Brasil : Do golpe brando à eleição “democrática” do fascismo

É às esquerdas que a etapa seguinte exigirá uma incisiva e honesta autocrítica objetiva, e uma enérgica renovação moral e estratégica

Nils Castro

Não faz falta repetir que Jair Messias Bolsonaro é apologista da ditadura, ultra neoliberal e fascista, nem que, após sua prematura saída do exército como capitão, por 25 anos foi apenas um deputado medíocre. Isso já era sabido, e a questão de fundo já é outra: por que no primeiro turno os eleitores brasileiros lhe deram quase 50 milhões de votos e o tiveram a menos de 4 décimos de ser eleito. E até possibilitaram que levasse com ele vários agregados igualmente obscuros, tornando-os senadores, governadores e prefeitos. 

Fernando Haddad, a opção democrática e progressista ficou atrás em uma pesada proporção de 36 a 29.  Embora em vinte dias seja realizado o segundo turno, para poder mudar o sentido das coisas é preciso começar por compreendê-las.  É necessário entender o que fizeram Bolsonaro e seu grupo para arrasar assim no primeiro turno, e que lastros minaram o caminho de seu principal concorrente.

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Foto: Vanessa Ataliba

A primeira derrota foi sofrida pela direita liberal, que por décadas homogeneizou a representação eleitoral de toda a direita. Extrema direita sempre houve, a apoiar as candidaturas que nos últimos períodos eram decididas no Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Mas por fim, o descrédito acumulado pela ineficácia e a corrupção da democracia representativa das oligarquias – agrária e financeira – afundou o barco. Depois de três derrotas para o PT e o fiasco de Michel Temer, o PSDB deixou de assegurar a essas oligarquias a conservação de seus privilégios. 

Ante um povo castigado pela crise e decepcionado pelo sistema político, faltava o ator oportuno para assumir o papel de “macho” antissistema, anti- corruptos, anti-políticos e anti-PT, e de duro e expedito repressor dos delinquentes. O exibicionismo verbal de Bolsonaro, carregado dos valores em branco e preto dos chefes urbanos e dos capatazes rurais - racismo, homofobia, xenofobia e repúdio às minorias -, foi oportuno em meio ao desalento ideológico e a incerteza cultivados pelos meios de comunicação hegemônicos. 

O sentimento anti-PT foi produto de uma operação de laboratório que começou nos protestos contra a inauguração de estádios nas vésperas do Mundial de Futebol, adjudicando ao PT a velha corrupção dos governos oligárquicos, e todo o processo de defenestração de Dilma Rousseff, instrumentados para destruir a alternativa progressista na cultura política popular. Em meio a essa estratégia, como aponta Breno Altman, o bloco de centro-direita imaginava ter sob controle a ultra direita, mas foi excedido por ela. Acreditando poder controlar Bolsonaro, mas não o PT, radicalizaram o confronto contra o petismo e agora não sabem o que fazer com o monstro que criaram. 

Considerando as circunstâncias, apesar da notória desvantagem de seus resultados no primeiro turno, o que foi conseguido pelo PT é uma proeza. Consistentemente combatido pela grande imprensa e pelo sistema judicial, e fustigado pelas autoridades eleitorais, enfrentou o cúmulo de ter seu líder e candidato detido e condenado sem provas objetivas, e privado do direito a se candidatar. Em 11 de setembro, depois de uma longa batalha legal, quando Lula assinou a carta em que desistiu de se candidatar e propôs a Haddad, já passava de 47 por cento das preferências. Mas a autoridade eleitoral ainda proibiu difundir que Lula apoia Haddad e associar suas imagens. Uma campanha curtíssima começou com dificuldades para informar essa decisão a milhões de cidadãos. 

Além do mais, o absurdo esfaqueamento de Bolsonaro facilitou a ele elidir o risco dos debates pela televisão junto aos demais candidatos. Sua ausência foi preenchida pelas notícias de suas aflições e  de seu restabelecimento. Assim, enquanto no último desses debates os demais candidatos enfrentavam seus projetos, o presumido convalescente explanava uma longa e amigável entrevista pelo maior canal da televisão evangélica. 

Depois que reiteradas pesquisas assinalavam a rápida ascensão de Haddad e reiteravam que este superaria Bolsonaro no segundo turno, na última hora houve um surpreendente e abrupto crescimento do ex-capitão.  Mas, como assinala Jefferson Miola, isto não refletiu uma mudança da opinião pública. O certo é que as direitas, diante do reiterado prognóstico de que seriam derrotadas, concentraram sua votação em Bolsonaro, procurando eliminar Haddad no primeiro turno. Esse crescimento final do candidato fascista coincidiu com um igual esvaziamento da votação dos demais aspirantes de direita; o total da votação anti-petista não cresceu, mas se concentrou. O fato é que o intento de eleger Bolsonaro no primeiro turno fracassou. 

Agora, a menos de três semanas do segundo turno, qual é a situação do país.  A de uma iminente confrontação decisória entre o núcleo da direita fascista, à cabeça de todas as direitas, contra a pluralidade dos setores democráticos e progressistas do Brasil, representados pelo candidato do PT. Confrontação que não se realiza em circunstâncias de normalidade institucional nem legal, mas em condições em que os juízes e os informadores mais potentes estão abertamente alinhados com a parte mais reacionária da política brasileira. Nessas circunstâncias, Lula, Haddad e a liderança do PT apelam à formação de uma ampla frente multicolorida do Brasil democrático para deter nas ruas e nas urnas a investida ultra reacionária. 

Os próximos dias dirão quanto disso poderá ser concretado nessa conjuntura. Há dois elementos alentadores. Um é que também uma porção do Brasil conservador se sente presa e ameaçada pelos excessos de Bolsonaro e seu grupo, e admitem a possibilidade de se somar à frente democrática. No momento, Bolsonaro, por sua vez, adverte que ele não tem nenhuma intenção de negociar nada com aqueles que agora acudam a apoiá-lo; aqueles que pensem fazê-lo não terão outra opção senão acatar o que ele determine. 

O outro elemento, nos dias que precedem o segundo turno, o capitão retirado Jair Bolsonaro teria que comparecer a até seis debates televisivos cara a cara, com o acadêmico Fernando Haddad, mestre em economia e doutor em filosofia, ex-ministro da educação e dirigente com reconhecida experiência em gestão administrativa.  É difícil prever quanto isso modificará opiniões nos diferentes âmbitos sociais, mas a prova será muito mais perigosa para o primeiro do que para o segundo. 

Com certeza, a etapa que seguirá a estas eleições será muito mais arriscada que qualquer período anterior, e terá muito componentes instrutivos para o próximo futuro latino-americano. Mas, inclusive no caso de que a nação brasileira consiga vencer nessa conjuntura as forças sócio-políticas que – por bem ou por mal – ficaram aglutinadas sob Bolsonaro, essa história não termina aqui, nem muito menos. 

Não é a direita, mas sim o progressismo e as correntes de esquerda, quem mais deverá revisar e corrigir seus anteriores comportamentos, ou seja, os desacertos e erros que os levaram a sua atual situação e as que virão. Se as acusações de corrupção fizeram dano, isso se deveu mais ao fato de ter ou não ter bases, do que ao poder dos meios de comunicação. Se as direitas e seus mentores imperiais tiveram êxito, isso se deve a essas deficiências e erros, que reiterando-se por vários anos, corroeram a confiança cidadã, tornaram mais vulnerável o progressismo e mais ineficazes as esquerdas. Adormecidas por um otimismo tolo, falharam em suas responsabilidades de desenvolver a cultura política popular, assim como prever e cortar a ofensiva reacionária com suficiente antecipação. 

O segundo turno será mais renhido do que os sabidos de ofício agora prenunciam. Não obstante, sejam quais sejam os próximos resultados eleitorais, é às esquerdas que a etapa seguinte exigirá uma incisiva e honesta autocrítica objetiva, e uma enérgica renovação moral e estratégica. 

*Colaborador de Diálogos do Sul, da Cidade do Panamá

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