, negligência do governo ou por não ter recebido os medicamentos no tempo devido. Outros continuam morrendo”, acusou a secretária de Previdência Social da CTA-A.

No primeiro trimestre de 2026, os pagamentos da Previdência despencaram 41,3% em termos reais em relação ao mesmo período do ano anterior. Além disso, o Tesouro Nacional não transferiu um único peso para a agência em março. Dessa forma, a dívida acumulada com médicos, clínicas e farmácias chegou a 500 bilhões de pesos (R$ 1,72 bilhão). Cirurgias tiveram de ser suspensas, tratamentos de câncer foram interrompidos e os hospitais públicos ficaram completamente sobrecarregados. Os hospitais das províncias foram obrigados a absorver um aumento de 30% na demanda, sem qualquer compensação do governo federal. Os dados oficiais confirmam que a crise está impactando o crescimento da mortalidade.

“Uma em cada quatro receitas deixou de ser aviada por motivos econômicos”

Os medicamentos oncológicos e destinados ao tratamento de doenças crônicas — cuja interrupção pode comprometer a vida dos pacientes — foram os primeiros a escassear, tendo seu fornecimento adiado por meses pelo Ministério da Saúde. As farmácias de bairro dependem do fluxo de pagamentos do Pami para manter o crédito junto aos atacadistas de medicamentos. Quando esse fluxo é interrompido, o crédito também é cortado. Assim, alertam as centrais sindicais, “uma em cada quatro receitas deixou de ser aviada por motivos econômicos”.

Membro da direção da Confederação Geral do Trabalho (CGT), Jorge Sola afirmou que, desde que Milei assumiu, “foram perdidos mais de 300 mil empregos e fechadas mais de 23 mil pequenas e médias empresas”. Por outro lado, Sola apontou que “o governo abandonou a produção e o desenvolvimento industrial”, o que provocou o crescimento da informalidade e da precarização. Tal postura, além da negligência com o Estado, contribui para a deterioração do sistema de saúde, “alimentando um crescente mal-estar social”.

Para o secretário-geral da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras da Argentina (CTA-A), Hugo “Cachorro” Godoy, “os aposentados são um exemplo da dignidade do nosso povo e esta etapa do plano de luta liderada pelas três centrais vem se inspirar no seu exemplo e nos unir a eles para que nos guiem na tarefa de derrotar este governo, que quer destruir as aposentadorias e os salários, a ciência e a tecnologia, e desestruturar a própria pátria”.

“Continuaremos lutando em defesa da soberania, seguindo o exemplo das gerações de aposentados, com a organização de uma greve nacional para abrir as portas para um horizonte de esperança, com uma pátria emancipada e um povo que possa viver com dignidade”, acrescentou.

Milei assumiu o compromisso com o FMI de privatizar novamente o sistema de aposentadorias

Na avaliação do secretário-geral da CTA-T e deputado federal Hugo Yasky, “trata-se de defender um direito de todos aqueles que têm trabalho formal e informal: chegar ao fim da vida profissional com uma existência digna garantida”.

“Não podemos deixar de pensar que este é um governo que, perante o Fundo Monetário Internacional (FMI), assumiu o compromisso de, caso vença a eleição no ano que vem, privatizar novamente o sistema de aposentadorias”, denunciou.

Se dependesse de Milei, advertiu Hugo Yasky, “os argentinos estariam vivendo a contagem regressiva para o fim da aposentadoria pública e solidária”.

“Precisamos lutar para impedir que se concretize essa verdadeira fraude, que significará ter um país como outros do mundo, onde chegar ao fim da vida profissional é um castigo. Acredito que o que estamos vivendo hoje é uma vergonha, além da indignidade que representa essa repressão do governo, que tem como alvo principal os mais idosos”, assinalou.

Quanto ao absurdo corte no programa Remediar — destinado à distribuição gratuita de uma lista de medicamentos essenciais, atualmente reduzida de 79 para apenas três fármacos básicos voltados às doenças cardiovasculares — e ao encerramento do programa Voltar ao Trabalho, que beneficia 900 mil pessoas com 78 mil pesos por mês (R$ 267), o parlamentar apontou que essa é mais “uma demonstração da insensibilidade e da brutalidade de um governo que impõe cortes até mesmo àqueles que vivem na indigência”.

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Manifestantes condenam a submissão ao Fundo Monetário Internacional (FMI), exigem o retorno da distribuição de medicamentos gratuitos, denunciam o sucateamento do Programa de Atenção Médica Integral (Pami) e o desvio de recursos do sistema previdenciário

“Tirar 78 mil pesos de indigentes é realmente um ataque nefasto”, frisou.

Pablo Moyano, também integrante da direção da CGT e secretário-geral adjunto do Sindicato dos Caminhoneiros, recordou que esteve ao lado de cada marcha dos aposentados, apoiando as cozinhas comunitárias.

“Hoje era uma responsabilidade e uma obrigação acompanhar a mobilização das centrais e dos movimentos sociais. Esperamos que este seja o início da derrota deste governo que está causando tanto dano. Que represente o aprofundamento de uma resistência contra um governo tão prejudicial, responsável por causar incontáveis danos a milhões de argentinos”, expressou.

O presidente da Associação dos Trabalhadores do Estado (ATE Capital) e secretário-geral adjunto da CTA-T, Daniel Catalano, afirmou que a redução de quase um milhão de vagas no programa Voltar ao Trabalho, em meio ao recrudescimento da crise, é simplesmente “brutal”.

O fato, explicou, é que “esse corte representa o desmantelamento das economias regionais, pois produz um impacto direto sobre os territórios”.

“Esse dinheiro ia diretamente para a mercearia, para o quiosque, para a feira do bairro, e hoje não estará mais lá. Assim, nosso povo continua se desgastando, continua se empobrecendo, continua sofrendo. Os bloqueios de estradas realizados em todo o país foram massivos, foram muito necessários, e é preciso intensificar a luta”, defendeu.

“Continuamos marchando pelo mesmo motivo pelo qual marchamos todas as quartas-feiras”, apontou Catalano, “para que a aposentadoria mínima deixe de ser uma mentira e garanta aos aposentados o sustento, o aluguel e a possibilidade de comer duas vezes por dia — algo que, hoje, seis milhões deles não conseguem fazer. Portanto, diante da angústia da fome do nosso povo, marchamos em um espírito de unidade”.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Leonardo Wexell Severo Jornalista, analista internacional e diretor do Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo.

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