“Brasil instaurou um regime militar pelo voto popular”, afirma Igor Fuser

Segundo professor da UFABC, eleição de Jair Bolsonaro é peça em esquema de poder dos EUA no Brasil

Guilherme Henrique

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“A eleição de Jair Bolsonaro é a 2ª parte do golpe que começou com a destituição de Dilma Rousseff”. A avaliação é de Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), que considera a ascensão do capitão reformado como elemento fundamental dos interesses dos EUA na política brasileira. “O Bolsonaro oferece uma fachada de eleição, constitucionalidade, sem que haja ruptura institucional. Ele vai aplicar os métodos dos EUA que se façam necessários, inclusive violentos”, complementa.

A avaliação de conjuntura e o envolvimento dos EUA em governos ao redor do globo estão inseridos na obra “Guerras Híbridas – Das Revoluções Coloridas Aos Golpes”, do jornalista russo Andrew Korybko, sorteado na Rádio Brasil de Fato em mais uma parceria com a editora Expressão Popular. O livro mostra quais são as táticas utilizadas pelo país norte-americano no século 21, para derrubar governos que não se adéquem as suas necessidades. “Já não há mais interesse em invadir países, como no Iraque, há 15 anos. Eles estão evitando esse tipo de ação, porque o custo é muito alto. A guerra híbrida é mais eficaz porque dá um verniz de legitimidade e está amparada no discurso que eles utilizam de defesa da democracia”, explica Igor Fuser.

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Professor acredita que vitória de Bolsonaro dá caráter de legitimidade ao golpe iniciado com a queda de Dilma Rousseff / Reprodução/Youtube

Confira os principais trechos da entrevista:

Brasil de Fato: O que são essas Guerras Híbridas?

Igor Fuser: É um conceito bastante amplo que se refere ao conjunto de táticas e estratégias utilizadas pelos EUA para promover o que eles chamam de mudança de regime. Para afastar do poder, destituir governos que não se mostram adequados aos interesses deles em qualquer parte do mundo. Já não há mais interesse em invadir países, como no Iraque, há 15 anos. Eles estão evitando esse tipo de ação, porque o custo é muito alto. A guerra híbrida é mais eficaz porque dá um verniz de legitimidade e está amparada no discurso que eles utilizam de defesa da democracia.

A derrubada dos governos ocorre com a utilização de um repertório político típico da esquerda: manifestações populares, greves, ocupações de prédios públicos. São chamadas “revoluções coloridas”. As pessoas se mobilizam com a melhor das intenções, mas não se dão conta que estão sendo manipuladas por agentes dos EUA. Quando esse tipo de ação não dá certo, há um avanço para as “guerras de baixa intensidade”.

Quais são os exemplos de guerras de baixa intensidade?

A Venezuela é um exemplo claro. A estratégia da revolução colorida foi tentada na Venezuela, com algo de golpismo. Uma das características dessas guerras híbridas é a utilização de métodos flexíveis. Não é como antigamente na América Latina, quando havia a mobilização das Forças Armadas na tomada do palácio do governo, prendendo os antigos governantes, bombardeando o palácio, como ocorreu no Chile, ou colocando o governante pra correr, como foi o caso de João Goulart, no Brasil.

A estratégia é flexível e se adapta às circunstâncias, combinando os mais diferentes métodos: mobilização de rua, sabotagem econômica, mobilização do judiciário. O papel da mídia também é central. Os focos da guerra híbrida são as consciências e a opinião pública. A vontade de setores da população e a formação de matrizes de pensamento que criem um caldo de cultura preliminar para que haja uma mobilização de massa contra o governo alvo.

O Brasil vive esse processo, e as eleições fazem parte da guerra híbrida. Magistrados da Operação Lava-Jato têm ligação evidente com os EUA, personalidades estadunidenses atuam na campanha do Jair Bolsonaro, a manipulação das redes sociais, do Whatsapp. A partir dessas matrizes de opinião se faz a desconstrução ideológica do governo vigente e ocorre a construção de um movimento que vai protagonizar a sua derrubada.

Ao longo do livro, o autor Andrew Korybko fala sobre como os atores dessa guerra híbrida já não são os agentes secretos dos EUA, mais protagonistas desvinculados do Estado que comportam-se publicamente como civis. Como as democracias podem se proteger desse processo?

Essas guerras são praticadas contra qualquer governo que seja considerado um obstáculo para os objetivos dos EUA. Não precisa ser necessariamente uma democracia. Os métodos se adaptam às condições de cada país. Quando não é uma democracia, eles vão utilizar essa bandeira, de luta pela democracia. Quando são regimes democráticos, esses governantes são acusados de ditadores, corruptos, ineptos e incapazes de resolver os problemas da população.

No Brasil, está evidente a presença de agentes dos EUA trabalhando nesse mundo nebuloso das fake news, dos pacotes de mensagens de Whatsapp. Isso tem a marca da campanha do Donald Trump, que foi feita em grande parte nessa base. A vitória do Bolsonaro faz parte desse processo de guerra híbrida. Eles conseguiram a 1ª parte, que foi a derrubada do governo legítimo de Dilma Rousseff, mas estava faltando a 2ª parte, que é a instauração de um governo chave, com algum verniz de legitimidade, que vá servir da maneira mais servil possível aos interesses dos EUA.

O governo Temer fez a transição, um tapa-buraco, mas não oferecia estabilidade que eles acham necessária. O Bolsonaro oferece uma fachada de eleição, constitucionalidade, sem que haja ruptura institucional. Ele vai aplicar os métodos dos EUA que se façam necessários, inclusive violentos. O Brasil é o primeiro país a instaurar um regime militar pelo voto popular, algo inédito no contexto latino-americano.


Edição: Michele Carvalho

Revisão: João Baptista Pimentel Neto

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