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Celac 2014 silencia a direita peruana

Gustavo Espinoza M.

Tradução:

Gustavo Espinoza M.* 

gustavo espinoza perfil dialogos do sulCelac 2014 – Bem poucas vezes no Peru a direita ficou calada. Também acontecimentos específicos – a sentença de Haia, ou a transcendência do evento – fez com que desta vez o Peru se viu livre da venenosa e também cafajeste campanha que em outras circunstâncias teria desatado contra Cuba e a Celac, e também contra o presidente Ollanta Humala por ter viajado à pátria de Martí e assistido à Cúpula mais importante já realizada na América no que vai do novo século.

O presidente Ollanta Humala
O presidente Ollanta Humala

Apenas na quinta-feira, 30/1, concluída a Cúpula de Havana, o grupo El Comercio, através de “Peru 21”, atreveu-se a editorializar contra Cuba. Mais mesmo assim, a impotência permitiu muito pouco. Apenas lamentou a presença do comandante Raúl Castro com elegante terno azul e seus “finíssimos óculos Cartier” no ato inaugural da Celac e exigiu a seus áulicos que, quando falem de Cuba digam, em vivo e em direto – que é “uma ditadura”. A inteligência não deu pra mais. O ridículo foi maior. Não puderam suportar o contraste entre uma Casa Branca encolhida pelo frio e a solidão e uma Havana ruidosa, alegre e festiva como a conhece o mundo.
Para instigar a indignação da direita mais reacionária de nosso continente, compareceram ao encontro 29 dos 33 mandatários da América Latina e Caribe. E estiveram presentes as mais altas autoridades dos organismos internacionais e regionais, como o Secretário Geral de Nações Unidas e o titular da OEA. E também a senhora Bachelet, recentemente eleita pela segunda vez presidenta de Chile.
A única ausência significativa foi a do presidente de El Salvador, que se explica, porque no domingo se realizava as eleições em que o povo poderia renovar a confiança do povo que há quatro anos, pela primeira vez, outorgou a Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional.
A Celac 2014 não caiu do céu. Nem está no cenário de nosso tempo por milagre. Foi resultado de mais qualificado esforço de um grande homem de nosso continente, o comandante Hugo Chávez Frías, que pode ver coroada sua vontade de luta, mas não alcançou seu maior esplendor. Este ocorreu agora sob o céu de Havana. Dai a merecidíssima homenagem que sem exceção lhe foi atribuída.
Dois elementos são particularmente importantes e contribuem para ressaltar a transcendência da Cúpula. Um, tem que ver com a gravidade da crise mundial. E o outro, com o cenário geográfico em que transcorreu o encontro.
Há que admitir que o encontro ocorreu quando o mundo registra altos níveis de decomposição do modelo de dominação capitalista. Importantes países de Europa vivem hoje espasmos pela aplicação de política de choque impostas às espaldas dos povos pelo Banco Mundial e outros organismos financeiros internacionais. E nos países desenvolvidos crescem níveis de desemprego e se autodestrói, talvez definitivamente, o denominado “estado de bem-estar social” tão popular em décadas passadas.
Inclusive nos Estados Unidos registra-se a quebra de importantes consórcios industriais e financeiros e até o desmoronamento de poderosos trustes que, antes converteram a cidades, como Detroit, em pujantes símbolos do desenvolvimento. Isso incrementa a voracidade do Império e alenta os mercadores da guerra a exportar afãs bélicos em prejuízo de países do Oriente Médio e Ásia Central.
Que neste contexto surja em América Latina um cenário diferente, de luta e transformação social, é algo que os arautos do Império dificilmente podem digerir. Porém, como isso que aflora, al mesmo tempo que levanta suas bandeiras de unidade exclui a Estados Unidos e Canadá e estabelece uma clara distância dos planos do Império – então a coisa se torna simplesmente intolerável. É muito mais do que poderia imaginar Harry Truman quando pensava no poder demolidor da bomba atômica. Isso esclarece porque Washington está a gritar “traidores” a todos os governos de América.
A Celac une sob a orientação das forças mais progressistas, a todos os países da América Latina e Caribe. Em cada circunscrição do território americano se produzem revoluções ou mutações, inclusive em conteúdo. Porém em todos se afirma a ideia de que não podemos seguir sendo a velha dispensa do Império, mas que temos que forjar o destino de nossos povos com dignidade, trabalho e luta. Neste marco, a solidariedade sem reparos com cada um desses processos constitui não só um dever elementar, mas também uma obrigação irrecusável.
Há processos mais avançados em nosso continente. Porem ninguém copia nada. Ninguém reproduz o que outro faz. Todos criam a partir de sua própria e heroica experiência. E todos transitam pela via libertadora que puderam projetar seus antepassados quando combateram pela independência, há 200 anos.
Porque, finalmente, p mérito histórico da Celac é esse: ter un ido a nossos povos en um só símbolo de luta ao completar o bicentenário da independência de América, quando as proclamas de José de San Martín, Simón Bolívar e Antonio José de Sucre, são retomadas pelos fervorosos apelos de seus descendentes.
Cuba tem um lugar de honra nessa tumultuada batalha pela independência de América. Não só porque foi o primeiro país que rompeu os laços que a atavam ao domínio ianque, mas porque – além disso, aportou à experiência  americana conceitos novos e ideias próprias referentes ao esforço por construir uma sociedade mais humana e mais justa, a sociedade socialista.
Cada uma das experiências de América recolhe elementos do futuro. Para homens ilustres, como José Carlos Mariátegui, a tarefa histórica de avançar nas mudanças estruturais nas relações de produção em nosso continente, “é uma empresa de homens da mais liberada consciência e da mais elevada moral”. Os que têm em suas mãos a condição de processos antimperialistas como os que hoje se vivem em diversos países, estão adscritos a esta mensagem.
Há que ter consciência, contudo, de que nossa luta – travada em cada país- não contém só objetivos locais. Trata-se de uma batalha internacional da mais elevada transcendência. O que ocorre num país incide decisivamente em outro, para bem ou para o mal. E o olhar a que nos obriga essa realidade não pode, nem deve, ser um olhar local, sim continental.
Estamos diante de um cenário que ultrapassa largamente as fronteiras nacionais. A sorte dos peruanos, como no começos do século XIX está estreitamente ligada ao destino dos americanos de outras terras. E se joga com a mesma intensidade nos vales do Arauca, como no agreste altiplanico; na savana colombiana ou na pampa argentina, na selva de Mato Grosso como nas margens do grande Lato de Nicarágua. Em Chile ou em El Salvador, na Pátria de Artigas ou na terra de Pancho Villa. La luta é a mesma.
O processo peruano que alguns gostam de ver com olhos estreitos e locais, não responde só a propósitos pequenos e aldeões. Está muito mais interconectado com a realidade continental e mundial do que pensam nossos caboclos radicais. E deve ser visto, então, como episódio de um confronto maior em que os interesses dos povos estão por cima das pequenas ilusões eleitorais de pessoas ou partidos.
Por isso a unidade que deve ser construída –a que verdadeiramente será transcendente quando madura- deverá ser política, mais que eleitoral. E recolher, com modéstia criadora, sem preconceitos mesquinhos, as mais ricas experiências do passado.
Se para desqualificar a Cuba –que brilhou com luz própria- o importante é o terno azul de Raúl Castro, ou a armação de seus óculos, para os povos, o decisivo para qualifica-la é o exemplo de dignidade que nos tem legado sempre, e que esteve visível amplamente na Cúpula de Havana, a Celac 2014, que passará à história como o primeiro grande encontro continental pela libertação humana celebrada em Nossa América. Por essa bandeira lutaremos em paz, sem armas nucleares, nem violência, nem conflitos fronteiriços. E oxalá também sem fome nem miséria, sem discriminação nem atraso.
*Da equipe de colaboradores de Diálogos do Sul.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul do Global.

Gustavo Espinoza M. Jornalista e colaborador da Diálogos de Sul em Lima, Peru, é diretor da edição peruana da Resumen Latinoamericano e professor universitário de língua e literatura. Em sua trajetória de lutas, foi líder da Federação de Estudantes do Peru e da Confederação Geral do Trabalho do Peru. Escreveu “Mariátegui y nuestro tiempo” e “Memorias de un comunista peruano”, entre outras obras. Acompanhou e militou contra o golpe de Estado no Chile e a ditadura de Pinochet.

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