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Atuação em Nova York e ONU consolida Lula como líder do Sul Global, aponta historiador

Segundo Andre Pagliarini, presidente brasileiro “está empenhado em defender o multilateralismo em várias formas de governança internacional”
Jim Cason
La Jornada
Nova York

Tradução:

Na Organização das Nações Unidas e em sua tour por Nova York, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva consolidou sua posição como um líder do Sul Global não alinhado e democrático ao exigir a reforma da organização multilateral, liderar apelos por mais ações para abordar a mudança climática e a pobreza mundial, puxar os Estados Unidos a uma coalizão para defender os direitos laborais, ao mesmo tempo em que expressou seu apoio à greve do sindicato automotivo, tudo enquanto buscava atrair mais investimento internacional para sua país. 

“O Brasil foi realmente um grande vencedor da Assembleia Geral. O que desejava conseguir na Assembleia foi estabelecer, uma vez mais, que o Brasil é um parceiro confiável, comprometido, multilateralista e democrático”, explicou o historiador Andre Pagliarini, professor no Hampden-Sydney College, na Virginia, e colaborador do Quincy Institute for Responsible Statecraft, em Washington. “Os Estados Unidos já não são ‘todo poderoso’ como antes”, explicou, acrescentando: “Lula está empenhado em defender o multilateralismo em várias formas de governança internacional – e não só em torno à ONU mas sim aos BRICS, entre outros – não se deixa limitar”. 

Com liderança de Lula, Sul Global ganha força na busca pela nova ordem mundial

Rafael Ioris, professor de História Latino-Americana e Política na Universidade de Denver e pesquisador no Washington Brazil Office, está de acordo: “O Brasil estará comandando o Mercosul, o G20, o BRICS ampliado e agora o Conselho de Segurança, portanto gozará de uma plataforma enorme que pode usar para aprofundar a tese de reformar as instituições que coordenam as dimensões geopolíticas e econômicas do mundo atual”, escreveu em uma análise para o Office.

Em entrevista ao La Jornada, o analista brasileiro-estadunidense Pagliarini apontou que a mídia prestou muita atenção nestes últimos meses ao papel de Lula na reunião dos BRICS, em agosto, sua viagem à China, sua recusa às pressões dos Estados Unidos a brindar apoio incondicional à Ucrânia e mais. Um objetivo da viagem a Nova York, assinalou, foi estabelecer com sua contraparte estadunidense que há muitas áreas em que podem colaborar, ainda que existam as bem conhecidas diferenças. 

Coalizão Global pelo Trabalho: saída para crises depende de integração e participação

A proposta de Lula ao presidente Joe Biden para criar uma aliança global para defender sindicatos e os direitos trabalhistas é um exemplo deste esforço. Ambos os mandatários se identificam como campeões dos trabalhadores, e a nova aliança que anunciaram na ONU expressou sua mensagem compartilhada: “As nações do mundo falaram sobre mudança climática, segurança alimentar, resiliência econômica. Sabemos que nosso progresso sobre todos estes temas dependerá dos trabalhadores”, declarou Biden nesse evento com Lula. 

Aliás, o líder brasileiro deixou claro seu compromisso com os trabalhadores ao enviar seu ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, e uma delegação, para se reunir com líderes do sindicato automotivo UAW, que está em greve, e expressar a eles “o apoio e a solidariedade do presidente Lula”.

Segundo Andre Pagliarini, presidente brasileiro “está empenhado em defender o multilateralismo em várias formas de governança internacional”

ONU News
Especialistas se perguntam se há novos líderes no Brasil que possam ser reflexos de Lula para continuar sua agenda ambiciosa

Lula também teve reuniões bilaterais durante sua estadia na ONU, incluindo seu primeiro encontro pessoal com o ucraniano Volodymyr Zelensky, o que foi qualificado como “muito importante” e no qual ambos os presidentes deram ordens aos seus chanceleres de “continuar trabalhando sobre temos bilaterais e multilaterais e continuar discutindo a paz”, informou o chanceler brasileiro Mauro Vieira a jornalistas. Poucas horas depois, Vieira se reuniu com o chanceler russo Serguei Lavrov. O brasileiro explicou que a preocupação de Lula “é buscar a paz a fim de pôr fim ao sofrimento, mortes e destruição que, é claro, são desconcertantes para todo o mundo”.

“O que quer que se pense sobre Lula, há alguém parecido com ele no cenário mundial?” pergunta Pagliarini. “Alguém que facilmente poderia se reunir na próxima semana com Putin, depois de se reunir com Zelensky, e-mails a Biden hoje. Quem pode cruzar pela África sem carregar uma história imperialista e também deslumbrar europeus com suas credenciais social-democráticas”. 

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Na ONU, Lula também se reuniu com o diretor da Oficina Mundial de Saúde, com várias contrapartes latino-americanas e – como reportou o La Jornada – falou tanto diante da Assembleia Geral como no Conselho de Segurança. Sua delegação, além de seu chanceler e seu ministro do Trabalho, incluiu a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Entre suas múltiplas reuniões, Lula participou da cúpula sobre mudança climática na quarta-feira (20). Enquanto Haddad se reuniu com o gigantesco fundo de investimentos BlackRock e com a secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen.

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Lula goza de forte apoio à sua agenda internacional nas pesquisas de seu país, diz Pagliarini. Mas o líder brasileiro também entende as expectativas econômicas, tal como expressou em seu último tuíte ao despedir-se de Nova York e resumir todas as atividades e reuniões com diversos líderes e setores da delegação que encabeçou: “Todos felizes com a volta ao Brasil, com vontade de trabalhar junto e investir em nosso país. Vamos continuar trabalhando duro pelo desenvolvimento do Brasil e por um mundo melhor”.

O Brasil, sob Lula, também deixou claro aqui que deseja ser um líder global em abordar a crise da mudança climática, e em seu discurso ante a Assembleia Geral ressaltou a transição acelerada a fontes renováveis. Essa liderança no ramo da “energia verde” é chave para lograr o objetivo do Brasil de negociar um acordo comercial entre o Mercasul e a União Europeia, como também para os grandes projetos de infraestrutura que seu governo está impulsionando no Brasil. 

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Para vários especialistas, como Pagliarini, uma pergunta é se há novos líderes dentro do Brasil que possam ser reflexos de Lula para continuar com esta agenda ambiciosa ou “quanto isso depende de que Lula esteja no controle… Uma vez que não esteja, o Brasil pode sustentar isto?”.

Por enquanto, Lula repete, como fez com Biden depois de quatro anos de Trump, que, no cenário internacional, “o Brasil está de volta”

Jim Cason e David Brooks | La Jornada – Especial para Diálogos do Sul – Direitos reservados.
Tradução: Beatriz Cannabrava


As opiniões expressas nesse artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Jim Cason Correspondente do La Jornada e membro do Friends Committee On National Legislation nos EUA, trabalhou por mais de 30 anos pela mudança social como ativista e jornalista. Foi ainda editor sênior da AllAfrica.com, o maior distribuidor de notícias e informações sobre a África no mundo.

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