Foto: FUP / Federação Única dos Petroleiros

“Vamos às últimas consequências para reverter demissões”, afirma líder da greve na Petrobras

Cortes descumprem acordo coletivo de trabalho e são um balão de ensaio, visando testar a resistência dos trabalhadores à novas exonerações

Uma das lideranças da greve dos petroleiros, Deyvid Bacelar afirma que a categoria está disposta a manter a paralisação até que o governo federal e a direção da Petrobras retrocedam na demissão de mil trabalhadores e trabalhadoras da Refinaria Presidente Vargas, localizada no Paraná.

A greve também vai chegar a alto-mar, informa o dirigente da Federação Única dos Petroleiros: 21 das 47 plataformas de produção de gás e petróleo do sistema Petrobras já aprovaram greve e vão parar nos próximos dias.

As demissões na refinaria paranaense descumprem acordo coletivo de trabalho firmado entre a empresa e a FUP e, mais importante, na opinião de Deyvid Bacelar, representam “um balão de ensaio, um protótipo para ser utilizado em outras áreas da Petrobras e em outras empresas públicas estatais”.

Deyvid, que desde sexta-feira, 31 de janeiro, está acampado em uma sala de reuniões no edifício-sede da Petrobras, no Rio, com outros quatro dirigentes da FUP, para forçar a reabertura de negociações, afirma que estão avançadas as articulações com outros setores do serviço público federal e outras empresas estatais para uma grande greve contra o governo Bolsonaro.

“Eu acredito que já passou da hora de a classe trabalhadora transformar todo esse sentimento de revolta e indignação, sofrimento e dor, em luta. Por que se nada for feito – e nós estamos aqui iniciando um movimento – nós veremos sim, este governo massacrar de vez a classe trabalhadora deste país”, diz ele.

Foto: FUP / Federação Única dos Petroleiros
Lideranças da greve dos petroleiros ocupam sala no Edifício sede da Petrobras no Rio de Janeiro

Acompanhe a entrevista, feita por telefone.

Fundação Perseu Abramo - Vocês seguem acampados na sede da Petrobras, no Rio de Janeiro?

Deyvid Bacelar - Sim, estamos aqui desde às 15 horas da última sexta-feira, ocupando a sala de reunião de número 01, das oito salas que existem aqui no quarto andar do edifício-sede da Petrobrás, no sentido de pressionar a empresa a negociar conosco. Infelizmente, foi o artifício que nós conseguimos utilizar – de forma pacífica, tranquila – e cumprindo toda a legislação vigente no país ao ponto de uma juíza do Trabalho aqui do Rio de Janeiro ter ratificado isso, garantindo nosso direito de greve e o direito de ocupação, no sentido de estarmos sentados literalmente em mesa aguardando a negociação para haver a suspensão das demissões e de uma série de outras arbitrariedades que a direção da Petrobras tem imposto à categoria petroleira (leia a decisão da juíza aqui).

Outra notícia é que na refinaria de Duque de Caxias, hoje, havia um contingente enorme de policiais militares. Como está a situação nos locais onde há paralisação dos petroleiros?

É algo que nos assusta. Na Refinaria Duque de Caxias havia hoje trinta viaturas da Polícia Militar do estado do Rio e 120 policiais. É uma desproporção descomunal, tendo em vista que a greve é constitucional e que não existe nenhuma determinação judicial que a classifique como ilegal ou abusiva. E o estado do Rio de Janeiro, governado infelizmente pelo fascista do Witzel desloca um contingente desse, enquanto o estado está um verdadeiro caos com as milícias extorquindo, matando. A mesma coisa aconteceu aqui no edifício-sede. Hoje, há um acampamento aqui na frente com trabalhadores e trabalhadoras da refinaria do Paraná e outros que entendem a importância da Petrobras. E também havia um grande número de policiais que não permitiram a entrada de alimentos para nós, que estamos aqui só na base do biscoito desde sexta-feira. E que trataram com a mesma truculência a deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ) e o ex-senador Lindbergh Farias (PT/RJ), que estavam aqui embaixo também.

Até que ponto os petroleiros podem resistir? Já que o governo é absolutamente contra greves e tem demonstrado que pretende reprimir o movimento. Até quando vocês podem suportar uma pressão como essa?

Nós levaremos até as últimas consequências.

O que são as últimas consequências?

É inadmissível aceitarmos a demissão de mil trabalhadores e trabalhadoras, e o prejuízo de mil famílias na cidade de Araucária sem nenhum tipo de resistência e luta. A categoria petroleira entendeu perfeitamente que esse é apenas um balão de ensaio, um protótipo para ser utilizado em outras áreas da Petrobras e em outras empresas públicas estatais.

A greve iniciou no sábado, está numa ascendente, o movimento vai crescendo. Nós estamos prestes à ocorrência de paralisações também nas plataformas de produção de petróleo e gás, e nós acreditamos que em algum momento essa gestão vai ter o mínimo de bom senso para suspender – e é só isso que estamos pedindo – as demissões e as arbitrariedades e negociar com as entidades sindicais.

Se eles querem ver o movimento crescer e atingir outras empresas estatais – como, aliás já está acontecendo na Dataprev, nos Correios e na Casa da Moeda – talvez este governo venha a enfrentar uma grande greve no setor público e nas empresas estatais no Brasil. Eu acredito que já passou da hora de a classe trabalhadora transformar todo esse sentimento de revolta e indignação, sofrimento e dor, em luta. Por que se nada for feito – e nós estamos aqui iniciando um movimento – nós veremos sim, este governo massacrar de vez a classe trabalhadora deste país.

Militantes do MST pretendiam entregar mantimentos aos grevistas. PM impediu 

Os trabalhadores destas empresas que você citou já estão em greve?

Na Dataprev e na Casa da Moeda sim. Nos Correios têm indicativo de greve a partir do dia 12. Temos outras categorias que estão se preparando, devido a ameaças exatamente iguais às dificuldades que nós estamos vivenciando. É bom lembrar que os trabalhadores e trabalhadores dos serviços públicos em geral passam por uma série de ameaças.

A reforma da Previdência passou no Congresso Nacional, e agora está sendo apreciada em diversas assembleias legislativas, e nós temos esse sentimento de revolta, de movimento, em âmbito nacional. Cabe agora não somente à CUT, mas às outras centrais sindicais, que estão conversando, aglutinar todas essas forças no enfrentamento ao governo Bolsonaro. Essa não é uma luta apenas dos petroleiros, é uma luta da sociedade brasileira.

Você acredita que existe um movimento concreto, que já está em curso?

Sim, não é algo abstrato. É um movimento ascendente, mas que precisa das outras centrais para dar consequência a essas articulações, um enfrentamento ao governo Bolsonaro. É verdade que há um contingente de mais ou menos 30% que aprovam esse governo, o que é quase uma seita, mas existem 30% que estão conosco e os demais que estão no meio do caminho, acordando para a realidade que, principalmente a partir da reforma trabalhista, está colocando muita gente na uberização, no “bico”, e que começam a se lembrar dos bons tempos dos governos do PT, especialmente os dois mandatos do presidente Lula e no primeiro mandato da presidenta Dilma.

E agora está previsto mais um ataque, que é a PEC Emergencial, que vai permitir cortar salários dos servidores públicos.

Estamos conversando com as entidades sindicais dos servidores públicos para consolidar um movimento.

Quer acrescentar algo que eu não tenha perguntado e que você considera importante neste momento?

É um movimento em ascendência. A qualquer momento, e isso quer dizer nos próximos dias, haverá greve também em alto-mar. 21 de 47 plataformas do sistema Petrobras farão paralisação, o que deve pressionar mais esse governo. 21 plataformas já tiveram a greve aprovada.


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