Pesquisar
Pesquisar
Hugo Gutiérrez, ex-deputado comunista: “Estamos presenciando o legado de Boric.” (Foto: Reprodução / Facebook)

“Desconexão com base social” e falta de “autocrítica”: Esquerda no Chile avalia vitória de Kast

A distância entre representantes e os anseios do povo chileno é apontada como fator central para a derrota da esquerda no último domingo (14) — um problema que, alguns afirmam, vai além de Boric

Aldo Anfossi
La Jornada
Santiago

Tradução:

Beatriz Cannabrava

Enquanto as direitas se regozijam com a categórica vitória do ultraconservador José Antonio Kast nas eleições presidenciais de domingo (14) no Chile, ao obter cerca de 58% dos votos e em torno de 16 pontos percentuais de vantagem sobre a oficialista Jeannette Jara, no campo progressista começaram as recriminações em torno da surra eleitoral sofrida.

Entre as mais ásperas, a do senador socialista Fidel Espinoza, que criticou o partido governante Frente Ampla (FA), do presidente Gabriel Boric, responsabilizando-o pelo desfecho.

“Nossa derrota começa com o processo constituinte (2022), quando mentes excessivamente fundamentalistas provocaram um rechaço cidadão a esse texto constitucional; ali começou a debacle”, afirmou o parlamentar, que acrescentou: “A isso se soma a posição que o FA teve neste governo, nunca reconhecendo nem fazendo autocrítica diante de lamentáveis fatos de corrupção. Além disso, o fundamentalismo exacerbado de alguns ministros (…) na pauta ambiental freou o crescimento econômico e gerou desemprego.”

A presidenta do Partido Socialista, Paulina Vodánovic, reconheceu: “Arrastamos há bastante tempo a falta de um questionamento e de uma autocrítica profunda sobre o momento político desde o Apruebo (processo constituinte), após termos perdido aquela eleição”. E admitindo uma desconexão com a base social, enfatizou: é preciso “refletir de verdade e nos desafiar, porque nasce a intenção de entender o que está ocorrendo e interpretar os desejos de chilenas e chilenos”.

Outro senador oficialista, Ricardo Lagos Weber, pediu calma: “Em vez de sair buscando responsabilidades imediatamente, creio que há algo mais estrutural do que apenas o governo. Não descarto que isso possa ter influência ou não, mas o tema é (…) entender o que estão pedindo muitos chilenos, aos quais não demos a resposta adequada.”

Um ex-deputado comunista, Hugo Gutiérrez, que fracassou na tentativa de se reeleger em novembro último, escreveu: “Estamos presenciando o legado de Boric”. Declarou ainda que a derrota reflete uma gestão desconectada das bases sociais.

Primeira reunião

O presidente eleito foi recebido por Boric no Palácio de La Moneda, dando início à coordenação para a transição de governo, prevista para março.

Expurgo contra esquerda, elos com Bukele e Milei, ofensiva a Maduro: o que esperar de Kast no Chile

Ao término do encontro, Boric destacou “o clima positivo em que a reunião se desenvolveu”. “Aqui não faz sentido, do meu ponto de vista, maquiar as coisas. Vimos de visões políticas muito distintas. Estivemos em enfrentamento e em posições opostas durante grande parte de nossa trajetória política. Defendemos princípios e valores diferentes. No entanto, o Chile nos une, e somos parte do mesmo destino nacional.”

O fator Trump

Em Washington, o presidente Donald Trump comentou que havia tomado conhecimento do resultado das eleições: “No Chile, a pessoa que apoiei, que não liderava as pesquisas, acabou vencendo com bastante facilidade. Portanto, estou ansioso para parabenizá-lo. Ouvi dizer que é uma pessoa excelente”, declarou.

Kast viajou nesta terça-feira (16) à Argentina para se reunir com o presidente Javier Milei, que publicou sentir “enorme alegria pelo esmagador triunfo do” seu “amigo José Antonio”. É “mais um passo da nossa região na defesa da vida e da propriedade privada. Estou certo de que vamos trabalhar juntos para que a América abrace as ideias da liberdade e possamos nos libertar do jugo opressor do socialismo do século 21”, alegou.

O primeiro-ministro israelense e foragido da Corte Penal Internacional, Benjamin Netanyahu, somou-se às felicitações, ao declarar: “Espero trabalhar estreitamente com o senhor e com o Chile para aprofundar a cooperação em segurança, inovação, água, agricultura e crescimento econômico.”

As relações chileno-israelenses ficaram congeladas em maio, quando Boric retirou os adidos militares em protesto contra a situação humanitária em Gaza.

La Jornada, especial para Diálogos do Sul Global – Direitos reservados.


As opiniões expressas neste artigo não refletem, necessariamente, a opinião da Diálogos do Sul Global.

Aldo Anfossi

LEIA tAMBÉM

CAFÉ COM VODKA Narrar o mundo de outro lugar (1)
CAFÉ COM VODKA | Narrar o mundo de outro lugar
Venezuela vai liderar crescimento econômico na América Latina em 2026, aponta Cepal
Venezuela vai liderar crescimento econômico na América Latina em 2026, aponta Cepal
Protestos na Bolívia decreto de Paz para combustíveis faz cesta básica disparar 40% “Arruinou o Natal”
Protestos na Bolívia: decreto de Paz para combustíveis faz cesta básica disparar 40%: “Arruinou o Natal”
Especialista “Operação temporária” dos EUA no Equador visa reafirmar poder sobre América do Sul
“Operação temporária” dos EUA no Equador visa reafirmar poder sobre América do Sul, diz analista