Reprodução: Ricardo Stuckert

Argentinos condenam ofensas de Milei a Lula e alertam para prejuízo nas relações com o Brasil

Em entrevista nas ruas de Buenos Aires, moradores — inclusive eleitores de Javier Milei — criticam os ataques ao presidente Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, alertam para os danos à relação entre Brasil e Argentina e classificam a postura do presidente como um desrespeito ao país vizinho

Leonardo Wexell Severo
Diálogos do Sul Global
Buenos Aires

Tradução:

“Vergonha alheia” e “falta de respeito” com “nosso país irmão” foram algumas das expressões que ouvimos nas ruas de Buenos Aires, nesta quarta-feira (29), em condenação às agressões proferidas por Javier Milei contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Sem vice e sem alianças, com uma grande tesoura nas mãos — numa versão da motosserra ultraneoliberal —, Flávio recorreu ao apoio de Milei na convenção que homologou sua candidatura à Presidência para esbravejar contra o líder brasileiro. Revoltado por a Justiça lhe ter negado acesso à visita a Jair Bolsonaro, foi filmado saltitando e esbravejando contra o “socialismo”, chamando Lula de “presidiário” e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes, de “lixo careca”. Tudo em uma lambança com dinheiro público do país vizinho.

O ultradireitista, responsável pelo agravamento dos cortes públicos, pelo aumento da informalidade, do emprego sem registro e da inadimplência na Argentina, fez um apelo para que o Brasil renegue qualquer projeto de construção de um país desenvolvido e soberano.

Mesmo eleitores do próprio Milei condenaram, na reportagem, a irresponsabilidade da intervenção em favor de Trump, advertindo para o prejuízo nas relações econômicas bilaterais entre os dois países, nas quais o país menor tem sempre mais a perder.

Sem titulodsdsad
“Temos um presidente ao lado dos ricos”, declarou Sérgio Manuel, na Praça de Maio

3a9aa795 33af 4634 aac4 e51c884260a3Para completar, Milei está sendo denunciado em seu país por utilizar o avião oficial e recursos do Estado para participar da convenção em apoio a Flávio Bolsonaro.

Conforme a ação, apresentada pelos advogados José Magioncalda e Juan Martín Fazio, o deslocamento do presidente argentino para um ato político da oposição brasileira representa um desvio de dinheiro público de sua finalidade específica, configurando crime de malversação de fundos e descumprimento dos deveres de funcionário público.

Milei enfrenta crise de popularidade e denúncias de corrupção na Argentina

“Os recursos estatais foram desviados para satisfazer os interesses de uma facção política, causando graves danos às relações diplomáticas bilaterais”, sustentam.

Diante das agressões de Milei, o Brasil convocou seu representante diplomático na Argentina e analisa quais medidas serão adotadas.

“Seria muito lógico que o Brasil tomasse represálias em relação a isso. E eu, como argentino, tenho que reconhecer que não temos um presidente muito agradável e que esteja do lado do povo; ele está do lado dos ricos. Infelizmente, é o que nos calhou”, afirmou Sérgio Manuel.

Tomando mate na Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, sede do poder político e administrativo do país, a jovem Romina sintetizou o que a população está sentindo: “A verdade é que, para mim, deu muita vergonha como argentina. Realmente, não representa o que a maioria do nosso povo sente. Então, me pareceu totalmente infeliz, vergonhoso”.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Leonardo Wexell Severo Jornalista, analista internacional e diretor do Sindicato dos Escritores do Estado de São Paulo.

LEIA tAMBÉM

Chávez
Chávez expulsou Israel por massacrar Gaza. Agora governo Delcy abre caminho para retomar relações
Colômbia
Terremoto de 7,4 atinge Colômbia, mata 132 e deixa 188 desaparecidos 72 horas após posse de De la Espriella
Milei
Milei desmonta indústria nuclear argentina e ameaça décadas de soberania tecnológica, denuncia físico argentino
Colômbia
Terremotos na Colômbia e Venezuela expõem dívida latino-americana com prevenção e emergência