
Os números impressionam e, justamente por isso, não podem ser ignorados. Não se trata de estimativas produzidas por centros acadêmicos ou organizações privadas, mas de informações do Centro de Inteligência do Exército (CIE), confirmadas por seu chefe, o general Carlos Eduardo Barbosa da Costa.
Em palestra recente, o oficial revelou que os sistemas digitais brasileiros sofreram 754 bilhões de tentativas de invasão, evidenciando a intensidade da ofensiva cibernética permanente contra estruturas estratégicas do país. Segundo o general, muitas dessas ações são favorecidas pela fragilidade das instituições nacionais e contam com o apoio de atores estatais que financiam esse tipo de atividade.
Mas a principal preocupação apresentada pelo comandante do CIE foi o avanço do crime organizado. Há décadas, o Brasil consolidou-se como o maior corredor da cocaína produzida na Bolívia, no Peru e na Colômbia, além de servir de rota para mais de 80% da maconha produzida no Paraguai.
Pelos cálculos do Centro de Inteligência do Exército, o mercado interno brasileiro consome cerca de oito mil toneladas anuais de maconha e skunk e entre 170 e 200 toneladas de cocaína, movimentando aproximadamente R$ 30 bilhões por ano. Ao mesmo tempo, estima-se que pelo menos 250 toneladas de cocaína deixem o território nacional em direção à Europa, aos Estados Unidos e à África, gerando receitas de dezenas de bilhões de reais para as organizações criminosas.
Em reportagem de Marcelo Godoy publicada pelo Estado de S. Paulo, com base nas informações do Centro de Inteligência do Exército, estima-se que a cocaína que transita pelo Brasil represente um negócio da ordem de R$ 50 bilhões anuais, controlado principalmente pelas duas maiores facções criminosas do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). São valores equivalentes ao faturamento de grandes conglomerados empresariais, o que demonstra a extraordinária capacidade financeira dessas organizações.
O narcotráfico, porém, é apenas uma parte de um complexo sistema de atividades ilícitas. As facções expandiram seus negócios para o garimpo ilegal, a pesca predatória, a exploração clandestina de recursos naturais, a extorsão, a lavagem de dinheiro e sofisticadas operações financeiras. Ao mesmo tempo, procuram infiltrar-se em órgãos públicos e em estruturas do Estado, ampliando sua influência econômica, política e territorial.
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Foi exatamente por isso que o general Carlos Eduardo Barbosa da Costa fez um alerta que merece ser levado a sério. Em suas palavras, trata-se de “um negócio que ameaça, de certa forma, a soberania do país e, portanto, ameaça uma parte da defesa”. Quando organizações criminosas movimentam dezenas de bilhões de reais por ano, controlam rotas internacionais, disputam territórios com o Estado e desafiam as instituições públicas, deixam de representar apenas um problema policial para se transformar em uma questão estratégica de defesa nacional.

Essa preocupação ganha ainda mais relevância diante das investigações conduzidas pelo Ministério Público de São Paulo sobre a possível relação entre integrantes do PCC e oficiais da cúpula da Polícia Militar paulista.
Entre os citados estão os coronéis Luiz Carlos Pereira Martins e José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da PM e ex-comandante da Rota.
Coutinho era homem de confiança do então secretário da Segurança Pública, hoje deputado federal Guilherme Derrite, durante o governo do capitão Tarcísio de Freitas.
Segundo as investigações, ele não teria adotado providências mesmo após receber gravações indicando que policiais da Rota estariam vendendo informações ao PCC.
O atual comandante-geral da Polícia Militar participou da operação do Ministério Público, demonstrando a gravidade das suspeitas e a necessidade de uma apuração rigorosa.
A pergunta do título, portanto, não é mero recurso retórico. Ela nasce dos próprios fatos. Quando o crime organizado movimenta dezenas de bilhões de reais por ano, infiltra-se em instituições públicas, controla corredores internacionais do narcotráfico, atua no garimpo ilegal, na pesca predatória, na extorsão, na lavagem de dinheiro e ainda desafia o Estado no campo cibernético, o problema ultrapassa em muito a esfera da segurança pública.
O enfrentamento dessa realidade exige mais do que operações policiais. O Brasil precisa de um projeto nacional de desenvolvimento que fortaleça as instituições, recupere o controle efetivo das fronteiras, integre inteligência, Forças Armadas, polícias e Ministério Público e reafirme a soberania nacional. Um Estado enfraquecido abre espaço para o crime organizado; um Estado forte, democrático e comprometido com o interesse público é a primeira condição para derrotá-lo.





