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ToggleO fim dos bloqueios protagonizados por organizações indígenas, campesinas, sindicais e populares durante mais de 50 dias não significaram o fim do conflito político na Bolívia. Pelo
contrário, o levantamento das medidas de força abriu uma nova etapa marcada pela declaração do estado de exceção, a militarização do conflito e uma crescente perseguição judicial contra Evo Morales e dirigentes do movimento indígena-popular.
Neste cenário, uma delegação boliviana chegou nesta semana à Argentina para denunciar violações dos direitos humanos e solicitar o acompanhamento de organismos internacionais. Em 28 de julho, a Marcha pela Vida para Salvar a Bolívia na Argentina e a Comunidade Boliviana do Estado Plurinacional da Bolívia na Argentina realizaram uma conferência de imprensa e uma mobilização diante do Obelisco, na Cidade de Buenos Aires com este objetivo.
Entre dezembro de 2025 e maio de 2026, a Defensoria do Povo da Bolívia registrou 7 mortos, 23 feridos, 321 detidos. Fontes sociais elevam a cifra a 8 mortos e mais de 50 feridos, de acordo com o informe apresentado pela delegação boliviana, destinado a solicitar a organismos de Direitos Humanos argentinos a recepção testemunhal e documental da situação repressiva que vive o povo boliviano.
Na carta, a delegação denuncia 127 detenções sem ordem judicial em uma operação policial em 16 de maio, incluindo apreensões em domicílios, sem notificação a familiares, “com denúncias de maus tratos e condições degradantes”. Precisa também que “a Defensoria do Povo registrou casos de tortura e tratamento cruel”.
Por sua vez, documentam a criminalização e a estigmatização dos protestos por parte do governo que qualificou de delinquentes, vândalos e destruidores os que participaram dos bloqueios, impulsionando perseguição judicial contra dirigentes sindicais, campesinos e indígenas, com ordens de apreensão e montagens judiciais.
Entre as denúncias advertem também sobre a atuação, em San Julián, da União Juvenil de Santa Cruz (UJC), identificada pela CIDH como grupo paramilitar, que funcionou com apoio da polícia e de militares, provocando uma morte e muitos feridos e a detecção de agentes vestidos de civil armados em veículos oficiais. “Assim também em El Alto, La Paz, foram detectados numerosos encapuzados que agem de maneira coordenada com as forças repressivas”, registra o informe.
Antes da declaração formal do Estado de Exceção o informe relata que se realizaram operações militares conjuntas, em franca violação da Convenção Americana sobre Direitos Humanos (CADH). Posteriormente, em 8 de junho, foi promulgada a Lei 1740 e em 20 de junho foi declarado formalmente o estado de exceção por 90 dias, com deslocamento das Forças Armadas para reprimir bloqueios.
Desde meados de maio, foram registrados pelo menos 10 cortes de luz, comunicações e internet em municípios como Villa Tunari, Shinahota, Chimoré, afetando a população hospitalizada e causando perdas materiais, como medida de amedrontamento por parte do Governo Nacional dirigida às comunidades do Trópico de Cochabamba; e em 3 de junho, o presidente Paz publicou um vídeo, que depois apagou, incitando a população a mobilizar-se junto às Forças Armadas para desbloquear o país, “o que constitui una incitação direta ao confronto civil por meio de grupos parapoliciais e civis”, descreve a denúncia da delegação.
Mary Luz Ventura Cala, Executiva Nacional da Organização Interculturais, Bolívia; Jesusa Yampara, Vice Presidenta da Coordenação das 6 Federações do Trópico de Cochabamba; Zenaida Rocha Paco, Secretária da Fazenda da Coordenação das 6 Federações do Trópico de Cochabamba; Seferina Ortega, Executiva do Departamento de Santa Cruz da Organização Intercultural; María Oporto, da Defensoria do Povo de La Paz, Sucre e América Macedo, do Feminismo Comunitário de La Paz são as representantes da delegação portadora do documento com as denúncias, acompanhado de uma Carta assinada por deputados e deputadas bolivianas em que solicitam a deputados e deputadas argentinas a presença em território boliviano para constatar in situ as observações sobre a “ajuda humanitária” que o país austral enviou à Bolívia.
Inclui ainda uma denúncia internacional subscrita pelo líder popular e ex-presidente, Evo Morales e organizações sindicais além de um apelo da Liga Boliviana de Direitos Humanos, entre outros documentos de apoio.
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A declaração do estado de exceção modificou a natureza do conflito. Se durante as semanas de mobilização o cenário esteve dominado por bloqueios e manifestações sociais, posteriormente o deslocamento conjunto das Forças Armadas e da Polícia transferiu a disputa para o terreno da repressão, da militarização e da judicialização.
As organizações denunciam que esta nova etapa não constitui uma resposta isolada aos protestos, sendo um instrumento para garantir a implementação de uma agenda de reformas estruturais.
O confronto aberto na Bolívia excede a conjuntura dos bloqueios e expressa uma disputa estratégica pelo modelo de Estado. Por um lado, uma agenda governamental orientada para a liberalização econômica, a redução do papel estatal e uma nova abertura para capitais privados em setores estratégicos; por outro, a defesa do Estado Plurinacional construído durante as últimas duas décadas como projeto baseado em soberania sobre os recursos naturais, redistribuição e inclusão política dos povos indígenas e setores populares.
O governo de Rodrigo Paz avançou nas últimas semanas com um pacote de medidas econômicas e institucionais que inclui decretos sobre combustíveis, taxas, sistema tarifário elétrico, investimentos, mineração e empresas públicas. Anunciou ainda o envio de dez projetos de lei à Assembleia Legislativa Plurinacional orientados a modificar áreas estratégicas do Estado. Para as organizações mobilizadas, estas reformas representam uma tentativa de restauração de um modelo neoliberal prévio ao ciclo político inaugurado com o Estado Plurinacional.
Neste novo cenário se inscreve o aprofundamento da perseguição judicial contra Evo Morales. Em 30 de julho, o promotor geral Roger Mariaca confirmou que continuam vigentes duas ordens de apreensão contra o ex-presidente. Uma corresponde a uma investigação iniciada no departamento de Tarija e outra o vincula a supostos delitos relacionados aos bloqueios e mobilizações desenvolvidos este ano. Morales rejeitou as acusações e denunciou uma perseguição política destinada a impedir a reorganização do movimento indígena-popular.
A denúncia da missão boliviana também se manifesta sobre o novo arcabouço jurídico construído nesta etapa. Questionam a aprovação da Lei 1740 considerando que institucionaliza um esquema repressivo iniciado com o estado de exceção. Segundo afirmam, a norma amplia as atribuições das Forças Armadas e da Polícia para intervir em conflitos internos, habilita operações conjuntas, fortalece a presunção de legalidade sobre suas ações e reduz mecanismos de controle institucional. Desta perspectiva, a legislação consolida um processo de militarização destinado a garantir o novo rumo político e econômico.

A ofensiva judicial alcança assim não somente Evo Morales, mas também dirigentes sociais vinculados às manifestações.
Para as organizações denunciantes, a criminalização busca debilitar a capacidade de mobilização do bloco indígena-popular e desarticular as estruturas territoriais que durante décadas garantiram a defesa do Estado Plurinacional, a soberania sobre os recursos naturais e a participação política dos setores populares.
Neste contexto as organizações afirmam que o conflito não pode reduzir-se a uma disputa pelo abastecimento de combustíveis ou a circulação pelas estradas. As mobilizações expressaram um amplo levantamento de organizações indígenas, campesinas, operárias e populares diante do rumo econômico e político impulsionado pelo governo de Rodrigo Paz.
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Os protestos evidenciaram a persistência de um bloco indígena-popular com capacidade de organização territorial e mobilização, apesar da crise política atravessada pelo Movimento ao Socialismo (MAS).
A campanha impulsionada na Argentina busca transformar estas denúncias em uma agenda regional de direitos humanos. A delegação solicita a formação de uma missão internacional de observação, investigações independentes sobre os casos de violência registrados durante o conflito e mecanismos de proteção para dirigentes sociais.
Também afirma que distintas ações do Estado boliviano vulneram padrões estabelecidos pelo Sistema Interamericano de Direitos Humanos e diversos instrumentos das Nações Unidas.
Enquanto se aprofunda a escalada repressiva, o governo de Rodrigo Paz continua construindo uma nova arquitetura de apoios internos e internacionais. Paralelamente ao avanço de suas reformas econômicas, recebeu apoio político de governos conservadores da região e avançou em acordos financeiros com organismos internacionais como o Fundo Monetário Internacional, o Banco Interamericano de Desenvolvimento e a CAF–Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe. Para as organizações sociais, este acompanhamento contrasta com a redução dos espaços de participação e o incremento da perseguição contra setores de oposição.
A chegada da delegação boliviana à Argentina expõe uma nova fase do conflito político. O estado de exceção transformou uma disputa social e econômica em um confronto pelo futuro do Estado boliviano. Para as organizações indígenas, campesinas e populares, a militarização, a perseguição judicial e a transformação institucional impulsionada pelo governo de Rodrigo Paz fazem parte de uma mesma estratégia destinada a avançar sobre as bases políticas, econômicas e sociais construídas durante o ciclo do Estado Plurinacional.
A internacionalização das denúncias representa, neste contexto, uma tentativa de colocar a situação boliviana sob observação dos organismos regionais e internacionais de direitos humanos e abrir um novo cenário de disputa política diante da reconfiguração do modelo de país.





