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Boal na Revolução Peruana: histórias do homem que queria mudar o mundo — e mudou

Quando voltou dos Estados Unidos, em 1956, Boal veio com o teatro incorporado a seu ser, uma das mais poderosas armas para o desenvolvimento humano
Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul
São Paulo (SP)

Tradução:

Introdução

Em 18/11/2009 publiquei, com o título “Augusto Boal: o subversivo maravilhoso”, um artigo na Diálogos do Sul, em homenagem a meu amigo que se foi. O texto provocou muita gente, por revelar coisas importantes da vida do Boal pouco conhecidas. Provocou principalmente o Geo Britto, que me fez e ainda faz perguntas para destrinchar a militância de Boal na Ação Libertadora Nacional (ALN) e a vivência de Boal no Peru, onde junto comigo, participou de um projeto de formação de quadros para uma estratégia de educação integral, que começava com uma campanha de alfabetização.

Geo Brito trabalha há 30 anos no Centro de Teatro do Oprimido, onde coordenou projetos nas favelas, educação, saúde, direitos humanos entre outros. Realizou  trabalhos na Palestina, Bolívia, Moçambique, Egito, África do Sul, Índia, Guatemala, México, Argentina, Peru, Uruguai, Colômbia e países do hemisfério Norte. Atualmente integra a direção da Escola de Teatro Popular-RJ com vários movimentos sociais.

Com esse currículo, não poderia deixar de atendê-lo e suas perguntas me fizeram dar um mergulho na memória, provocou uma verdadeira catarse, pois foi profunda a experiência de ter participado de um dos mais belos e importantes projetos da Revolução Peruana, que envolvia o sonho da formação do homem novo que libertaria a humanidade da opressão social herdada do colonialismo. Aproveito neste trabalho alguns parágrafos de artigo anterior.

Boal reinventou o teatro

Augusto Boal queria transformar o mundo. Queria um mundo em que as pessoas pudessem se realizar em todo seu potencial. 

Quando voltou dos Estados Unidos, em 1956, veio com uma das mais poderosas armas para o desenvolvimento humano. Veio com o teatro incorporado a seu ser, acreditando que Stanislavski o ajudaria a levar a cabo a revolução cultural necessária. E reinventou o teatro. 

Naquela época, o Brasil se reinventava em todos os aspectos da criatividade humana: reformas de base, teatro, cinema novo, bossa nova, poesia concreta, CPC da Une, democracia, CGT/Pua, Congresso de Trabalhadores Agrícolas, projeto nacional de desenvolvimento, plano trienal….. é, o Brasil se reinventava. Explodia em criatividade e impressionava o mundo.

As metrópoles neocoloniais, temerosas de perder sua fonte de riqueza, aliadas às oligarquias escravagista, temerosas de perder seus privilégios, deram o golpe de Estado e impuseram governos repressivos e regressivos.

O teatro já não era suficiente para enfrentar a ditadura civil-militar que teimava em anular cada uma das conquistas do povo brasileiro. Liquidaram com os partidos de expressão popular, fecharam o congresso, intervieram nos sindicatos e organizações estudantis, cassaram e caçaram a inteligência e as lideranças nacionais.

Diante da impossibilidade de atuar e avançar politicamente, comunistas, católicos, democratas das mais diversas cores partiram para a luta armada, como opção para livrar o país de seus algozes. 

Amigo de Carlos Marighella e Câmara Ferreira, Boal não ficou indiferente aos novos desafios. Foi preso, torturado, saiu para o exílio e continuou a fazer do teatro sua arena de luta em favor da libertação dos povos. Boal jamais se recuperou das sequelas da tortura: três ou mais cirurgias no joelho e, finalmente, a leucemia que mais tarde o levou deste mundo.

Quando voltou dos Estados Unidos, em 1956, Boal veio com o teatro incorporado a seu ser, uma das mais poderosas armas para o desenvolvimento humano

Acervo Augusto Boal
Augusto Boal queria transformar o mundo

Os indocumentados

No exílio, Boal continuou a ser perseguido e torturado pela ditadura. Deixaram-no sem passaporte. Também a mim a ditadura deixou sem passaporte. É terrível, pois, no exterior, o passaporte é o único documento válido e nós precisávamos trabalhar para sobreviver. Além disso, Boal queria mostrar seu teatro para o mundo. Um teatro já evoluído para uma ação conscientizadora capaz de despertar nas pessoas o olhar para além de seu próprio umbigo e encarar crítica e criativamente a realidade.

Idibal Piveta, advogado, seguidor dos ensinamentos de Boal, que como poeta e teatrólogo é o Cesar Vieira do Teatro União e Olho Vivo, impetrou mandado de injunção contra a União pelo absurdo de se negar passaporte a um cidadão. No argumento, Piveta citava versos de Bertolt Brecht, teatrólogo que revolucionou o teatro como conceito no mundo. Em 1947, fugindo da perseguição macartista nos Estados Unidos, chegou à Suíça sem passaporte. O homem sem seu passaporte não existe, dizia Brecht.

O caso foi parar no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que deu ganho de causa a Boal por nove votos a favor e dois contra. Na sessão seguinte, foi julgado o meu processo e os juízes votaram onze a zero. Firmou-se jurisprudência e a partir daí todos os brasileiros que estavam no exílio sem passaporte puderam requerê-lo nas embaixadas e permanecer devidamente documentados. 

Em 1969, nos encontramos em Cuba. Boal fora enviado por Câmara Ferreira, o comandante Toledo, então o segundo homem no comando da recém-formada Ação Libertadora Nacional (ALN), liderada por Carlos Marighella.  

Depois, vez ou outra nos encontrávamos em Buenos Aires. Na Argentina, ele criou o Teatro Invisível, uma forma de fazer manifestação política em ambientes públicos, como num ônibus, metrô, etc. Nessa época, ele mostrou seu teatro no Festival de Nancy (1971) e ganhou seu primeiro prêmio internacional. Antes já havia sido premiado em São Paulo em reconhecimento a sua obra e seu trabalho no Teatro de Arena. 

Quando o governo revolucionário de Velasco Alvarado, no Peru, iniciou a reforma na educação, na realidade uma revolução cultural que começava com uma estratégia de alfabetização e outra de educação, sugeri a Salazar Bondy que convidasse Boal para nos ajudar na formação dos quadros que integrariam o contingente de educadores. 

Salazar Bondy, educador, filósofo e epistemólogo, era o executivo do Ministério de Educação, tocava o principal projeto da revolução peruana: a formação do homem novo. Foram momentos maravilhosos poder conviver com Salazar Bondy, poder interagir com lideranças de uma cultura milenar como a andina. Sei que essa experiência influenciou profundamente Boal. Foi aí que, aplicando a técnica do Teatro Invisível, criou o Teatro Fórum para trabalhar os conflitos inter-relacionais. 

Em 1978, Boal foi para a França e, no ano seguinte, seu Teatro do Oprimido estava provocando uma ebulição no meio intelectual francês, com repercussão por vários países da Europa. Impressionante como essa ideia extravasou fronteiras. A acumulação das experiências levou-o a utilizar o teatro como terapia, materializada no Arco-Íris do Desejo.

Boal anistiado: o Estado pede desculpas pelo mal que lhe causou

Com a Lei de Anistia, de 1979, pôde voltar ao Brasil. Em 1986, Boal aceitou convite formulado por Darcy Ribeiro, secretário de Educação do Rio de Janeiro no governo de Leonel Brizola, e foi dirigir a Fábrica de Teatro Popular. A partir daí, permaneceu no Brasil desenvolvendo seu projeto, dando palestras, viajando pelo mundo para difundir suas ideias e sua técnica. 

Em 1992, foi eleito vereador na cidade do Rio de Janeiro e aproveitou a experiência para mais uma de suas criações: o Teatro Legislativo. Mais uma ferramenta de ação cultural conscientizadora por meio da qual estimulava o povo a pensar a legislação necessária.

Em 2008, o processo de anistia a Boal, que estava parado há cerca de nove anos, foi para julgamento na Comissão de Anistia. Em um primeiro momento, para a burocracia, Boal não poderia receber indenização mensal e continuada porque não havia prova documental de que trabalhava e de quanto recebia mensalmente quando foi preso, torturado e forçado a um exílio de mais de dez anos. 

Chegaram centenas de cartas e emeios do mundo inteiro, testemunhando o trabalho e a importância de Boal. Nem ele mesmo tinha ideia de tal abrangência de sua contribuição para a ação cultural através do teatro no mundo. Felizmente, a comissão entendeu que como diretor do Teatro de Arena, Boal não poderia ter carteira assinada, mas era remunerado como qualquer outro diretor teatral. A reparação foi concedida.

A concessão da anistia aliviou um pouco a situação da família mas, Boal, a essa altura, já estava bastante doente. Dia 27 de março deste ano teve a alegria de receber da Unesco o título de Embaixador Mundial do Teatro. Seu discurso mais que uma despedida é um testamento. Deixa para nós sua mensagem de sempre: 

    “Teatro não pode ser apenas um evento – é forma de vida! Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!”

Em homenagem a Augusto Boal, transcrevo um trecho de um discurso seu:

Dia Mundial de Teatro – 27 de Março de 2009

Augusto Boal

“Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram ver.

Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência. Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática – tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes esses espetáculos da vida”

Augusto Boal na Revolução Peruana

O Peru estava em Revolução (com maiúscula), desde outubro de 1968. Uma revolução anti oligárquica e anti-imperialista, que pretendia não ser alinhada aos países comunistas nem aos capitalistas, mas tinha profundo conteúdo social.

Anti Oligárquica – expropriou os latifúndios (cana, algodão, gado) e entregou as fazendas aos trabalhadores organizados em cooperativas. Estatizou também os bancos dos oligarcas. Numa outra fase, expropriou os meios de comunicação entregando-os às organizações de trabalhadores.

Anti-imperialista – expulsou a Estação da CIA e nacionalizou os campos de petróleo nas mãos de petroleiras estadunidenses. Militou nos movimentos dos países não-alinhados e apoiou a todos os povos que lutavam por sua libertação.

Conteúdo social – criou a comunidade industrial, a propriedade social, cooperativas e preparou quadros para executar o projeto revolucionário, através do Sinamos — Sistema Nacional de Mobilização Social-, no qual trabalhou Darcy Ribeiro; e através da estratégia de educação levada a cabo pelo Ministério da Educação. 

Esse era o cenário.

Havia um plano nacional de desenvolvimento para o qual Augusto Salazar Bondy contribuiu, elaborando uma estratégia de educação e dentro dela uma Operação de Alfabetização Integral – Alfin. Pensada estrategicamente, pois não adiantaria alfabetizar uma pessoa e em seguida abandoná-la no mundo. Ele volta a ser analfabeto, ou melhor, vai engrossar as miríades de analfabetos funcionais. Então a educação é concebida como continuada e por toda vida. Alfabetiza, educa, forma para uma profissão e tem que ter um emprego para ele lá na frente. 

A Alfin foi concebida em duas etapas: 

1º) a formação e capacitação de quadros — monitores — para treinar e assessorar os alfabetizadores. 

2º) A campanha de alfabetização mobilizando alfabetizadores em todas as comunidades. Esses alfabetizadores eram treinados e capacitados pelos monitores da Alfin.

Para executar, havia duas equipes com pessoal recrutado por Salazar Bondy especificamente para o projeto: uma equipe didático pedagógica e outra de comunicação.

A primeira era encarregada de formular a metodologia e preparar o material didático pedagógico, bem como material de apoio e, com isso, capacitar o monitor a formar rapidamente um alfabetizador para trabalhar (alfabetizar) em quaisquer circunstâncias e em quaisquer lugares.

A segunda, encarregada de preparar o monitor para incentivar na comunidade o olhar crítico aos meios de comunicação e trabalhar na construção de meios alternativos próprios à comunidade, com os recursos disponíveis.

Este último, coordenado por mim, também se encarregou da campanha de divulgação para o lançamento da Alfin, criando um clima favorável na população, envolvendo os meios de comunicação que ainda pertenciam às oligarquias. O mote da campanha: ¡Abre los Ojos! chamava a atenção para você poder abrir os olhos para o mundo letrado, para a cultura.

Pela primeira vez no Peru foi pensada a educação bilíngue, respeitando o idioma quíchua das comunidades. A comunidade inteira era mobilizada em torno da campanha de alfabetização, e utilizava as salas de aula existentes e locais comunitários. O papel dos quadros capacitados pela Alfin era o de organizar a comunidade para o projeto e oferecer aos alfabetizadores propriamente ditos a metodologia e o material didático. 

Nos grandes centros urbanos, a campanha privilegiou os conglomerados periféricos, algo como as favelas daqui.

O monitor, o quadro da revolução, estava habilitado para identificar os ativos de cada agrupamento para projetos de geração de trabalho e renda. Capacitados, inclusive, para auxiliar na formação de cooperativas de produção em comunidades camponesas ou de artesanato. Era capaz também de com os recursos disponíveis (às vezes nenhum, na selva) criar mídias de interação social.

Esse era o contexto.

A ação se deu numa Colônia de Férias (tipo SESC de Bertioga) em Huampani, localizada ao Sul de Lima e não muito longe dali. Entre às duas equipes da Alfin e os “recrutas” não menos que mil pessoas, em regime de tempo integral (internato).

Antevendo os conflitos que poderiam surgir nesse amontoado de gente, classe média em sua maioria, sugeri a Salazar Bondy convidar o Augusto Boal para me ajudar, como grande comunicador, na interação grupal. 

Boal estava vivendo com Cecília, em Buenos Aires. Entre 1970 e 1972, por duas vezes, me encontrei com ele lá. Encontro entre amigos, companheiros. 

Por que trazer Boal? 

Eu tinha na lembrança o trabalho dos Centro Popular de Cultura — CPC da UNE — e do Partidão (Partido Comunista Brasileiro — PCB), nos anos 1950-1960, tanto em trabalhos de alfabetização como de organização sindical de camponeses e de operários. 

Vi o surgimento do Teatro de Arena nesse contexto. Senti na pele a força das técnicas teatrais para a organização do povo. Também tinha a percepção de quanto isso tinha impressionado o Boal. 

Não só o Boal, toda aquela geração, que inventou o cinema novo, a bossa nova e tudo o mais.  Cineastas como Leon Hirszman, Ruy Guerra e Caca Diegues, poetas, escritores, músicos como Oduvaldo Viana (Vianinha), Carlos Estevam Martins, Ferreira Gullar, Francisco de Assis, João das Neves, Gianfrancesco Guarnieri, Carlinhos Lira, Edu Lobo, Nara Leão, Sérgio Ricardo, Geraldo Vandré….

Boal chegou a Lima, ficou em minha casa, de lá nos dirigimos para Huampani. Foi mais de um mês. A colônia de férias tinha bastante espaço, com gramados e bosques, prédios para os dormitórios separados dos prédios para eventos. Dispunha também de um grande anfiteatro e quadras esportivas. Como em Lima não chove, nunca, grande parte das atividades se desenvolviam ao ar livre. Os grupos de discussão ou oficinas se formavam em círculos.

A ordem era não deixar as mentes desocupadas, e ao mesmo tempo desenvolver técnicas de persuasão e capacidade de olhar crítica e criativamente a realidade.

Boal resolveu fazer Teatro Invisível

Em qualquer lugar, a qualquer hora e circunstância, envolvia as pessoas, fazendo-as reflexionar. Leitura crítica das manchetes do jornal do dia durante o almoço, por exemplo. A partir daí criou diversas formas de ação teatral, sempre com vistas a instigar as pessoas a pensar. Teatro Fórum para trabalhar o conflito e tudo o que ele sistematizou nos textos sobre Teatro do Oprimido.

A experiência peruana foi forte. Boal sempre admitiu isso, mas não seria Boal sem a experiência do Arena, a convivência com a fauna humana do Brasil naquelas duas décadas de explosão cultural. Eu diria que a raiz do Teatro do Oprimido está em Mutirão em Novo Sol e nas práticas do CPC da UNE, mesmo sabendo que o texto não é dele. 

Teatro como libertação

A esquina da rua do Teatro de Arena com a Avenida Ipiranga é o vértice de um triângulo. Havia ali um bar com uma imensa calçada cheia de mesas: O Redondo. 

O Redondo era como uma extensão do Arena. Ali faziam ponto, em diversos horários, mas principalmente à noite e madrugada adentro, jornalistas, poetas, músicos, intelectuais das mais diversas áreas do conhecimento e o pessoal de teatro. Muita gente jovem apaixonada por teatro e literatura, os alunos da Escola de Arte Dramática dirigida então por Décio de Almeida Prado.

Aquilo funcionava também, poder-se-ia dizer, como uma imensa célula do Partidão e outras organizações da esquerda. O debate ideológico permeava o debate político e também o artístico.

Gente que vinha do interior para ver teatro, muitas vezes sem ter onde dormir, dormiam nas dependências do Arena. 

Jofre Correia Neto, camponês, posseiro nas barrancas do Paranazão, liderou uma revolta de camponeses contra os grileiros que invadiram essas terras — terras devolutas — para semear pastos e criar gado. Perseguido pela repressão, Jofre se refugiou no Arena por um tempo. A Revolta do Arranca-Capim inspirou a peça Mutirão em Novo Sol.

O CPC da UNE e o Partidão usavam trechos da obra nos trabalhos de alfabetização e organização sindical de camponeses. Os camponeses normalmente reagiam como se aquilo fosse verdade e queriam agredir o bandido, o ator.

Esse era o mundo em que Augusto Boal se desenvolveu como personagem que iria influenciar as técnicas de teatro no mundo inteiro. Hoje tem grupos trabalhando as técnicas do Teatro do Oprimido em pelo menos 70 países. 

Mutirão em Novo Sol

Sobre o Mutirão no Novo Sol, a história é verdadeira, contada pelo Jofre Correia Neto, e por repórteres de vários meios que foram cobrir o conflito batizado de Arranca Capim. Envolvidos nesses episódios os líderes da União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (Ultab), dirigida por membros do PCB. A Ultab editava um jornal, Terra Livre, que apoiava a luta pela organização dos camponeses e também subsidiava o pessoal do Arena.

Num desses episódios, os camponeses incendiaram um cartório onde Euphly Jalles havia registrado títulos grilados de propriedade. Jalles foi assassinado a tiros por um advogado também grileiro com quem disputava terras. 

Boal estava ali, no centro de tudo o que se discutia em torno desses fatos mas, não me consta que o texto seja dele. Creio que foi o Nelson Xavier que compilou tudo isso. 

Eu tive o privilégio de assistir à peça inteira no 1º Congresso de Trabalhadores Agrícolas realizado em Belo Horizonte em 1961, com a presença do presidente João Goulart, dirigentes dos partidos políticos, deputados, senadores, ministros de estado, líderes como Francisco Julião, organizador das Ligas Camponesas no Nordeste, Nestor Vera, editor do Terra Livre, órgão do PCB dedicado à luta pela sindicalização dos camponês. 

Esse congresso deu origem à Confederação Nacional dos Trabalhadores Agrícolas (Contag) a maior organização de massa do país. Eu estava lá cobrindo como correspondente da Prensa Latina.

Fim da Revolução Peruana

A Revolução Peruana influenciou vários militares de Nossa América, seja por terem frequentado a Escola Superior de formação, seja pela convivência em intercâmbios ou em foros internacionais. Juan José Torres, que protagonizou uma Revolução na Bolívia, o panamenho Omar Torrijos Herrera, que comandou a luta de libertação, e Hugo Chávez Frías, que protagonizou a Revolução Bolivariana na Venezuela.

O Peru funcionava como uma vanguarda de militares que identificavam a dependência e a submissão aos Estados Unidos como a principal causa do subdesenvolvimento e do atraso dos povos de Nossa América. 

A traição de um general (Morales Bermudez) e o trabalho de infiltrados acabaram com a Revolução. O próprio Morales entregou a direção da economia ao FMI, reintroduzindo o liberalismo que logo descambaria para o neoliberalismo e a ditadura do capital financeiro. 

Na sequência, foram dez anos de ditadura da dupla Alberto Fujimori — Vladomiro Montesinos que transformou o Peru em um Narco-Estado, literalmente, e protagonizou um genocídio no combate à guerrilha do Sendero Luminoso, este também com práticas violentas. 

Após Fujimori, o Peru só teve governos regressivos. Com o neoliberalismo desenfreado, não sobrou nada da Revolução de 1968 e menos ainda do Velasquismo. Ou melhor, só na memória de poucos sobreviventes e arquivos pessoais. 

Eu fui expulso do Peru em 1977. Eu e Bia, minha mulher. Os filhos estavam em Cuba. Cercados pela repressão, nos deram cinco dias para abandonar o país. Deu tempo de encaixotar muito pouca coisa que foram salvas por um barco atuneiro panamenho. Chegamos ao Panamá pelas mãos do general Omar Torrijos, com uma mala de viagem cada, e salvo conduto, pois nem passaporte tínhamos. 

Idibal Piveta, advogado de presos políticos, militante desde os tempos de estudante, processou a União e conseguiu passaporte para e para todos os brasileiros que estavam indocumentados no exílio, como já mencionado.

Idibal, ainda como estudante do Largo São Francisco, criou um grupo de Teatro Popular no Centro Acadêmico 11 de Agosto, nos fins da década de 1950. Como Cesar Vieira, criou o Teatro União e Olho Vivo. É o mais longevo dos grupos de teatro popular existentes. No espaço que conquistaram na Barra Funda tem uma praça Augusto Boal. Homenagem ao mestre, inspirador e amigo, nas palavras de Idibal.

Boal e Paulo Freire

Boal tem muita coisa em comum com Paulo Freire e ambos aprenderam muito um com o outro. O que seria a busca de uma estética para Nossa América se fixou na história como Teatro do Oprimido. E a busca por uma alfabetização libertadora e integradora foi sistematizada como Pedagogia do Oprimido. 

No Peru, no entanto, nem estratégia de educação, nem a Alfin tem nada a ver com Paulo Freire, a não ser o fato de tanto Boal como eu mesmo estarmos impregnados de Paulo Freire, parindo Paulo Freire em toda nossa prática de ação cultural.

Salazar Bondy tinha uma visão diferente. Via a educação no contexto do planejamento estratégico, ou seja, a alfabetização em um projeto de educação continuada como parte de uma Estratégia de Desenvolvimento Integrado: desenvolvimento econômico, cultural e social. 

Paulo Freire evoluiu bastante depois que saiu do Brasil e passou por vários países, inclusive na África, mas nada a ver com o Peru. Tudo foi criado lá mesmo pelas duas equipes lideradas por Salazar Bondy. 

Boal só trabalhou nesse projeto (que me consta) e havia classe média mestiça e todos tinham a consciência de que o grande problema era entender o indígena. Infelizmente, a Revolução foi abortada e não tivemos como medir o retorno da teoria e da prática. O que é certo é que os quadros formados se dedicaram, de uma maneira ou outra, a trabalhos junto às comunidades carentes.

A prática se desenrolava com oficinas de cinema, rádio, jornal. Rádio entendido como um microfone e alto-falante na praça, por exemplo. Jornal, reproduzido por mimeógrafo. 

Mesmo o indígena urbanizado, morador nas periferias, além de manejar o espanhol com dificuldade, sua cosmogonia e cosmovisão dificultavam ainda mais entender o mundo dos brancos. Era um esforço desesperado para superar esses imensos obstáculos. 

Trabalhar com imagem ajudava a comunicação. Nas oficinas se aprendia a colher e produzir essas imagens, através do cinema, fotografia, desenho e a usá-las ali mesmo, numa comunidade de selva ou do altiplano, por exemplo. O Teatro Imagem de Boal tem essa origem, com certeza, apesar de ter evoluído para a representação em cena do outro.

No Peru se respirava um clima revolucionário

Quando da Revolução de Outubro de 1968, o Peru estava convulsionado com três focos guerrilheiros em seu território.

Líder da Apra Rebelde, Luis de la Puente Uceda (maoista) assassinado em 1966, fundou o MIR, que com o FIR, de Hugo Blanco, no Valle de la Convención protagonizam a Guerrilha Pachacutec. Morto, Luis de Puente foi sucedido por Guillermo Lobatón, que protagonizou a Guerrilha Tupac Amaru. O Exército de Liberação Nacional – ELN, surge em 1962 de inspiração cubana, dirigido por Héctor Béjar.

Desde 1961 havia grupos rebeldes por toda parte. A repressão era praticamente exercida pelas polícias locais. Em 1962, os Estados Unidos criaram os destacamentos de anti-insurgência e passaram a oferecer assessoria e treinamento para os países de Nossa América. No ano seguinte, o Exército peruano começou a participar dos combates, principalmente a partir de 1965.

Em 1966 começa a guerrilha do Chê na Bolívia. Ele foi assassinado em 67. Muita gente morreu nesses confrontos e os Estados Unidos se aproveitavam para espalhar seus agentes por toda parte, com a intenção de assumir o comando do combate aos insurgentes. 

Em 1968, um golpe de Estado derruba o governo de Belaúnde Terry e tem início uma revolução protagonizada principalmente por coronéis do Exército, sob a liderança dos generais Velasco Alvarado e Mercado Jarin.

Velasco Alvarado falava quíchua, assim como outros generais e coronéis que se deram conta de que estavam travando uma guerra contra seu próprio povo. Numa das primeiras ações, expulsaram a estação que a CIA mantinha no país, onde estava fichada grande parte da população peruana.

O caráter antioligárquico e anti-imperialista, uma estratégia de desenvolvimento (Plano Inca), tiveram o dom de pacificar o Peru. Os projetos no Valle de la Convención passaram a ter apoio do governo através da Sinamos; os comandantes do ELN aderiram ao governo revolucionário e Héctor Béjar foi trabalhar também no Sinamos.

Esse contexto, considero necessário, para mostrar que no Peru se respirava realmente um clima revolucionário, em que independência, soberania, liberdade, propriedade social, eram o pai nosso de cada dia. 

Vale lembrar também que o Peru é o berço da Teologia da Libertação, com a obra do padre dominicano Gustavo Gutiérrez, de 1971, que foi perseguido, calado, demonizado pelo Vaticano. Há dois anos, foi reabilitado pelo papa Francisco, quando tinha 90 anos. O papel da Igreja de Roma permeava as discussões entre a intelectualidade e, claro, dentro da Alfin.  

Um dos grandes conflitos surgidos no coletivo da Alfin foi criado pelos católicos. Numa oficina em que se trabalhava conceitos de alienação, analisando o papel dos meios de comunicação, da educação formal (não inclusiva e branca), tivemos dois casos emblemáticos:

Uma freira levantou-se (todos sentados em círculo na grama) e, visivelmente transtornada de emoção, identificou-se como exemplo da mais completa alienação, visível em seu traje medieval, na proibição do banho desnuda, etc. 

Tenho a impressão de que esse episódio serviu de inspiração para o Teatro Fórum e se assemelha com o caso que o Boal conta num de seus livros de uma indígena agredida pelo marido.

A repercussão disso foi terrível, quase que provoca uma ruptura entre os católicos e os demais membros da equipe. 

Augusto Salazar Bondy, refletindo sobre o episódio, ponderava o quanto é difícil para o ser humano ser livre, aceitar ser livre, desfrutar da liberdade. Prisioneiro não se liberta da opressão do pai e ainda busca um pai invisível, o maior dos repressores. De fato, o que é o deus da Bíblia? Um deus imisericordioso, opressor e genocida…

Uma outra religiosa foi trabalhar como quadro da Alfin em Villa El Salvador. Lá, decidiu que para ser mulher completa tinha que ter um filho. Largou o hábito, arrumou um namorado, indígena, dormiu com ele e teve o filho sozinha, com quem vive até hoje.

Conto esses poucos exemplos para testemunhar o quanto era forte, humano até as entranhas, o trabalho que se desenvolvia na Alfin. Era, sobretudo, libertador. Como não impressionar o filho do padeiro? Boal era filho de um padeiro português.

Paulo Cannabrava Filho é jornalista, escritor e editor chefe da Diálogos do Sul.

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As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.
Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da Agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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