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Reproduição: Twitter X

Crise boliviana expõe limites sociais e políticos do receituário neoliberal de Rodrigo Paz

A convergência entre movimentos transforma a crise boliviana em um confronto político mais amplo sobre soberania, redistribuição e os limites históricos da liberalização econômica no país

C. Ernesto Peñaranda Sánchez
Rebelión
La Paz

Tradução:

Tradução: Ana Corbisier

A escalada de manifestações, bloqueios e choques com as forças de segurança na Bolívia revela uma crise que excede as demandas salariais ou setoriais. O que está em jogo é a governabilidade da administração do presidente de ultradireita Rodrigo Paz Pereira, a viabilidade de seu programa econômico neoliberal e a persistência de fraturas históricas que o país não conseguiu fechar.

A Bolívia chegou ao domingo 17 de maio com La Paz e El Alto ainda sob pressão. Depois da operação de desbloqueio executada sábado 16 por policiais e militares, os bloqueios continuavam nos principais acessos à sede de Governo. A Defensoria do Povo registrou 47 detidos e pelo menos cinco feridos, enquanto diferentes meios de comunicação bolivianos e regionais informavam que no departamento de La Paz persistiam pelo menos 15 pontos de bloqueio durante a manhã de domingo.

A cena sintetiza o momento político: um governo cercado por um protesto multisetorial e um conflito que deixou de ser unicamente reivindicativo para tornar-se uma dis puta aberta pelo rumo do poder.

Uma crise que se acelera na Bolívia 

Bolívia: desabastecimento e violência marcam terceira semana de protestos - Agência Pulsar Brasil
Conhecidos como “Ponchos Rojos”, manifestantes indígenas pedem a demissão do presidente Rodrigo Paz – Reprodução

O ciclo de manifestações não nasceu de um único fato, mas de um acúmulo de tensões. No começo de maio já se registravam greves e marchas da Central Operária Boliviana (COB), do magistério, de transportistas afetados pela crise de combustíveis e de organizações indígenas e campesinas que rejeitavam a Lei 1720 sobre reclassificação de terras.

Nos dias seguintes, o conflito se expandiu territorialmente e também em seu conteúdo político: à exigência de aumento salarial, abastecimento regular de combustível, reparação de danos provocados por carburantes de má qualidade e anulação de normas questionadas, somou-se de maneira crescente a demanda de renúncia presidencial.

Sábado 16, a operação estatal para abrir estradas não conseguiu desarticular a manifestação; pelo contrário, deixou um saldo de detidos, feridos e bloqueios reinstalados poucas horas depois.

Motivação e alcance do protesto social

A atual onda de mobilização se caracteriza por sua composição heterogênea. Participam sindicatos operários, federações campesinas, organizações indígenas, transportistas, professores urbanos e rurais, cooperativistas mineiros e juntas vicinais. Esta diversidade expressa, ao mesmo tempo, fortaleza e complexidade. Não se trata de uma manifestação homogênea, e sim de uma convergência de mal-estares: deterioração da renda real pela inflação, escassez e má qualidade do combustível, temor de reformas agrárias percebidas como favoráveis ao agronegócio, repúdio a privatizações ou encerramento de empresas estatais e desconfiança de um governo que não conseguiu construir interlocução estável com as organizações populares.

A COB aparece como articulador central, mas o peso do conflito também reside na capacidade dos setores campesinos e urbanos de bloquear corredores estratégicos e transformar demandas fragmentadas em uma impugnação geral da gestão.

Crise de representação e de governabilidade

Em termos políticos, a crise exibe três problemas simultâneos. O primeiro é de representação: o Governo de Paz Pereira chegou ao poder como alternativa ao longo ciclo do progressista Movimento ao Socialismo (MAS), mas não logrou consolidar uma base social própria, capaz de sustentar o custo das reformas.

O segundo obstáculo é de governabilidade: uma administração minoritária e com escassa margem de manobra institucional depende de acordos que, até agora, foram parciais, tardios ou insuficientes.

O terceiro é de leitura do conflito: o Executivo parece ter interpretado o protesto como um conjunto de pressões setoriais negociáveis em separado, quando na realidade transformou-se em uma contestação mais ampla do estilo de governo, da orientação econômica e do lugar atribuído às organizações sociais no sistema político boliviano.

Crise na Bolívia explode: protestos contra Rodrigo Paz cercam La Paz

A radicalização da consigna “renuncia” mostra que o conflito já não se limita a obter concessões pontuais. Quando uma parte significativa da mobilização conclui que não existe interlocução confiável, o protesto se desloca da negociação para a disputa por legitimidade. E aí aparece um dos maiores riscos para o Governo: que cada tentativa de controle da ordem pública, se não vier acompanhado de uma saída política crível, reforce a percepção de isolamento presidencial e aprofunde o desgaste da autoridade.

Neste quadro, o uso de forças combinadas de Polícia e militares em tarefas de desbloqueio pode oferecer alívios táticos, mas dificilmente resolve o problema estratégico.

Ajuste, escassez e distribuição do custo da crise

O protesto se alimenta de uma percepção estendida: a crise está sendo paga pelos setores populares e médios, enquanto os benefícios potenciais da liberalização econômica concentram-se em atores com maior capacidade de acumulação.

A Bolívia enfrenta há anos uma pressão estrutural devido à queda do ciclo do gás, à escassez de divisas e à dependência de importações energéticas. Nessa base, o Governo de Paz impulsionou medidas de corte neoliberal destinadas a reduzir subsídios, reordenar contas e abrir espaços para o capital privado.

O problema não é só o conteúdo destas decisões, mas seu impacto imediato sobre uma sociedade com baixa tolerância material a novos aumentos de custos. Quando sobem as tarifas de energia, de derivados de petróleo como a gasolina, alimentos ou transporte, a deterioração se torna visível na vida cotidiana e se transforma rapidamente em combustível político.

O núcleo do desacordo remete ao tipo de inserção econômica que a Bolívia pode sustentar. Uma abertura acelerada, apoiada em exportações primárias e na redução do papel do Estado, tropeça em limites históricos: escassa industrialização, alta informalidade, forte dependência de recursos naturais e um tecido social que espera do Estado não só regulamentação, como também proteção, redistribuição e reconhecimento.

Nesse sentido, a discussão não gira unicamente em torno da eficiência macroeconômica, mas da distribuição do sacrifício e da pergunta de quem ganha e quem perde no novo ciclo.

Persistência de um conflito não resolvido

Para compreender a intensidade do presente convém olhar a longo prazo. A Bolívia arrasta uma história de desigualdade regional, hierarquias étnico-raciais, concentração da terra e disputas recorrentes pelo controle dos recursos estratégicos. Os grandes ciclos de protesto do início do século — associados à defesa da água, do gás e da soberania econômica — consolidaram a ideia de que a mobilização popular não é um ator periférico, mas um componente constitutivo do poder político.

A experiência dos governos do MAS, com todas as suas contradições, alterou o horizonte de expectativas de amplos setores indígenas e populares: não só demandar direitos, mas disputar a condução estatal.

A crise de 2019 deixou feridas abertas na memória política boliviana. Desde então, a disputa pela legitimidade do Estado, o lugar das maiorias populares e o sentido da democracia continuam atravessando o debate público.

Por isso, o mal-estar atual não pode ser lido só como reação econômica. Também expressa o retorno de uma pergunta histórica: se a Bolívia deve ser governada com uma lógica elitista e tecnocrática ou com uma articulação mais plebeia e plurinacional do poder. Nesse ponto, o conflito atual reativa uma fratura de fundo entre dois imaginários de país.

Recursos, alinhamentos e disputa de modelos

A crise boliviana também tem uma dimensão geopolítica. A guinada da nova administração para uma agenda mais próxima dos Estados Unidos e de organismos financeiros internacionais foi interpretada por setores sociais e políticos como um sinal de reorientação externa do país.

Em um contexto regional fragmentado, a Bolívia volta a ser observada por sua localização estratégica, seus recursos naturais e seu papel nos equilíbrios sul-americanos. Toda reestruturação do modelo econômico — sobretudo se envolve privatização de ativos, flexibilização regulatória ou redefinição da política energética — conecta-se com interesses externos e com o debate sobre soberania.

O ponto central é que a Bolívia não só discute como sair da crise, mas sob que tutela, com que alianças e com que grau de autonomia. A memória política do país faz com que qualquer percepção de ingerência externa ou de subordinação a agendas financeiras internacionais funcione como um acelerador dos protestos.

Ao mesmo tempo, uma desestabilização prolongada teria impactos além de suas fronteiras: sobre corredores comerciais, abastecimento energético regional e a correlação política na América do Sul.

Cenários possíveis

No curto prazo pode-se vislumbrar três cenários. O primeiro é uma desescalada negociada, possível só se o Governo de ultradireita abandonar a fragmentação do diálogo, oferecer garantias políticas e fizer gestos concretos quanto às principais demandas.

O segundo é um empate instável: continuam os bloqueios, cresce o desgaste econômico e nenhum dos atores consegue impor-se, com a conseguinte deterioração da autoridade estatal. E o terceiro é um aprofundamento da crise, em que novas mortes, mais repressão ou a ampliação da frente mobilizada transformem o atual conflito em uma crise de governabilidade de maior alcance.

Em qualquer destes casos, o desenlace dependerá menos da capacidade coercitiva do Estado do que de sua aptidão para reconstruir legitimidade.

A explosão social atual não deve ser lida como um episódio isolado nem como uma simples soma de conflitos gremiais. É a manifestação condensada de uma crise econômica profunda, de uma fratura política não resolvida e de uma disputa histórica pelo sentido do Estado na Bolívia.

A administração de selo neoliberal de Rodrigo Paz enfrenta assim uma prova decisiva: demonstrar se ainda pode reconduzir o conflito pela via política ou se, pelo contrário, este ciclo de mobilização terminará marcando o limite de seu projeto de governo.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

C. Ernesto Peñaranda Sánchez

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