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Estátua da Justiça, em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), coberta por fumaça, durante os atos golpistas de 8 de janeiro (Foto: Joedson Alves/Agencia Brasil)

Cannabrava | O julgamento dos envolvidos no golpe de 8 de janeiro: a chantagem da força contra a democracia

O episódio de 8 de janeiro é um alerta para o futuro: mostra que qualquer tentativa de minar a democracia, de usar o poder para chantagem política, encontrará resistência

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

O prazo para a defesa terminar suas alegações finais terminou em 13 de agosto. No dia seguinte, o ministro Alexandre de Moraes liberou o caso para julgamento. Agora, cabe ao ministro Cristiano Zanin, presidente da Primeira Turma, agendar a data.

Todos os réus alegam inocência. Bolsonaro. Braga Netto. Augusto Heleno. Paulo Sérgio Nogueira. Todos acusam Moraes de parcialidade.

Mas não é só isso. O governo Bolsonaro foi profundamente militarizado. Generais em todos os postos estratégicos. Do Planalto aos ministérios, do Gabinete de Segurança Institucional às Forças Armadas. A presença militar não garantiu apenas disciplina: serviu, em muitos casos, para consolidar interesses políticos e pressionar adversários. Agora, esses mesmos generais respondem à Justiça. A lição é clara: cargos estratégicos não conferem imunidade.

O golpe de 8 de janeiro não foi um erro isolado. Foi uma tentativa explícita de intimidação. De impor vontades pela violência. De desafiar a Constituição e o Estado de Direito. Foi o momento em que setores do governo acharam que poderiam transformar o país em território de chantagem e pressão, acreditando que o poder lhes dava prerrogativa para agir acima da lei.

É importante destacar, como ressaltou o ministro Moraes, que todas as diligências foram cumpridas. Todas as fases do processo foram respeitadas, incluindo o direito integral de defesa dos implicados. Nada foi atropelado. Nem a acusação, nem a defesa. O processo correu dentro da legalidade, com todas as oportunidades de manifestação garantidas a todos os réus.

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Este julgamento é, acima de tudo, um teste da democracia brasileira. Mostra se a Justiça consegue agir com imparcialidade, mesmo diante de quem ocupou os cargos mais altos do poder. Quem usou estruturas públicas para fins próprios precisa saber: não há blindagem que sobreviva à lei.

Mas há outro ponto crucial: o julgamento também é simbólico. Ele reafirma que a democracia não se sustenta apenas com discursos ou promessas. É necessário que o Estado de Direito se imponha diante de qualquer tentativa de intimidação. Impunidade não pode ser prêmio de quem recorre à violência. Justiça aplicada é fortalecimento da sociedade.

E mais: a ameaça não vem apenas do passado. O episódio de 8 de janeiro é um alerta para o futuro. Mostra que qualquer tentativa de minar a democracia, de usar o poder para chantagem política, encontrará resistência. É um aviso a quem pensa que força e intimidação podem substituir instituições e leis.

O Brasil está sob prova. Não se trata apenas de julgar atos individuais. Trata-se de reafirmar princípios. A chantagem da força não prevalece. A democracia resiste. O Estado de Direito permanece.

Este julgamento será lembrado. Como medida da maturidade política e institucional do país. Como prova da capacidade das instituições de defender a democracia, mesmo quando ameaçada por aqueles que um dia ocuparam os postos mais altos do poder. E, sobretudo, como demonstração de que a lei, quando aplicada com rigor e imparcialidade – respeitando todas as fases, inclusive a defesa dos réus – protege não apenas cidadãos, mas toda a democracia brasileira.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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