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Argentina x Inglaterra: semifinal põe frente a frente soberania argentina e colonialismo britânico nas Malvinas

Cada confronto entre argentinos e ingleses reabre uma disputa que envolve colonialismo, soberania, recursos estratégicos e uma das questões territoriais ainda pendentes da agenda internacional

Rogério do Nascimento Carvalho, Vanessa Martina-Silva
Diálogos do Sul Global

Tradução:

A cidade de Atlanta, nos Estados Unidos, recebe um confronto que ultrapassa em muito os limites de uma partida de futebol. Sempre que Argentina x Inglaterra se enfrentam em uma Copa do Mundo, entram em campo também duas narrativas inconciliáveis sobre colonialismo, soberania e memória histórica. O arquipélago das Ilhas Malvinas permanece como uma das últimas disputas coloniais ainda abertas no século 21.

As tensões entre argentinos e britânicos não nasceram do duelo de 1986, quando Diego Armando Maradona marcou o inesquecível gol da “Mano de Dios” antes de conduzir a Argentina ao título mundial, tampouco começaram na Guerra das Malvinas, em 1982. O conflito armado foi apenas o momento mais dramático de uma disputa muito mais antiga.

Guerra das Malvinas - laibl.com.br
Guerra das Malvinas – laibl.com.br

A origem da disputa

Suas raízes remontam a 1833, quando o Reino Unido ocupou militarmente o arquipélago das Malvinas, expulsou as autoridades argentinas e consolidou sua presença em uma das regiões mais estratégicas do Atlântico Sul.

A ocupação ocorreu durante o auge da expansão marítima britânica, período em que Londres construiu um império global baseado no controle de rotas comerciais, territórios ultramarinos e fontes de matérias-primas indispensáveis ao desenvolvimento da Revolução Industrial.

Durante mais de um século, a supremacia naval britânica sustentou um sistema colonial que alcançou praticamente todos os continentes.

Após a Segunda Guerra Mundial, a descolonização reduziu significativamente esse império, sobretudo na África e na Ásia.

Ainda assim, Londres preservou diversos territórios considerados estratégicos para manter sua capacidade de projeção militar e influência geopolítica.

As Malvinas — chamadas pelos britânicos de Falkland Islands — fazem parte dessa arquitetura de poder.

Um ponto estratégico no Atlântico Sul

A importância das ilhas ultrapassa em muito suas dimensões territoriais. Situadas em posição privilegiada no Atlântico Sul, funcionam como plataforma de projeção sobre as rotas marítimas que conectam a América do Sul, a África e a Antártida. Sua relevância cresce em cenários de instabilidade ou de eventual interrupção do Canal do Panamá.

Além disso, a região concentra uma das maiores áreas pesqueiras do planeta, reservas potenciais de petróleo, gás e minerais estratégicos, além de representar um ponto de apoio para futuras disputas envolvendo o continente antártico.

Num mundo marcado pela crescente competição por minerais críticos, terras raras e recursos energéticos, controlar posições como as Malvinas significa muito mais do que exercer soberania sobre um pequeno arquipélago.

Significa garantir presença militar permanente, capacidade de vigilância sobre o Atlântico Sul e influência sobre uma das regiões que mais ganharão importância geopolítica nas próximas décadas.

O respaldo argentino no direito internacional

É justamente essa dimensão estratégica que explica por que a reivindicação argentina permanece viva há quase dois séculos.

Para Buenos Aires, a ocupação britânica representa um dos últimos enclaves coloniais remanescentes na América Latina e uma violação permanente de sua integridade territorial.

Não se trata apenas da memória da guerra de 1982, mas de uma ocupação iniciada em 1833 que jamais foi reconhecida pela Argentina.

Essa posição encontra respaldo no fato de que a Organização das Nações Unidas (ONU) jamais considerou encerrada a questão.

Desde 1946, as Malvinas figuram na lista de territórios não autônomos da ONU e, em 1965, a Resolução 2065 reconheceu oficialmente a existência de uma disputa de soberania entre Argentina e Reino Unido, recomendando que ambos os países negociassem uma solução pacífica para o conflito.

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Londres, por sua vez, sustenta sua posição com base no princípio da autodeterminação dos habitantes das ilhas. Buenos Aires contesta essa interpretação.

O argumento argentino é que a autodeterminação foi concebida para garantir a emancipação de povos submetidos ao colonialismo, e não para consolidar situações produzidas pela própria ocupação colonial.

Como a população atual foi estabelecida após a expulsão das autoridades argentinas, em 1833, a Argentina defende que o caso deve ser tratado como uma questão de descolonização e integridade territorial, e não como um processo clássico de autodeterminação.

A militarização das Malvinas

A permanência britânica nas Malvinas também não pode ser dissociada da crescente militarização da região.

O Reino Unido mantém no arquipélago uma das principais bases militares do Atlântico Sul, equipada para operações aéreas, navais e de vigilância. Essa estrutura garante proteção à exploração econômica dos recursos naturais da região e amplia a capacidade de projeção britânica sobre o Atlântico Sul e a Antártida.

É nesse contexto que um confronto entre Argentina e Inglaterra adquire um significado que vai muito além do esporte.

Em campo, não se enfrentam apenas duas seleções nacionais. O confronto ocorre também no plano simbólico: um país latino-americano que reivindica a recuperação de parte de seu território e uma potência europeia que ainda conserva um enclave colonial a milhares de quilômetros de suas próprias fronteiras.

Colonialismo no século 21

Não se trata do colonialismo espanhol dos séculos 16, 17 ou 18, frequentemente apresentado como uma página encerrada da história.

Trata-se de colonialismo no século 21, sustentado por bases militares, controle de recursos naturais, domínio de rotas marítimas e projeção estratégica sobre regiões sensíveis do planeta.

É um colonialismo adaptado ao capitalismo contemporâneo. Já não depende da ocupação de vastos impérios territoriais, mas do controle de pontos-chave da economia e da geopolítica mundial.

De um lado está a Argentina, uma nação latino-americana que ainda busca concluir seu processo de afirmação territorial. Do outro, o Reino Unido, antiga potência imperial que preserva territórios ultramarinos como instrumentos de sua influência global.

É nesse sentido que o duelo também pode ser compreendido como um embate entre colonizado e colonizador. Não porque toda a Argentina esteja submetida ao Reino Unido, mas porque parte do território reivindicado pelo país permanece sob administração de uma potência estrangeira.

A relação colonial continua concreta nas Malvinas: manifesta-se na presença militar, na exploração unilateral dos recursos naturais, no controle das águas territoriais e na recusa britânica em negociar a soberania, apesar das reiteradas recomendações da ONU.

O futebol como revanche simbólica

Foi por isso que a Copa do Mundo de 1986 ganhou um significado muito maior para os argentinos.

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Argentina campeã da copa de 1986 – wikipedia

Apenas quatro anos após a derrota militar, o gol da “Mano de Dios” e a atuação histórica de Diego Armando Maradona foram incorporados ao imaginário nacional como uma espécie de revanche simbólica diante da antiga potência colonial.

Desde então, as referências às Malvinas permanecem presentes nas arquibancadas, nas canções das torcidas e na própria construção da identidade nacional argentina.

O futebol, evidentemente, não resolve disputas de soberania. Mas oferece um raro espaço em que as assimetrias históricas desaparecem temporariamente. Durante 90 minutos, a antiga potência colonial já não dispõe de porta-aviões, bases militares ou poder de veto em organismos internacionais. Dentro de campo, são apenas onze contra onze.

É justamente por isso que cada novo confronto entre Argentina e Inglaterra reabre uma ferida que permanece aberta. Não é apenas uma rivalidade esportiva. É a expressão contemporânea de uma disputa colonial ainda sem solução.

O colonialismo não desapareceu. Mudou de linguagem, sofisticou seus mecanismos e passou a se apresentar sob conceitos como governança, segurança ou autodeterminação.

Nas Malvinas, porém, sua lógica continua essencialmente a mesma: uma potência europeia mantém, a milhares de quilômetros de seu território, uma ocupação estratégica sobre uma área reivindicada por um país latino-americano.

Quando a bola começa a rolar, entram em campo muito mais do que duas seleções. Entram também duas visões de mundo: de um lado, a permanência de uma ordem internacional construída pela expansão colonial europeia; de outro, a reivindicação de soberania de um país que considera incompleto seu processo de descolonização.

Enquanto a controvérsia permanecer sem solução nas arenas diplomática e geopolítica, ela continuará encontrando nos estádios uma forma popular de revanche — em gritos de guerra, hinos, bandeiras e gols.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Rogério do Nascimento Carvalho Professor universitário, advogado, pesquisador em geopolítica e conflitos armados. Mestre em Estratégia Marítima pela Escola de Guerra Naval e Doutor pelo Programa de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP).
Vanessa Martina-Silva Trabalha há mais de dez anos com produção diária de conteúdo, sendo sete para portais na internet e um em comunicação corporativa, além de frilas para revistas. Vem construindo carreira em veículos independentes, por acreditar na função social do jornalismo e no seu papel transformador, em contraposição à notícia-mercadoria. Fez coberturas internacionais, incluindo: Primárias na Argentina (2011), pós-golpe no Paraguai (2012), Eleições na Venezuela (com Hugo Chávez (2012) e Nicolás Maduro (2013)); implementação da Lei de Meios na Argentina (2012); eleições argentinas no primeiro e segundo turnos (2015).

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