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Montagem - Reprodução: Rplx

Cannabrava | Pautas-bomba tornam difícil governar

Congresso amplia despesas, concentra recursos e reduz a capacidade de ação do Executivo

Paulo Cannabrava Filho
Diálogos do Sul Global
São Paulo (SP)

Tradução:

“Brasília enlouqueceu”, diz o jornal O Estado de S. Paulo em editorial publicado nesta quinta-feira (12). De fato, as chamadas pautas-bomba que avançam no Congresso Nacional parecem confirmar o diagnóstico.

Não há dinheiro para o Executivo cumprir suas obrigações, mas sobra disposição para criar novas despesas e ampliar benefícios sem a correspondente preocupação com as fontes de financiamento.

Segundo a equipe econômica, o custo potencial das propostas que tramitam atualmente na Câmara dos Deputados e no Senado Federal chega a R$ 111 bilhões. Trata-se de um valor expressivo, capaz de comprometer ainda mais as contas públicas e reduzir a capacidade de investimento do Estado.

Pautas-bomba: Cannabrava | A apropriação indébita do orçamento e a ingovernabilidade

Entre as barbaridades, o Senado aprovou a renegociação da dívida do agronegócio, medida cujo impacto pode alcançar R$ 140 bilhões. Propostas que ampliam benefícios previdenciários e criam ou elevam pisos salariais profissionais somam outros bilhões em despesas permanentes.

Soma-se a isso a imunidade tributária para as igrejas, conquistada pelas bancadas da Bíblia. Todos cobram responsabilidade fiscal do governo, mas poucos demonstram disposição para colaborar com ela.

Alcolumbre vira principal obstáculo de Lula na escolha do sucessor de  Barroso no STF
       Alcolumbre vira principal obstáculo de Lula no                   quesito governabilidade – Reprodução: Twitter X

O paradoxo é evidente. O Executivo é pressionado a cumprir metas fiscais rigorosas, enquanto o Congresso aprova ou debate medidas que ampliam gastos e reduzem receitas. O orçamento federal já destina mais de 40% de seus recursos para o pagamento dos juros e encargos da dívida pública.

Quando se acrescentam as emendas parlamentares e as sucessivas pautas-bomba, sobra muito pouco espaço para que o governo execute políticas públicas, realize investimentos e responda às demandas da população.

A situação torna-se ainda mais contraditória porque a Constituição e a Lei de Responsabilidade Fiscal determinam que toda nova despesa seja acompanhada da estimativa de seu custo e da indicação da fonte de custeio. A exigência vale para todos. Mas, para aqueles que fazem as leis, a própria lei parece não valer.

É o que demonstram as pautas-bomba e a multiplicação das emendas parlamentares sem os devidos critérios de planejamento e controle.

O problema ultrapassa a disputa entre governo e oposição. Trata-se de uma questão de governabilidade. Um país com as dimensões e os desafios do Brasil necessita de capacidade de planejamento, coordenação e investimento. Sem isso, qualquer governo encontrará enormes dificuldades para administrar o país e promover o desenvolvimento.

De fato, está cada dia mais difícil governar. E estamos às vésperas de uma eleição. Talvez seja o momento de a sociedade refletir sobre a correlação de forças existente no Congresso Nacional e sobre a necessidade de construir um projeto nacional capaz de devolver ao Estado condições efetivas de governar, planejar e promover o desenvolvimento do país.



As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Paulo Cannabrava Filho Iniciou a carreira como repórter no jornal O Tempo, em 1957. Quatro anos depois, integrou a primeira equipe de correspondentes da agência Prensa Latina. Hoje dirige a revista eletrônica Diálogos do Sul Global, inspirada no projeto Cadernos do Terceiro Mundo.

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