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o que temos hoje é um Legislativo que se apropria de fatias cada vez maiores do orçamento público, impedindo o governo de executar políticas públicas estruturantes (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

Cannabrava | A Ditadura da Maioria

Com o sequestro do Orçamento pelas emendas parlamentares, o Congresso paralisa o país, impede o governo de governar e aprofunda a crise de representação democrática

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

Cada três palavras no Congresso, duas são emendas. O que deveria ser exceção virou regra: deputados e senadores legislam em causa própria, travam o Executivo e deformam a democracia representativa. Com o controle das emendas, o chamado “centrão” sequestrou o Orçamento da União e se tornou uma espécie de governo paralelo — sem responsabilidade administrativa, sem programa de país, apenas voltado para a autopreservação e a reprodução do poder.

As emendas parlamentares, que originalmente tinham o intuito de corrigir distorções regionais, tornaram-se moeda de troca política e, pior, instrumento de chantagem institucional. Pela Constituição, o manejo do Orçamento é prerrogativa do Executivo. Mas o que temos hoje é um Legislativo que se apropria de fatias cada vez maiores do orçamento público, impedindo o governo de executar políticas públicas estruturantes. Isso paralisa o país.

O mais grave é que essa maioria congressual — muitas vezes movida por interesses corporativos e fisiológicos — impõe sua vontade como se representasse a totalidade da sociedade. Assim se instala a ditadura da maioria: um poder majoritário que ignora o pluralismo, despreza as minorias e desfigura a democracia.

Diante disso, a minoria — tanto de parlamentares quanto de setores da sociedade — recorre ao Supremo Tribunal Federal como última trincheira de equilíbrio. Quando o Executivo tenta governar, o Congresso bloqueia. Quando o Judiciário atua para restabelecer o mínimo de harmonia — como no caso do marco temporal ou da desoneração da folha, ou reforma do IOF —, o Congresso reage com ameaças e projetos para limitar o Supremo Tribunal Federal. Uma guerra de instituições que revela a falência do pacto republicano.

A crise de governabilidade não é apenas responsabilidade do governo. A oposição também fracassa. Basta ver o esvaziamento dos atos bolsonaristas: em pleno domingo, menos de 12 mil pessoas foram à Avenida Paulista para ouvir o ex-presidente. Ou seja, o governo perde apoio, mas a oposição não ganha. O sistema político como um todo está em descrédito.

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Enquanto isso, a população sofre com serviços públicos precarizados, obras paradas, investimentos travados, inflação baixa mas juros altos, e um presidente amarrado por um Congresso que não quer governar, mas também não quer deixar governar.

Não se trata de crise entre Poderes. É uma crise de modelo. O presidencialismo de coalizão virou refém do fisiologismo. A maioria virou ditadura. E a democracia, um teatro cada vez mais vazio.

* Artigo redigido com auxílio do ChatGPT.

Cannabrava | O Brasil cresce, mas o Congresso sabota o país


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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