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A luta das mulheres não se limita à conquista de direitos formais: se insere numa batalha mais ampla por uma sociedade verdadeiramente democrática e justa. (Foto: Valter Campanato / Agência Brasil)

Cannabrava | 8 de Março: conquistas históricas e a violência que persiste

O Dia Internacional das Mulheres revela avanços importantes, mas também expõe as profundas contradições de um país que ainda convive com desigualdade e feminicídio

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O Dia Internacional das Mulheres voltou a mobilizar multidões nas principais cidades do país. Mais uma vez, mulheres ocuparam as ruas para afirmar direitos e lembrar que a luta pela igualdade está longe de terminar. O 8 de março não é apenas uma data simbólica. É um momento de reflexão sobre conquistas históricas e, ao mesmo tempo, sobre o muito que ainda precisa ser conquistado.

Nas últimas décadas houve avanços importantes. A presença feminina cresceu nas universidades, no mercado de trabalho e também na vida política. Leis como a Lei Maria da Penha e a tipificação do feminicídio representam conquistas relevantes da mobilização das mulheres e ajudaram a colocar o combate à violência de gênero no centro das políticas públicas.

Mas essas conquistas convivem com uma realidade brutal. O Brasil segue entre os países com maior número de feminicídios. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mais de 1.400 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2023, o que significa que uma mulher é assassinada por motivo de gênero, em média, a cada seis horas no país. A maior parte desses crimes ocorre dentro de casa e é praticada por companheiros ou ex-companheiros, revelando a persistência de uma cultura de violência profundamente enraizada.

Essa contradição mostra que o avanço das leis e das políticas públicas, embora fundamental, não é suficiente para transformar uma realidade marcada por desigualdade social, concentração de renda e estruturas de poder historicamente excludentes. A luta das mulheres, portanto, não se limita à conquista de direitos formais. Ela se insere numa batalha mais ampla por uma sociedade verdadeiramente democrática e justa.

As manifestações que tomaram as ruas neste 8 de março lembram que a emancipação das mulheres está ligada à transformação profunda da própria sociedade. A luta contra a violência de gênero, contra a desigualdade e contra todas as formas de opressão converge com a necessidade de um projeto nacional que coloque o desenvolvimento econômico, a justiça social e a soberania popular no centro das prioridades.

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É nesse horizonte que o Dia Internacional das Mulheres ganha seu sentido mais profundo. A luta pela igualdade de gênero faz parte da necessária luta de libertação nacional — uma luta capaz de libertar não apenas as mulheres, mas toda a sociedade das amarras da desigualdade e da dependência, abrindo caminho para um desenvolvimento integral, soberano e socialmente justo.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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