Equipe Café com Vodka

CAFÉ COM VODKA | Oportunidades na crise da hegemonia: reflexões a partir do CORAL 2026

Diante do avanço da extrema-direita e de pressões imperialistas na América Latina, o Fórum CORAL 2026 debateu o fortalecimento da integração regional como mecanismo de defesa da soberania continental

Livia Marciano
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

A coluna CAFÉ COM VODKA é produzida pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina no Brasil (CICRAL Brasil) em parceria com a Diálogos do Sul Global.

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Em tempos de neoliberalismo, as incertezas do futuro se acirram e novas tentativas de organização do poder afloram. O militante e teórico marxista Antonio Gramsci chamaria esse processo de interregno, período “entre reinos”, marcado pela desordem e instabilidade política e econômica, quando se intensificam fenômenos patológicos, como o facismo.

O conceito, utilizado por Gramsci para caracterizar o pós 2ª Guerra Mundial, foi recuperado nas últimas décadas através do trabalho do sociólogo Wolfgang Streeck e tem sido utilizado na produção acadêmica para pensar a história do tempo presente, partindo do entendimento de uma derrocada da hegemonia estadunidense, seguido pelo fim do capitalismo democrático desde a crise de 2008. 

Fórum América Latina-Rússia defende 'diplomacia pública' - Opera MundiNa América Latina, vemos a ascensão da extrema direita e do neofacismo nos últimos governos eleitos, em oposição total à guinada à esquerda do início dos anos 2000.  Quais caminhos seguir nesse momento de disputa pelo poder global foi um dos temas centrais do 1º Fórum de Cooperação Estratégica entre Rússia e América Latina – CORAL 2026, ocorrido nesse início de julho de 2026 em São Paulo (Brasil), em que tive a oportunidade de assistir às mesas abertas ao público com debates muito pertinentes no cenário político atual. 

CAFÉ COM VODKA | Quando o mapa não mostra o território: BRICS+, G7 e a batalha pelas narrativas do poder

Passando por temas sobre as relações e cooperações históricas entre América Latina e Rússia, cenários da geopolítica atual, encaminhamentos de ações para estreitamentos de laços locais e discussões teóricas sobre a reordenação do poder no mundo, o evento organizado pelo Centro de Integração e Cooperação entre Rússia e América Latina (CICRAL) no Brasil teve uma motivação objetiva: “por um novo mundo multipolar”.

A iniciativa também marcou o lançamento do importante Caderno Latino-Americano de Cooperação Estratégica com a Rússia, que apresenta um amplo levantamento sobre a cooperação com a Rússia no continente. Os dados se somam às discussões e levantamentos sobre os problemas e soluções para a construção desse novo mundo, em que a América Latina reafirma sua soberania — tanto em conjunto quanto de forma nacional.

A necessidade de nos organizarmos enquanto um bloco de enfrentamento e contenção contra os avanços imperialistas da ordem polar, conforme fala do debatedor Breno Altman, na mesa do dia 13 de julho, ganha força diante do cenário de reencenação da doutrina monroe dos Estados Unidos sob a América Latina, com o sequestro de Maduro e as tentativas de classificação das organizações criminosas brasileiras como terroristas, entre demais exemplos cabíveis que escancaram as ameaças impostas sob a América Latina no último ano. 

Para além dos problemas, as mesas também se ocuparam em discutir os caminhos possíveis para um fortalecimento da cooperação com a Rússia, por exemplo, via BRICS+, como forma de ordenação local e oposição às ameaças imperialistas.

Um dos destaques pontuado pelo Caderno Latino-Americano de Cooperação Estratégica com a Rússia e reforçado pelos participantes, é a urgência de uma circulação mais transparente de dados sobre as cooperações, parcerias econômicas e institucionais, que permitam o acesso aberto às parcerias históricas, levando em conta que a reunião desses dados permitiria a elaboração de nossos próprios dados e métricas a serviço de nosso próprios interesses. Destaca-se também, no nível acadêmico, as propostas voltadas ao estabelecimento de uma linha de pesquisa comum, visando a construção de um conhecimento colaborativo e emancipatório. 

Nesse momento transitório, entendido aqui como um novo interregno nos termos gramscianos, é que vemos aberturas e brechas para ações, aproveitando o momento de crise para sedimentar os caminhos a uma nova ordem política multipolar, que não virá sem disputa mas sim, como um lento processo histórico em que devemos buscar o protagonismo. A partir deste diálogo plural, podemos construir um polo de poder latino-americano, com uma diplomacia pública comprometida com os interesses de desenvolvimento local.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Livia Marciano Livia Bernardes Marciano é historiadora pela Universidade de São Paulo e integra o grupo de estudos Marxismo e Cultura, coordenado pelo Prof. Dr. Maurício Cardoso (FFLCH-USP).

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