As ameaças tarifárias feitas pelo governo do presidente dos EUA, Donald Trump, não parecem ter assustado os países do Brics, principais alvos dos ataques do estadunidense, ultrajado com a ascensão do grupo e a defesa de seus integrantes por alternativas ao dólar.
Em resposta às tarifas de Trump, a China anunciou apoio ao Brasil e abriu ainda mais seu mercado a produtos brasileiros. A Índia reafirmou a compra de petróleo russo, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, confirmou uma visita à China no final de agosto, a primeira ao país em sete anos. A medida sinaliza um descongelamento diplomático entre os países, que têm um histórico de disputa fronteiriça.
O Brasil, por sua vez, declarou que vai discutir uma resposta conjunta do Brics ao tarifaço dos EUA, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva já fez ligações para lideranças do grupo, que hoje representa 40% da economia mundial.
Laerte Apolinário, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), afirma ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que o Brics não tem se rendido aos EUA, como Trump esperava em um primeiro momento. Segundo ele, Trump superestimou a economia dos EUA, acreditando que ela estaria em uma posição global que não mais ocupa.
Ele afirma que a principal estratégia do Brics é reduzir a dependência dos EUA, abrindo novos mercados e adotando medidas internas para reduzir os impactos das tarifas norte-americanas.
Ele afirma que a pressão dos EUA, além de resultar no estreitamento de laços comerciais do Brics, está resolvendo aquele que é considerado o calcanhar de aquiles do grupo, que é a relação da China com a Índia.

No recorte do Brasil, Apolinário afirma que a “rendição” às exigências de Trump para não sofrer um tarifaço não era “uma alternativa viável”, pois as demandas do estadunidense não envolviam apenas questões comerciais.
Ele destaca que a China já se prontificou a absorver parte da escoação de café do Brasil, um dos produtos afetados pelo tarifaço, e que o Brasil também tem buscado se aproximar da Índia para aumentar o comércio com o país.
Luiz Antonio Paulino, professor de relações internacionais e diretor do Instituto Confúcio na Universidade Estadual Paulista (Unesp), afirma que, se a intenção de Trump era enfraquecer o Brics, o resultado foi o oposto. Segundo ele, os países do grupo “têm se mostrado solidários” entre si.
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Ele afirma que a desvalorização do dólar observada como decorrência do tarifaço já era esperada e em alguma medida é positiva para o governo dos EUA, uma vez que o dólar desvalorizado torna os produtos mais baratos no exterior.
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No entanto a medida traz um efeito colateral negativo: sendo o dólar usado internacionalmente como reserva, a desvalorização faz com que os países busquem alternativas à moeda estadunidense.
O especialista destaca ainda que todos os países do mundo que estão sendo afetados hoje pelas tarifas de Trump estão buscando dialogar entre si, com o objetivo de reduzir as perdas ou compensá-las com novos acordos de livre comércio.
No caso do Brics, ele aponta a possibilidade de uma resposta conjunta.





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