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Jovenel Moïse (Foto: Governo de Danilo Medina)

Chegada de Jovenel Moïse ao poder no Haiti e seu assassinato são parte de projeto global

O cenário atual do país levanta para nós uma série de questões: que lições tirar da experiência do Haiti? Em que sentido essa experiência afeta outros países latino-americanos, caribenhos e africanos?

Handerson Joseph
Revista IHU On-line
Porto Alegre (RS)

Tradução:

“Como explicar que uma colônia das mais produtivas das Américas, o Haiti, tenha passado a país dependente, pauperizado e alijado de um intercâmbio favorável na economia internacional?

Como sair da preguiça simplista para compreender estruturalmente o fato de que de uma colônia que representava um terço da economia francesa tenha se tornado o país mais empobrecido das Américas?”

Este é o questionamento do professor do Departamento de Antropologia e do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Handerson Joseph. Eis o artigo a seguir.

* * *

Passados três dias do assassinato brutal do ex-presidente do Haiti, Jovenel Moïse (53 anos), ainda muitas informações circulam nas redes sociais e nos meios de comunicação sobre sua morte que, a meu ver, deve ser entendida num contexto histórico e político estrutural, envolvendo interesses e atuações de agentes locais e internacionais.

Desde 2018, em resposta à deterioração da situação socioeconômica, na qual o déficit orçamentário atingiu o recorde de 89,6 milhões de dólares, a má gestão do governo de Moïse e as denúncias de corrupção do desvio estimado em 3,8 milhões de dólares americanos, envolvendo autoridades políticas no Fundo Petrocaribe (uma aliança em matéria petroleira entre alguns países do Caribe e a Venezuela), surgiram várias manifestações, mobilizadas por diversos agentes, pessoas de diferentes classes sociais, gerações, gênero e partidos políticos.

Silêncio midiático

No entanto, houve um silêncio dos meios de comunicação internacionais e do Core Group (composto por representantes da ONU, do Brasil, do Canadá, da França, da Alemanha, da Espanha, da União Europeia, dos Estados Unidos e da OEA) em relação a essas denúncias e de outras acusações graves antidemocráticas.

A situação do país se agravou ainda mais com a crise política e jurídica desde fevereiro deste ano, quando o Conselho Superior do Poder Judiciário (CSPJ) publicou a resolução CSPJ/06. 2021/2021, declarando o fim do mandato constitucional de Moïse.

No entanto, além de sua permanência no poder, ele arquitetou uma possível mudança constitucional prevista para o próximo mês de setembro e com a qual, provavelmente, suas alianças governamentais se beneficiariam para manter a ordem vigente.

Faces perversas

A meu ver, o seu assassinato revela duas faces perversas da administração neocolonial enraizadas no país: a primeira é a sua conquista presidencial arquitetada por esse modelo administrativo, e a segunda é a sua morte pelo mesmo sistema que ele ajudou a manter.

Logo depois do assassinato, o ex-primeiro-ministro, Claude Joseph, que havia sido substituído um dia antes da morte do presidente, declarou o estado de sítio e alguns chefes de Estados poderosos supranacionais se pronunciaram rapidamente no sentido de que estariam abertos a “ajudar” o Haiti, o que pode também se converter em mais uma missão estrangeira fracassada no país.

Histórico intervencionista

A título de ilustração, em 27 de julho de 1915, quando o presidente haitiano Jean Vilbrun Guillaume Sam foi assassinado, no dia seguinte, o presidente Woodrow Wilson, dos Estados Unidos, enviou fuzileiros navais ao Haiti.

As forças militares dos EUA invadiram o Haiti e ocuparam o país por 19 anos (1915-1934). Vale lembrar que entre as táticas e as lógicas neocoloniais está a produção do caos, do descontrole, da desorganização, justificando o poder de dominação, do policiamento e do controle como formas de disciplinar o espaço e as pessoas.

Nesse sentido, a sociedade civil, a diáspora haitiana, os(as) intelectuais e os(as) pensadores(as) têm um papel importante no processo de internacionalização dessas questões sociopolíticas, denunciando-as e contribuindo para uma nova sociedade, rompendo com as múltiplas formas e lógicas de dominação enraizadas nas estruturas sociais haitianas hierarquizantes, desenterrando silêncios relacionados ao arcabouço neocolonial (de parte de acadêmicos, políticos e das mídias) e desnaturalizando as retóricas preguiçosas e estigmatizadoras da gramática da miserabilidade e da pobreza associadas ao país e às pessoas haitianas, como circulou nos meios de comunicação nacionais e internacionais nesses últimos dias através de frases como “o país mais pobre nas Américas”, “pobreza extrema inviabiliza estabilidade no Haiti”.

Subserviência e empobrecimento

Como se o empobrecimento fosse a única chave de leitura para entender as estruturas sociais e as relações de poder e de dominação no país, mas, pelo contrário, o empobrecimento que tanto é exaltado é fruto do neocolonialismo e do pacto narcisista imperialista.

Como explicar que uma colônia das mais produtivas das Américas, o Haiti, tenha passado de um país independente, pauperizado e alijado de um intercâmbio favorável na economia internacional?

Como sair da preguiça simplista para compreender estruturalmente o fato de que uma colônia que representava um terço da economia francesa tenha se tornado o país mais empobrecido das Américas?

As políticas comerciais neoliberais da França e dos Estados Unidos em direção ao Haiti causaram efeitos devastadores na economia política e agrícola do país.

Tais políticas lançam luz sobre o porquê, no Haiti, de aproximadamente 80% da população vive com menos de dois dólares por dia, percentagem semelhante não ter salário ou emprego fixo, mais de 80% da produção agrícola do país serem importados, principalmente dos Estados Unidos, da República Dominicana e da China.

Dificuldades e estigmas

As dificuldades do Haiti também se devem, em boa medida, às práticas neocoloniais e à quarentena que lhe impuseram por mais de dois séculos.

Os estigmas miserabilistas e reducionistas pouco ajudam a entender a profundidade das estruturas políticas perversas do país. Pelo contrário, reforçam a mesma retórica da raça do século 18 e 19 que deixou resquícios graves, como o racismo estrutural.

O cenário atual do país levanta para nós uma série de questões: que lições tirar da experiência do Haiti?

Em que sentido essa experiência afeta outros países latino-americanos, caribenhos e africanos?

Cumpre realçar o que tem havido de específico no circuito de interações entre o Haiti e o mundo, entre o Haiti e seus vizinhos; como foi e tem sido aceita (ou não) essa nação negra assumidamente constituída de pessoas ex-escravizadas, num ambiente em que a totalidade dos vizinhos apresenta marcadas diferenças.

O governo de Moïse e seu assassinato estão longe de serem situacionais, a sua chegada ao poder e a sua manutenção nele tampouco foram situacionais, acredito serem parte de um projeto mais global.

A neocolonização do aparelho estatal escancara os limites desse projeto. Torna-se cada vez mais urgente uma consciência histórica e global longe de práticas neocoloniais.

Não há democracia sem descolonização. A democracia deve andar ao lado da descolonização, exigindo a construção de políticas estatais capazes de fazer mudanças radicais e efetivas.

A descolonização exige necessariamente sair do imediatismo simplista, do perigo da história única e das políticas humanitaristas que atuam através de lógicas neocolonialistas.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Handerson Joseph Antropólogo haitiano naturalizado no Brasil, doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tendo realizado um período de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales e na École Normale Supérieure, em Paris.

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