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O regime de Pinochet, no Chile, chegou ao fim no início da década de 1990, mas as principais candidaturas direitistas à presidência hoje mostram que aquele ideal fascista apenas se camuflou, para agora dar as caras com mais evidência. (Imagem: Wikimedia Commons - modificado)

Chile: jamais superado, Pinochet volta ao La Moneda — agora pelo voto

Independentemente do resultado do segundo turno no Chile, fato é que o país foi inebriado pelo canto da extrema-direita e por candidatos ligados — por ideais ou pelo sangue — ao fascismo global

Marco Consolo
Marco Consolo Blog
Roma

Tradução:

Tradução: Ana Corbisier

Em 16 de novembro último, realizou-se no Chile o primeiro turno das eleições presidenciais e legislativas. A candidata Jeannette Jara, militante comunista que havia vencido as primárias de uma ampla coalizão de centro-esquerda (Unidade pelo Chile), obteve 26,85% dos votos. Na segunda posição, a pouca distância, ficou José Antonio Kast, dirigente do Partido Republicano, de extrema-direita, com 23,92%. Em terceiro lugar, surpreendentemente, ficou o populista “antipolítica” Franco Parisi (19,71%) com o Partido da Gente, seguido de Johannes Kaiser (13,94%), o pinochetista “libertário” à frente do Partido Nacional Libertário. Na última posição, em quinto lugar, Evelyn Matthei (12,46%), representante da direita “tradicional” e hoje “moderada” à frente da coalizão Chile Grande e Unido.

Graças também à introdução da inscrição automática no censo eleitoral e ao voto obrigatório, a participação situou-se em 85%.

As urnas confirmaram a guinada do país para a direita, o que também se manifestou nos resultados das eleições legislativas: as diferentes expressões das direitas obtiveram quase a metade da Câmara (76 dos 155 lugares), enquanto a aliança de centro-esquerda não superou os 61 deputados. No Senado, onde estava em disputa a metade dos assentos, a direita ficou com a metade deles, frente a uma centro-esquerda que mantém uma presença discreta, ainda que minoritária.

No primeiro turno, a divisão da direita permitiu a vitória de Jara, mas a soma aritmética dos votos da direita representa hoje uma hipoteca concreta sobre o segundo turno. Em termos numéricos, portanto, a direita e a centro-direita canalizaram o voto de 50% dos eleitores no primeiro turno. Tanto Matthei como Kaiser anunciaram seu apoio a Kast, favorito para o segundo turno neste domingo, 14 de dezembro. O Partido da Gente, de Parisi (que passou de 6 a 14 deputados na Câmara Baixa, enquanto busca apoios no Senado), será quem deverá inclinar a balança, já que pode condicionar a próxima maioria. No momento, Parisi tem se mantido distante de ambos, sem dar indicações sobre seu voto no segundo turno.

Os resultados das direitas

A extrema-direita, a nova direita, apresentou-se com dois candidatos presidenciais (Kast e Kaiser), mas com uma chapa parlamentar única: Mudança pelo Chile (Partido Republicano, Partido Nacional Libertário de Kaiser e Partido Social Cristão). Os republicanos aumentaram seus deputados de 14 para 31, enquanto no Senado obtiveram cinco lugares. Os libertários de Kaiser estrearam com oito deputados e uma senadora. Por sua vez, os social-cristãos (de matriz evangélica e filoisraelense) elegeram três representantes para a Câmara. O total de eleitos da “nova direita” é de 42 deputados e seis senadores.

Pelo contrário, o balanço é negativo para a direita tradicional do Chile Vamos — que reúne União Democrática Independente (UDI), Renovação Nacional (RN), Evópoli, Amarelos pelo Chile e Democratas, na coalizão “Chile Grande e Unido” —, em particular para RN e Evópoli. Se em 2017 o RN alcançou o recorde de 36 deputados, nestas eleições caiu para 13, ficando até mesmo atrás do Partido da Gente, de Parisi, que elegeu 14. Quanto aos senadores, em contrapartida, elegeu quatro.

Evópoli, por sua vez, sofreu o golpe mais duro: com apenas dois deputados eleitos, perde sua personalidade jurídica, por não ter ao menos quatro e não ter superado o umbral de 5% dos votos a nível nacional.

Em termos de votos, a direita tradicional do Chile Vamos (UDI, RN, Evópoli) não está muito distante da “nova direita”: 2,232 milhões para o “Chile Grande e Unido” e 2,439 milhões para o “Mudança pelo Chile”.

O escasso resultado da centro-esquerda

No que diz respeito ao progressismo, à esquerda e à social-democracia, trata-se do pior resultado desde o fim da ditadura, com minoria na Câmara dos Deputados e em substancial paridade no Senado. Isto, apesar de, impulsionado principalmente pela própria Jara em sua qualidade de Ministra do Trabalho, o governo ter conseguido que um parlamento com maioria opositora aprovasse a redução para 40 horas semanais da jornada laboral, o aumento do salário mínimo e a reforma das pensões. José Antonio Kast venceu claramente em quatro dos cinco municípios mais pobres do país, enquanto no quinto prevaleceu Franco Parisi. As razões deste resultado são múltiplas, mas não são objeto desta nota.

A comunista Jeannette Jara e a atual coalizão de governo enfrentaram uma difícil campanha para o segundo turno, buscando apoios para além de sua própria coalizão, a fim de derrotar o candidato pinochetista, hoje favorito para o La Moneda.

O laboratório chileno

Além do resultado eleitoral, vale a pena analisar as diferentes vertentes das três ou quatro direitas chilenas, já que, mais uma vez, o Chile se confirma como um laboratório político das direitas mundiais. De um país no fim do mundo chega a confirmação do crescimento internacional das direitas fascistas. Também no Chile, a extrema-direita subsume a direita moderada (deslocando-a e tornando-a secundária) e impõe sua própria agenda. Longe de representar o passado, a extrema-direita e o fascismo são o futuro que o capital tenta impor, caso não seja derrotado radicalmente.

A graduação do fascismo pinochetista: as direitas “tradicionais”

No distante 1973, o golpe de Estado civil-militar de Pinochet, além de defender os interesses das multinacionais estadunidenses e da oligarquia local, serviu para instaurar e supervisionar a experiência neoliberal mais extrema da Escola de Chicago e de seus Chicago boys. A longa ditadura (17 anos) consolidou um modelo neoliberal extremo e as privatizações daqueles anos sombrios favoreceram as multinacionais estrangeiras e a oligarquia local. Uma oligarquia formada por entre nove e dez famílias que controlam o Chile e que, nos anos posteriores à ditadura, defenderam seus privilégios e se alinharam politicamente com a direita tradicional (União Democrática Independente e Renovação Nacional).

Desde o fim da ditadura (1990), durante muitos anos os dois partidos foram a principal expressão da direita chilena, com as inevitáveis tensões internas na aliança político-eleitoral para conquistar a hegemonia. Hoje, essa aliança (e seu projeto político) está próxima do seu fim, absorvida pela extrema-direita pinochetista, que se impôs com força em suas diversas variantes.

A UDI e a RN

A UDI foi o “braço político” da ditadura desde sua fundação, em 1983, graças a Jaime Guzmán, o principal ideólogo do pinochetismo e redator principal da Constituição da ditadura, ainda vigente. Desde o princípio, a UDI adotou a base ideológica do “gremialismo” (uma versão chilena do “corporativismo” fascista) e do “Estado mínimo”, presente, mas subsidiário à iniciativa privada. Define-se como um partido “popular e de inspiração cristã” e, como partido interclassista, além dos bairros ricos, também consolidou uma boa presença nos bairros populares.

Nos primeiros anos da transição, a UDI tinha menos apoio que seu aliado Renovação Nacional (RN), que apresentava um perfil mais moderado e maior respaldo das classes mais ricas. No entanto, com o passar dos anos, a UDI conseguiu ganhar adeptos, igualando e superando a RN. Em 2001 foi o partido mais votado, arrebatando esse título da Democracia Cristã, enquanto durante o primeiro governo de Michelle Bachelet (2006-2010), a UDI tornou-se o partido majoritário em ambas as câmaras do Parlamento. À aliança original entre UDI e RN (que mudou de nome em várias ocasiões) foram se somando outros setores do “centro”, entre eles um da Democracia Cristã, partido histórico na política chilena. Desde o fim da ditadura em 1990, os poderes de fato apostaram na aliança orgânica dos dois partidos para garantir seus interesses.

Mas em 2008 começam as fissuras internas na UDI, com um setor liderado por José Antonio Kast.

O pinochetismo republicano de Kast

José Antonio Kast provém de uma família alemã que emigrou para o Chile depois da Segunda Guerra Mundial. Seu pai, Michael Kast, foi membro do Partido Nazista, ao qual se filiou em 1942, e serviu como oficial na Wehrmacht durante o conflito. Alguns sustentam que fugiu de um julgamento na Alemanha por crimes de guerra e que entrou no Chile com documentos falsos. No Chile, a família fundou em 1964 uma empresa de embutidos (Cecinas Bavaria), que constituiu a base de sua grande riqueza. José Antonio é o mais jovem de nove irmãos. Durante a ditadura de Pinochet, apoiada abertamente por seu pai, um de seus irmãos, Miguel, economista dos Chicago Boys, foi ministro do Trabalho (1980-1982) e diretor do Banco Central durante alguns meses. Outro irmão, Christian, é acusado de ter participado do fuzilamento de opositores políticos durante os primeiros meses do golpe de 1973 (Massacre de Paine).

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Em 1996, Kast inicia sua carreira política na UDI, na qual milita até 2016, sendo deputado de 2002 até 2018. Em 2011 torna-se chefe da bancada na Câmara de Deputados e, de 2012 a 2014, ocupa o cargo de secretário-geral. A ruptura com a UDI dá-se em 2017, ano em que se apresenta como independente nas eleições presidenciais, com escassos resultados. Naquele ano, causa alvoroço um discurso seu no qual “sai do armário” e declara “defender com orgulho a atuação do governo militar”[1].

Depois de fundar em 2018 o movimento Ação Republicana, finalmente em 2019 cria o Partido Republicano e o “think tankIdeias Republicanas.

Com um patrimônio multimilionário, em 2019 é acusado de ter transferido dinheiro para várias empresas no paraíso fiscal do Panamá, mas nega ser o proprietário, afirmando que pertencem ao seu irmão Christian [2].

Em 2021 se apresenta novamente às eleições presidenciais: vence o primeiro turno com 27,91% dos votos, mas perde no segundo turno para Gabriel Boric, o jovem candidato da coalizão de centro-esquerda. A partir dessa derrota, Kast moderou algumas de suas posições controversas, mas segue sendo uma figura destacada entre os nostálgicos do pinochetismo por sua defesa do legado da ditadura e por suas posições ultraconservadoras em relação aos valores. Durante seu mandato parlamentar, Kast recebeu o apoio do bispo Juan Ignacio González Errázuriz, que orientou sua diocese a apoiar os políticos contrários à anticoncepção, ao aborto e ao matrimônio entre pessoas do mesmo sexo. O apoio do bispo desempenhou um papel chave na carreira política de Kast e contribuiu significativamente para aumentar o consenso em torno do católico praticante e membro do Movimento Apostólico de Schönstatt [3].

Mas, diferentemente das duas campanhas anteriores, em que Kast havia centrado sua agenda reacionária nas liberdades individuais e na defesa da ditadura de Pinochet, desta vez optou por evitar polêmicas e tons fortes, concentrando-se na segurança, na imigração e na economia — as principais preocupações atuais dos cidadãos —, em busca de consensos para além da extrema-direita.

Chile jamais superado Pinochet volta ao La Moneda — agora pelo voto 3
Cadáver de Augusto Pinochet, durante velório no salão central da Escola Militar Libertador Bernardo O’Higgins, em Santiago do Chile, em 11 de dezembro de 2006. Morreu sem pagar por seus crimes. (Imagem: Wikimedia Commons – modificado)

Portanto, sua campanha se baseou na promessa da “mudança”, de “fechar as fronteiras” e expulsar todos os imigrantes irregulares (começando por venezuelanos, colombianos e haitianos), com deportações em massa e mão dura na segurança pública. No entanto, apesar do aumento da violência (em grande parte provocado pelo crime organizado transnacional já arraigado no país), o Chile tem uma das taxas de homicídios mais baixas da América Latina e, ao mesmo tempo, é o segundo país latino-americano com maior “sensação de insegurança”. Kast propõe autorizar civis a portar armas e o direito de atirar em ladrões. Defende anistia para os militares condenados por torturas ou homicídios cometidos durante a ditadura. Opõe-se ao aborto em todas as circunstâncias e compromete-se a revogar a lei que o autoriza em casos de estupro ou risco à vida da mãe. Propõe reintroduzir o ensino religioso nas escolas, argumentando que “os chilenos precisam de Deus e o Estado deveria promover a religião nas escolas”. Na política externa, quer fechar a fronteira com a Bolívia, acreditando que essa medida pode ajudar a combater com mais eficácia o narcotráfico.

No âmbito econômico, propõe reduzir o gasto público, cortar impostos e dar máxima liberdade aos mercados financeiros. Citando como modelo o economista estadunidense Milton Friedman (mentor dos Chicago Boys no Chile), sustenta que a redução das desigualdades sociais não deve ser prioridade, pois “uma sociedade que favorece a igualdade em detrimento da liberdade não terá nenhuma das duas”.

Kast soube cavalgar o medo e, em uma campanha eleitoral com poucos erros (graças à experiência das duas eleições anteriores), manteve um discurso duro contra a imigração e a criminalidade, a favor do crescimento econômico e de sair da “mediocridade” do atual governo (“o pior da história do Chile”).

O pinochetismo “libertário” de Johannes Kaiser

Johannes Maximilian Kaiser Barents von Hohenhagen nasceu em Santiago, em 1976, também filho de pais de origem alemã-chilena. Estudou em escolas alemãs no Chile e concluiu o ensino médio na Escola Militar do Exército, viajando em seguida para a Alemanha e a Áustria para conhecer o mundo, sem concluir estudos universitários.

No início de sua trajetória política, Johannes foi membro da UDI, até renunciar por considerar que as mudanças na linha do partido o tornaram moderado e complacente demais. Em 2017, aproximou-se de Kast, para quem fez campanha nas redes sociais, e em 2019 ingressou no Partido Republicano, não sem atritos que o levaram a entrar e sair da “casa-mãe”.

Dois anos depois, em 24 de novembro de 2021, em plena campanha do segundo turno das eleições presidenciais, José Antonio Kast denunciou Kaiser ao tribunal supremo do Partido Republicano, devido à polêmica gerada por um vídeo em que criticava o voto feminino. Em 2022, apesar de ter abandonado o Partido Republicano, permaneceu em seu grupo parlamentar como deputado independente.

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Em 2024, após nova ruptura com Kast, fundou o seu Partido Nacional Libertário, como alternativa às outras duas direitas [4]. E, nestas eleições, Kaiser descartou a realização de primárias com os republicanos e com o Partido Social Cristão, diante da decisão dos três de se apresentarem de forma independente no primeiro turno [5].

Muito atento à comunicação, Kaiser é o criador de “O Nacional Libertário”, um programa no YouTube iniciado em 2016 que conta com milhares de inscritos em todo o mundo. Seu documentário sobre a história familiar do brigadeiro do Exército chileno Miguel Krassnoff (um dos assassinos e torturadores mais sanguinários da ditadura, atualmente preso e cumprindo várias penas de prisão perpétua) tornou-o um youtuber famoso no mundo político. Foi justamente a partir do canal no YouTube que o deputado libertário estreou nestas eleições e construiu sua carreira política.

Admirador do argentino Javier Milei, Kaiser se autodefine como “reacionário” com ideias paleolibertárias. Destacam-se seu apoio histórico ao golpe de Estado no Chile em 1973 e suas posições sobre temas como imigração (com fechamento de fronteiras) e posse de armas (um de seus irmãos é presidente da Associação Chilena do Rifle). Também se define como conservador no social (é um antiabortista convicto) e liberal no econômico. Se Kast defende o Estado mínimo, Kaiser o reduz ainda mais e limita suas ações, seguindo a ideologia de seu mentor Milei. Com o objetivo “libertário” de reduzir o Estado, considerado o principal inimigo da liberdade individual, quer diminuir o número de ministérios de 24 para 10, eliminar a agenda de gênero e extinguir o Ministério da Mulher e da Equidade de Gênero.

Evelyn Matthei — ou como perder eleições que já pareciam ganhas

Filha de Fernando Matthei, um dos generais golpistas que integraram a junta militar de Pinochet, Evelyn Matthei (ela também de origem alemã-chilena) é uma figura presente há muitos anos na política, tendo sido eleita primeiro pela RN e depois pela UDI. Foi ministra do Trabalho no primeiro governo de Sebastián Piñera (2011-2013) e prefeita de Providencia (2016-2024), um importante município de Santiago. Em 2015, passou a integrar a direção da fundação “Avança Chile”, um think tank da centro-direita chilena.

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À derrota anterior nas eleições presidenciais de 2013 (vencidas pela socialista Michelle Bachelet com 62%) soma-se a de agora, que encerra um ciclo político pós-ditadura. Apesar de seu extenso “currículo”, desta vez a candidata da aliança Chile Vamos passou de liderar as pesquisas durante mais de um ano a ficar em quinto lugar nas eleições. São múltiplas as razões que explicam seu fracasso e o da aliança das direitas tradicionais. Em primeiro lugar, a queda de Matthei nas pesquisas coincide com a irrupção de Jeannette Jara (vencedora das primárias da centro-esquerda com 60%), que polarizou o panorama político. Com uma candidata sólida da centro-esquerda e do Partido Comunista, o discurso mais moderado de Matthei pareceu fraco para o eleitorado de direita.

Sua derrota também foi facilitada por seu atraso na formação de um comando eleitoral, pela recusa em convocar primárias internas na direita, pelos fortes e repetidos ataques de bots nas redes sociais (dos quais Matthei acusou o próprio Kast), por uma mensagem vacilante e pela polarização gerada pelas candidaturas de Jara e Kast, que deixaram pouca margem de manobra e pouco atrativo eleitoral à centro-direita.

A surpresa de Franco Parisi

A surpresa mais notável foi o terceiro lugar (19,7%) do economista Franco Parisi e seu “Partido da Gente”. Com o lema “nem fachos, nem comunachos” e propostas como a redução de impostos, o “fim do terrorismo” na Araucânia em oito meses, a repatriação a pé dos imigrantes sem documentos, o minamento das fronteiras contra a imigração clandestina e o contrabando, a eliminação do Ministério da Cultura e o uso de navios como prisões, Parisi apostou em um voto despolitizado, afirmando que não se importava que o chamassem de “populista”.

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O economista conseguiu triplicar seu apoio em relação a 2021, quando o voto era opcional. Segundo uma primeira análise, grande parte dos seus cerca de 2,5 milhões de votantes havia votado contra a nova constituição no referendo de 2022, com forte presença de jovens, nível educacional mais baixo e grande apoio entre igrejas evangélicas. Trata-se de um grupo menos politizado que o de Jara ou Kast, sensível à retórica anti-establishment. O Partido da Gente elegeu 14 deputados, ainda que, na última legislatura, os 6 deputados eleitos tenham mudado de lado e renunciado ao PDG.

Cabe recordar que, no segundo turno das eleições de 2021 entre o atual presidente Boric e Kast, Parisi apoiou este último, enquanto hoje não deu qualquer indicação de voto.

Kast e Meloni

Kast e Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, reuniram-se em Roma antes de ela assumir o governo em 2022 e, no setembro passado, Kast voltou à Itália para encontrá-la novamente. “Vimos na Itália como a liderança decidida de Giorgia Meloni conseguiu pôr ordem nas fronteiras, enfrentar a imigração ilegal e devolver segurança às famílias. Essa é a inspiração que nos anima: no Chile não ficaremos de braços cruzados enquanto milhares de imigrantes ilegais entram sem controle”, afirmou Kast.

Poucos dias depois da segunda posse de Donald Trump na Casa Branca, Kast declarou: “Nossas ideias já triunfaram nos Estados Unidos, na Itália, na Argentina (…) e também triunfarão no Chile.”

E logo após o recente primeiro turno na nação chilena, o candidato republicano publicou em seu perfil no X: “Acabo de falar com a primeira-ministra italiana @GiorgiaMeloni, com quem coincidimos quanto às enormes oportunidades que o Chile e a Itália têm para projetar ao futuro suas excelentes relações bilaterais”.

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Tanto Kast quanto Meloni são presença constante em diversos fóruns internacionais da extrema-direita, como a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC). Kast também participou da convenção do Vox em Madri, onde se reuniu com o espanhol Santiago Abascal, o presidente argentino Javier Milei, o salvadorenho Nayib Bukele e o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán.

Quanto às alianças internacionais, de 2022 a 2024 Kast foi presidente da rede internacional de direitas Political Network for Values [6].

Conclusões inconclusas

Enquanto Kast, Kaiser e a comunidade republicana festejam, o Chile Vamos se vê obrigado a aceitar a dura realidade de que já não é o centro do debate e da ação das direitas. Nesse clima, começaram as negociações mais difíceis para a centro-direita sobre o peso que o Chile Vamos terá em um eventual governo de José Antonio Kast.

Sem dúvida, o quinto lugar de Evelyn Matthei e o fraco resultado nas eleições parlamentares causaram uma comoção dentro da UDI, RN e Evópoli, embora alguns partidos tenham sido mais afetados que outros. O resultado abriu o debate sobre o futuro da centro-direita diante de um possível governo republicano e sobre quais formas de participação seriam possíveis. A hipótese de um partido único da direita tradicional não convence muitos. Pelo contrário, dentro da UDI alguns defendem retomar o próprio caminho e destacam o acordo com os republicanos. Em todo caso, a trajetória argentina com Javier Milei serve de advertência, pois o bloco da direita tradicional reduziu-se ao mínimo.

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Além da disputa presidencial, o fato político mais relevante das eleições chilenas é o grande avanço da direita no Parlamento, em particular na Câmara dos Deputados, onde o Partido Republicano tornou-se a primeira força parlamentar, com 31 deputados. No total, 76 dos 155 assentos estão nas mãos das direitas, a apenas dois votos da maioria absoluta simples, necessária para aprovar leis ordinárias sem acordos com a centro-esquerda.

O segundo turno definirá quem governará o Chile, mas, ainda que Kast perca as eleições presidenciais, a “nova direita” e a direita tradicional já conquistaram de fato o poder legislativo para frear, condicionar ou reconfigurar qualquer projeto governamental.

Ao mesmo tempo, ainda que o resultado presidencial siga em aberto até este domingo (14), o novo mapa parlamentar marca um cenário complexo para um possível governo de centro-esquerda liderado por Jeannette Jara.

Quer gostemos ou não, a formação de qualquer governo hoje depende do Partido da Gente (PDG), a terceira força legislativa, que por ora se mantém à margem, observando como evolui o panorama. 

Referências

[1] José Antonio Kast: “Yo sí defiendo con orgullo la obra del governo militar”, in The Clinic, 11 agosto 2017.

[2] Ojeda G Juan Manuel, La ruta de los dineros de José Antonio Kast, in La Tercera, 1º setembro 2019.

[3] https://schoenstatt.com/it/informazioni-su-schoenstatt/

[4] Il deputato Johannes Kaiser si dimette dal Partito Repubblicano accusando una “degradazione” della sua funzione parlamentare, La Tercera, 10 janeiro 2024.

[5] Kaiser annuncia che non parteciperà alle primarie con Chile Vamos dopo il sostegno alla riforma pensionistica, in Radio Bío-Bío, 28 janeiro 2025

[6] https://politicalnetworkforvalues.org/en/


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Marco Consolo Jornalista italiano e residente no Chile, é formado em Ciências Políticas pela Universidade de Nápoles Federico II e responsável por projetos de cooperação em mídia comunitária na América Latina.

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