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"Ainda que fogo na Amazônia seja apagado, dano já é irrecuperável", diz ambientalista

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (INPE) registrou um recorde de incêndios na Amazônia, com pelo menos 72 mil focos desde janeiro

A situação alarmante que assola a Amazônia se tornou pública nos últimos dias e gerou preocupação em grande parte da população. Mais de 70 mil focos de fogo ocorreram na área de janeiro até agora, e somente na última semana foram 9.500 produzidas.

A CLG conversou com Carolina Acosta, consultora ambiental, para ter uma ideia mais clara dos efeitos que isso pode trazer e quanto pode ser necessário para tentar revertê-los.

A consultora quis deixar claro desde o início que "os incêndios não são recentes", é um problema que vem ocorrendo há muito tempo, visibilizado agora porque "há 15 dias atingiu dimensões grandiosas". E acrescentou: “A Amazônia é a floresta tropical mais importante do planeta. É o pulmão verde e o coração porque bombeia água para todos os serviços ambientais.”

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muitos críticos acusam a política ambiental de Jair Bolsonaro, por esse aumento de incêndios na Amazônia.

Uma das principais conseqüências é a poluição do ar, depois que esses milhões de hectares são queimados. “A queima de árvores gera o desprendimento do carbono que elas contêm. Esse carbono é liberado na atmosfera, absorve a radiação solar e gera um aumento no denominado efeito estufa, que é o aumento da temperatura ao nível atmosférico”

72 mil focos de incêndio na Amazônia


O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil (INPE) registrou um recorde de incêndios na Amazônia, com pelo menos 72 mil focos desde janeiro. Destes, 9.500 ocorreram na última semana

Nessa mesma linha exemplificou: “Há uma nuvem gigante. Em São Paulo na última quarta-feira (21) houve luz natural até às 15 horas e depois não houve mais luz solar porque essa nuvem impede a iluminação da cidade de forma natural porque está tapando o sol”.

Outro dos efeitos, é que “se geram milhares de toneladas de monóxido de carbono que é altamente contaminante para as vias respiratórias”.  “Também são geradas partículas em suspensão que são muito pequenas e quando as respiramos podem chegar tanto aos alvéolos pulmonares, ou ir diretamente para o sangue e nos afetar internamente, ou ficam no trato respiratório superior e são expulsas”, especificou. Há, além disso, “outros compostos orgânicos voláteis que se desprendem e afetam no nível respiratório”. 

Quanto ao ecossistema, assinalou: “Ao cortar as árvores, o que acontece na Amazônia, impede-se o transpasso da água subterrânea. As árvores absorvem com as raízes a água que está no solo e a envia à atmosfera através de suas folhas. São lugares de passagem de água. Toda essa água que as folhas dessa enorme massa arbórea geram e expulsam é uma grande nuvem que gera a chuva em quase toda a América do Sul. Então “se cortaria o ciclo da água porque não vamos ter mais essas passagens que são as árvores”.

O aumento em relação ao ano passado é de 84%, o maior desde 2013, quando os incêndios começaram a ser avaliados, de acordo com a agência espacial. Em decorrência a suas reiteradas declarações contrárias as políticas em defesa do meio ambiente, muitos críticos acusam a política ambiental de Jair Bolsonaro, por esse aumento de incêndios na Amazônia.

 A Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço dos Estados Unidos (Nasa) divulgou imagens de satélite dos incêndios que sucedem há dias na Amazônia. As fotos mostram como, pouco a pouco, a fumaça vai se estendendo pelo Brasil... 

“Como consequência destes incêndios, o ciclo natural das chuvas seria afetado. As árvores são fundamentais para a chuva, não nos dão apenas sombra e oxigênio”.   E sustentou: “Esta massa tão grandes árvores que está sendo destruída vai afetar também a Argentina porque o planeta funciona como se fosse uma coisa só. Podem começar as secas e as consequências delas”.

Por último, mas não menos importante, destacou o dano à biodiversidade e aos povos indígenas. “Estão morrendo milhões de espécies. A floresta amazônica contém mais de 3 milhões de espécies de plantas e animais. Deveríamos preservá-las e cuidá-las porque inclusive servem para curar doenças”. 

Em que medida esses efeitos são reversíveis?

“Por mais que agora se apague e comecem as medidas corretivas de extinção do fogo, o dano já está feito”, assegurou. Tão duro como parece, os milhares de hectares consumidos pelo fogo geraram severas consequências e não todas são reversíveis. Uma das que não têm volta é a perda de espécies. Detalhou que “é um impacto ambiental irreversível, porque é preciso avaliar o tipo e o tempo que leva cada espécie para crescer”. 

Nesse sentido, explicou que há árvores que levam mais de um século para crescer. O mercado atual não dá essa possibilidade. Só dá a possibilidade de plantar espécies rentáveis, que crescem rápido e que servem para a indústria madeireira”. Por outro lado, “a contaminação do ar pode levar muito tempo, mas é reversível”. 

Resumiu dizendo que “a reversibilidade destes impactos é muito baixa porque as perdas são muito altas. É muito complicado, principalmente porque por parte do Estado não há nenhum tipo de interesse”. 

A incidência da política no conflito

“O problema é que não há políticas que ataquem isto, que o previnam e menos ainda que o corrijam. É como se a região estivesse liberada no nível nacional; com o governo de Jair Bolsonaro não há políticas que protejam a Amazônia”. Nesse sentido, assinalou a importância de contextualizar o que acontece: “O presidente disse literalmente que declara guerra à Amazônia e aos povos indígenas. É evidente que está cumprindo isso”.

 Também analisou: “O tema é que por trás de tudo isto está o capitalismo do desastre. Não há políticas que possam proteger as reservas que são do mundo inteiro. Tudo isso tem consequências fatais”. “Bolsonaro tem políticas alinhadas às de Donald Trump, que tem dito que a mudanças climática é uma invenção dos chineses para que os Estados Unidos não possam desenvolver seu crescimento econômico. Não acredita e não quer aplicar nenhuma política contra a mudança climática. O mandatário brasileiro está alinhado com isso”. 

“O neoliberalismo necessita destruir a ordem estabelecida para poder avançar. Neste caso, a ordem natural da floresta amazônica para poder avançar para o livre mercado e possam avançar as indústrias madeireiras, de pecuária e de soja.  A produção de tipo intensiva que explora totalmente o solo. Na América do Sul estas políticas estão avançando muitíssimo nos últimos tempos”, concluiu. 

A convocatória de Fridays for Future

A Assessora Ambiental colocou ênfase especialmente na importância da ação e divulgou a convocatória de Fridays For Future para que sexta-feira as pessoas se manifestem às 16 horas na Embaixada do Brasil na Capital Federal. “A ideia da marcha é para desencadear ação. A ideia é sempre formar parte das mobilizações e marchas, para que isso se torne público e conhecido. Que sejamos parte da ação e não fiquemos como espectadores”. 

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