Reprodução: Flickr / Foto: Ricardo Stuckert

Cannabrava | A campanha eleitoral começa para valer

De São Bernardo a Copacabana, começa uma disputa que vai além dos candidatos: estão em jogo projetos de país, segurança, soberania e a própria democracia.

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Começou no domingo, 16 de agosto, a campanha para as eleições gerais de 3 de outubro. Vamos eleger presidente e vice-presidente da República, senadores, deputados federais, governadores e deputados estaduais. A partir de agora, a campanha é para valer. É hora de cada candidato mostrar o que tem a oferecer, quais são suas propostas e, principalmente, que Brasil pretende construir.

Os dois principais candidatos escolheram lugares carregados de simbolismo para lançar suas campanhas.

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Foto: Ricardo Stuckert

Lula voltou a São Bernardo do Campo, onde começou sua trajetória sindical e política. Na Vila Euclides, o estádio ficou pequeno para abrigar a multidão de apoiadores. Não foi uma escolha qualquer. São Bernardo é um marco histórico do movimento operário brasileiro e está diretamente ligada à origem política de Lula.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, lançou sua campanha em Copacabana, no Rio de Janeiro, diante de apoiadores vestidos de verde e amarelo. Também aí existe um simbolismo evidente. Copacabana tornou-se, ao longo dos últimos anos, um dos principais palcos das manifestações do bolsonarismo.

Campanha | A eleição brasileira virou uma disputa internacional pelo lugar do Brasil no mundo

São dois cenários que dizem muito sobre a eleição que começa: de um lado, São Bernardo e a memória das lutas dos trabalhadores; de outro, Copacabana e a mobilização construída pelo bolsonarismo.

A eleição tem 13 candidatos à Presidência. Mas as pesquisas mostram uma disputa concentrada principalmente em Lula, do PT, e Flávio Bolsonaro, do PL, enquanto nomes como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e os demais candidatos tentam encontrar espaço para crescer.

Lula repete a chapa da eleição anterior, mantendo Geraldo Alckmin, do PSB, como vice. Ronaldo Caiado tem como vice Gilberto Kassab, presidente do PSD e um dos mais experientes articuladores da política brasileira. É uma composição que merece atenção porque Kassab conhece, como poucos, os caminhos e as negociações da política nacional.

Em meio a crise do bolsonarismo no RJ, Flávio testa força em primeiro  comício de campanha em Copacabana | Brasil de Fato
Em meio a crise do bolsonarismo no RJ, Flávio testa força em primeiro comício de campanha em Copacabana | Brasil de Fato

Flávio Bolsonaro queria uma mulher como candidata a vice. Nenhuma aceitou o convite, mas terminou compondo uma chapa com Alfredo Gaspar, também do PL. Gaspar tem problema com a Justiça, acusado de estupro, em processo parado no Supremo Tribunal Federal (STF).

Em 28 de agosto começa o chamado horário eleitoral gratuito. Gratuito para os candidatos, é bom lembrar. Eles não pagam pela utilização desses horários, mas existe compensação pública às emissoras. Portanto, de gratuito mesmo, para a sociedade, ele não tem tudo aquilo que o nome sugere.

Cannabrava | Soberania não se negocia

A segurança pública já aparece como um dos grandes temas desta eleição — e não poderia ser diferente. O avanço das organizações criminosas tornou-se uma questão nacional. Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho deixaram há muito tempo de atuar apenas no tráfico de drogas. Avançam sobre setores da economia formal, movimentam enormes quantidades de dinheiro e procuram ampliar sua influência sobre as instituições e a política.

É uma ameaça que precisa ser enfrentada pelo Estado democrático, sem demagogia e sem transformar o medo da população em instrumento eleitoral.

Mas há uma questão ainda maior atravessando esta eleição: a própria democracia.

De um lado está um campo político marcado pelas tentativas de ruptura institucional dos últimos anos. De outro, está a defesa da continuidade democrática. Essa diferença não pode ser escondida no meio da propaganda eleitoral.

E a campanha já começa mostrando também qual deverá ser o papel da Justiça Eleitoral.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou pedido para retirar publicação que acusava Flávio Bolsonaro de querer transformar o Brasil em uma espécie de colônia dos Estados Unidos. O entendimento foi de que a manifestação estava dentro do campo da crítica política e não apresentava elementos que justificassem sua remoção imediata.

Em outro caso, porém, a Justiça determinou a retirada de publicação de Flávio Bolsonaro que associava Lula a facções criminosas.

Há aí uma distinção importante para a campanha que começa: crítica política é legítima; mentira apresentada como fato não é.

Que os candidatos façam suas críticas, confrontem projetos, discutam segurança, economia, soberania, desigualdade e democracia. Que sejam duros uns com os outros, se quiserem.

Mas que apresentem propostas.

Agora a campanha começou para valer. E o eleitor precisa saber não apenas contra quem cada candidato está, mas principalmente a favor de quê — e de qual Brasil.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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