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ToggleO dado mais comentado do novo Mapa da Violência é a redução dos homicídios. À primeira vista, a notícia parece animadora: em 2025, foram registrados 40.775 assassinatos no país, uma taxa de 19,1 mortes para cada 100 mil habitantes, redução de 8,2% em relação ao ano anterior. Mas essa leitura é enganosa.
Os próprios estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que a diminuição da violência letal pode ser menos resultado da eficácia das políticas públicas do que da consolidação do domínio territorial exercido pelas organizações criminosas. Em outras palavras, a melhora dos indicadores pode estar revelando, paradoxalmente, o fortalecimento do crime organizado.
O Brasil vive uma guerra não declarada. Não se trata de um conflito convencional, mas de uma disputa permanente pelo controle do território, das economias ilegais e da autoridade sobre milhões de cidadãos. O número de mortos continua compatível com o de muitos conflitos armados ao redor do mundo. A violência apenas mudou de configuração.
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Quando uma única facção impõe seu controle sobre determinado território, desaparecem as disputas entre grupos rivais e, consequentemente, diminuem os assassinatos decorrentes desses confrontos. A paz aparente não é a paz do Estado de Direito. É a paz imposta pelo vencedor. Os índices melhoram porque o monopólio da violência deixa de ser disputado entre criminosos, não porque tenha voltado às mãos do Estado.
Esse é um dado que exige cautela na interpretação das estatísticas. Reduções quantitativas podem esconder transformações qualitativas muito mais graves: a substituição gradual da autoridade pública pelo poder paralelo. A queda dos homicídios, isoladamente, não significa que o país esteja mais seguro. Pode significar exatamente o contrário.
O levantamento do Fórum revela, ainda, que quatro em cada dez brasileiros com 16 anos ou mais reconhecem a presença, no bairro onde vivem, de grupos ligados ao tráfico de drogas ou às milícias. São cerca de 68,7 milhões de pessoas convivendo diariamente com organizações criminosas que exercem poder sobre a vida cotidiana. Isso significa que parcelas crescentes do território nacional deixaram de ser plenamente governadas pelo Estado.
Embora a maioria dos estados tenha registrado queda nos homicídios, sete apresentaram aumento: Rio Grande do Norte, Rondônia, Acre, Roraima, Distrito Federal, Mato Grosso do Sul e Rio de Janeiro. A violência continua distribuída de forma desigual, mas permanece como um problema nacional.
Outro dado alarmante é a letalidade policial. Em 2025, 6.263 pessoas morreram em ações policiais, alta de 5,4% em relação ao ano anterior. Em outras palavras, aproximadamente um em cada seis homicídios registrados no país teve como autor um agente do próprio Estado. Ao mesmo tempo em que perde territórios para o crime organizado, o Estado amplia o uso da força letal. A população acaba espremida entre dois poderes armados: o das organizações criminosas e o da repressão estatal.

Também bateu recorde o número de feminicídios: 1.571 mulheres assassinadas simplesmente por serem mulheres.
É mais uma demonstração de que a violência brasileira não se limita ao confronto entre facções ou às ações policiais.
Ela atravessa as relações familiares, sociais e culturais, revelando uma profunda crise da convivência nacional.
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Diante desse quadro, é um erro tratar a segurança pública apenas como um problema das polícias ou dos governos estaduais.
O avanço do crime organizado deixou de ser uma questão localizada. Tornou-se um desafio à soberania nacional.
Organizações criminosas controlam territórios, movimentam bilhões de reais, infiltram-se nas instituições, impõem normas próprias e desafiam, na prática, o monopólio da força que deveria pertencer exclusivamente ao Estado.
O Brasil precisa construir uma verdadeira Estratégia Nacional de Segurança, articulando União, estados e municípios em torno da inteligência, do combate às estruturas financeiras do crime, do fortalecimento das instituições de Justiça e da recuperação dos territórios dominados pelas facções. Mas essa estratégia, por si só, não bastará.
Ela deverá estar harmonizada com um Projeto Nacional de Desenvolvimento Integral e Sustentado. Não haverá segurança duradoura sem crescimento econômico, redução das desigualdades, geração de empregos, educação de qualidade, urbanização das periferias e fortalecimento das instituições públicas. Segurança e desenvolvimento são partes inseparáveis de uma mesma política de Estado.
Enquanto o país continuar tratando a violência apenas como um problema policial, continuará combatendo os efeitos e ignorando as causas. O verdadeiro desafio brasileiro não é apenas reduzir as estatísticas de homicídios. É reconstruir a presença do Estado, recuperar a autoridade da República sobre todo o território nacional e oferecer à sociedade um Projeto Nacional de Desenvolvimento Integral e Sustentado, capaz de retirar do crime organizado o espaço que hoje ocupa. Somente assim deixaremos de celebrar indicadores aparentemente melhores enquanto a realidade continua se deteriorando.





