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Evo Morales e Luis Arce (Foto: Reprodução / Facebook)

Candidatura intermediária é única forma de reunir Evo e Arce, defende analista política da Bolívia

Susana Bejarano explica que episódio golpista aprofundou mal-estar entre seguidores de Evo e Arce, o que fortalece a oposição e ameaça institucionalidade da Bolívia
Aldo Anfossi
La Jornada
La Paz

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Se alguém acreditava que o fracasso do golpe na semana passada na Bolívia abria uma oportunidade para reconstituir a confiança no oficialista e fragmentado Movimento ao Socialismo (MAS), e assim gerar governabilidade em torno dos problemas urgentes, isso foi uma ilusão que se dissipou em poucas horas, diz a analista política Susana Bejarano.

“Quando se dão os fatos, entre as 2 e as 6 da tarde, todos os políticos fazem declarações que geram um cordão sanitário em defesa, não do presidente Luis Arce, mas da democracia, junto às pessoas que saem às ruas”, explica.

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“Naquele momento – agrega – era possível pensar que no MAS as posturas internas poderiam ceder e entender o que pode ocorrer sem um bloco popular forte. Parecia que isso poderia se tornar realidade, que o MAS se despertava diante da possibilidade de perder o poder, algo muito maior que sua luta interna. Mas isso dura exatamente três horas, a partir da prisão do general golpista Zúñiga e da versão que ele dá, que é um autogolpe“, diz.

Conforme passam os dias, ficou evidente como o “evismo” avançou em validar essa explicação dos fatos, primeiro levemente, até chegar a subscrevê-la completamente pela boca de Evo Morales. De fato, transcorrida uma semana dos acontecimentos, “evismo” e “arcismo” estão envolvidos em quem faz a declaração mais desqualificadora do outro.

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“Durou muito pouco a ideia de unidade e volta-se à luta interna, as coisas não estão melhores do que naquela manhã, mas pioram porque, a partir do MAS, sem se condoer que foram vítimas em 2019, branqueiam uma situação extrema contra a democracia, acreditando que convém aos interesses conjunturais”, adverte a especialista.

Situação é complexa e muito ruim

A conclusão é que “estamos em uma situação cada dia mais complexa, os ódios e apetites por se apoderar da candidatura superaram níveis que jamais poderíamos acreditar; o MAS está ultrapassando elementos de sua própria história e até mesmo a concepção do Estado Plurinacional pode vir abaixo sem uma defesa a partir de um movimento popular unido e sólido”.

Um sinal muito ruim, explica, é que apesar de sofrer na própria pele episódios que envolvem os militares como atores da perda do poder e da institucionalidade democrática, essa experiência foi insuficiente para que o “evismo” resistisse a alimentar um discurso do autogolpe.

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“Isso indica que se as coisas já estavam muito desgastadas na manhã de quarta-feira (26 de junho), no limite, aquela noite acabam pior com um elemento muito complexo que não é a briga interna entre eles pela candidatura presidencial de 2025, mas com elementos da institucionalidade boliviana”.

Como gerir a crise na Bolívia

Qualquer possibilidade de gerir os problemas urgentes que hoje a Bolívia tem – carência de reservas em dólares, escassez de combustíveis, abuso do subsídio aos hidrocarbonetos, déficit fiscal de 11 pontos do produto, bloqueio da agenda legislativa, estagnação dos projetos de industrialização do lítio, etc. – passa por um acordo político amplo, que começa necessariamente com a “pacificação” da guerra interna do MAS.

Susana Bejarano propõe que na medida em que a ruptura do MAS se aprofunda e se prolonga, sendo esta a estrutura dirigente do campo político local, é impossível abordar os ajustes e transformações que se requerem para atacar uma crise que define como multidimensional.

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“A oposição, durante 20 anos, operou reativamente frente ao MAS, mas agora isso não funciona na medida em que não está claro contra o que e contra quem reagir, é completamente desordenada, um dia apoia o governo no Parlamento, depois o ‘evismo’. Há uma desordem no campo político provocada pela briga no MAS, cujos militantes, agora que poderiam ser maioria eleitoral, estão desorientados em como operar a política”.

O MAS sem saída

A esse respeito, considera totalmente necessário que o oficialismo encontre caminhos institucionais para aplacar sua guerra interna, porque isso repercutiria imediatamente em todo o campo político, dado que é a força dirigente.

“Creio que a única alternativa viável, eleitoralmente falando, é uma candidatura intermediária entre as partes que se comprometa a olhar para ambas, mas é muito complexo, porque não só não há mecanismos democráticos institucionais para resolver a negação do outro que existe, mas expressamente não existem vontades”.

O conflito político-social, agrega, não vai parar enquanto não houver uma recolocação do Modelo Econômico Social Comunitário Produtivo estatal, que está apresentando falhas, mas esses temas não estão em debate político e as pessoas podem se mobilizar a qualquer momento.

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“Aos problemas não se colocou cordão sanitário, na medida que não se solucionam, se abre uma possibilidade de que a oposição, em qualquer de suas versões, possa propor ao país algo não necessariamente sensato, mas simplesmente a rejeição ao que existe hoje”.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Aldo Anfossi

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