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Entre o absurdo e o grotesco: Uma reflexão sobre o primeiro de janeiro de 2019

Olhando com distanciamento a ridícula comédia que se desdobra em Brasília, descobrimos que há uma realidade mais importante e mais decisiva em curso

Luiz Alberto Gómez de Souza

Vendo em Brasília um festival político absurdo e grotesco, não podemos ceder à facilidade de escorregar num pessimismo fácil. Pelo contrário, temos de somar-nos àqueles que, na contracorrente, procuram descobrir na frente novos horizontes, para além de aparências enganadoras.

Sigamos nossos heróis, Quixote e Sancho, pelos caminhos da Mancha:

"En esto descubrieron treinta o cuarenta molinos de viento que hay en aquel campo, y así como Don Quijote los vió, dijo a su escudero:- La ventura va guiando nuestras cosas mejor de lo que acertáramos a desear; porque ves allí, amigo Sancho Panza, donde se descubren treinta o poco más desaforados gigantes con quien pienso hacer batalla, ... y es gran servicio de Dios quitar tan mala simiente de sobre la faz de la tierra.

-¿Qué gigantes? dijo Sancho Panza. Mire vuestra merced,  que aquellos que allí se parecen no son gigantes, sino molinos de viento...

-Bien parece, respondió Don Quijote, que no estás cursado en esto de las aventuras; ellos son gigantes, y si tienes miedo quítate de ahí, y ponte en oración... que yo voy a entrar con ellos en fiera y desigual batalla".

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A espada do Quixote aponta novas trilhas

O grande poeta mexicano Octávio Paz nos adverte prudente:

¿Son molinos o son gigantes lo que ven Don Quijote y Sancho?  Ninguna de las dos posibilidades es la verdadera, parece decirnos Cervantes: son gigantes y son molinos.

Porém chega desafiante Miguel Unamuno:

"Tenía razón el Caballero: el miedo y solo el miedo hacía a Sancho y nos hace a los demás simples mortales ver molinos de viento en los desaforados gigantes que siembran mal por la tierra".

Será indispensável deixar de lado uma situação medíocre e minúscula, para recuperar a ambição dos grandes espaços e dos reais enfrentamentos com ‘desaforados gigantes’ do sistema dominante.

Lenta mas firmemente, há que desvendar práticas vitais alternativas e somar-nos a elas, na construção de outros caminhos ‘portadores de futuro’. Estão nas mãos daquelas ‘minorias abraâmicas’ que ia anunciando nosso Hélder Câmara.

E assim, olhando com distanciamento e desinteresse a ridícula comédia de equívocos que se desdobra em Brasília, descobrimos que há uma realidade mais importante e mais decisiva em curso, no caboclo que luta pela terra que lhe querem tirar, no índio que corre livre pelos espaços verdes, no jovem que descobre a vontade de criar, na mulher que descobre sua dignidade até então pisoteada, no migrante sem teto que quer levantar seu ninho, nas orações de tantas origens que confluem para a mesma fonte, na tenacidade de quem luta pela vida em construção. Há um mundo que lateja energia. Nele se antecipa o amanhã.

Murilo Mendes indica no seu mais profundo aforisma, que tenho citado tantas vezes:

O homem é um ser futuro,

um dia seremos visíveis.

E aclara em seu ‘poema dialético’:

Todas as formas ainda se encontram em esboço,

tudo vive em transformação:

mas o universo marcha

para a arquitetura perfeita.

Adiante o poeta conclui definitivamente:

A aurora é coletiva.

http://www.portinari.org.br/img/sections/collection/artwork/2000/1213.jpgA espada do Quixote aponta novas trilhas. Coletivamente, então, estamos convocados sem apelo à sua invenção. Depende de nós, inexorável, que assim seja.


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